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Abril 2, 2009 at 3:05 pm (Cultura Indiana, Filosofia do yoga, Hatha Yoga, Uncategorized)

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Origens do Yoga – Georg Feuerstein

Dezembro 28, 2008 at 11:34 pm (Cultura Indiana, Filosofia do yoga, Hatha Yoga)

O Yoga Arcaico: Os muitos textos do que se pode chamar de “Yoga Arcaico” ou “Yoga Védico” são os próprios quatro Vedas – Rig-Veda, Yajur-Veda, Sáma-Veda e Atharva-Veda – e os textos rituais dos Brahmanas e Áranyakas, baseados nos quatro hinários. O Rig-Veda, que um número cada vez maior de eruditos já data do terceiro e do quatro milênios a.C., é uma impressionante coletânea de hinos compostos por videntes (rishi) cujo olhar interior atravessava o mundo visível (material) e penetrava os mundos invisíveis (sutis). Por milhares de anos essa grande obra foi transmitida oralmente com toda fidelidade até ser por fim escrita, no século XIV. A correta recordação dos hinos exigia uma memória incrível – arte em que todos os povos antigos parecem ter se superado. Como o Rig-Veda representa a parte mais sagrada de todo o cânone dos textos sagrados hindus, os brahmins guardavam-no cuidadosamente dos olhos e ouvidos dos não-iniciados. Com efeito, foi só no século XIX que estrangeiros puderam lê-lo. Nessa época, até mesmos os brahmins já haviam se esquecido do sentido de certas palavras arcaicas e em grande medida ignoravam o significado mais profundo dos mais de dez mil versículos desse hinário.Por meio dos esforços da erudição moderna, cujos pioneiros foram grandes estudiosos europeus como Paul Deussen e Max Muller, o significado do Rig-Veda tem sido redescoberto aos poucos. Esse trabalho de resgate ainda não terminou. Com efeito, o sentido mais profundo do Rig-Veda e dos outros hinários ou “coletâneas” (samhitá) védicas ainda está, em grande parte, perdido para nós. Esse fato foi posto em evidência por Sri Aurobindo, pai do moderno Yoga Integral, que aplicou o seu profundo conhecimento de Yoga à interpretação da herança védica.

O Yoga Pré-Clássico: Os ensinamentos do Yoga Pré-Clássico sucederam aos Vedas (c.4500-2500 a.C.) mas precederam o famoso Yoga-Sútra de Patañjali (c.100-200 d.C), que veio a ser reconhecido como a expressão filosófica clássica do Yoga. Os textos da era pré-clássica ensinam diversas versões do Sámkhya-Yoga, segundo o qual a realidade última é única e singular, mas se manisfesta em sucessivos níveis de existência que terminam com o cosmo físico que conhecemos. Essa idéia já se encontra no Rig-Veda, mas está desenvolvida em toda a sua plenitude nas Upanishads. Nessas escrituras sagradas de caráter esotérico, encontramos pela primeira vez uma enunciação clara das doutrinas do não-dualismo (advaita) combinadas às do emanacionismo: universo da multiplicidade emana em estágios definidos da Singularidade transcendente. Com o tempo, isso conduziu á forma clássica do Sámkhya (que mapeia os estágios desse processo de emanação e as diversas categorias a que se dá origem). Conquanto os primeiros Upanishads, como o Brihad-Áranyaka, o Chándogya e o Taittirîya-Upanishad, não usem ainda o termo yoga no sentido técnico que adquiriu posteriormente, eles pressupõem evidentemente uma familiaridade com a disciplina espiritual que esse termo veio a significar em épocas posteriores.O mais antigo texto desse gênero que conhece a palavra yoga em seu sentido técnico é o Katha-Upanishad, composto na era pré-budista. Esse texto delineia as práticas e idéias principais do Yoga. Existem várias traduções razoavelmente confiáveis desse Upanishad, especialmente as de S. Radhakrishnan e R.E. Hume, bastante fáceis de se obter. Como esse texto, à semelhança de tantos outros textos do Yoga e do Vedánta é às vezes um pouco obscuro, os estudiosos podem consultar também o livro perspicaz de Krishna Prem. Enquanto se trabalha com o Katha-Upanishad, convém estudar também o Shvetáshvatara-Upanishad e o Maitráyaníya-Upanishad, ambos um pouco mais novos e que, portanto, evidenciam o estágio seguinte na evolução do Yoga. Também neste caso, as traduções de Radhakrishnan e Hume são bons pontos de partida. O texto principal do Yoga Pré-Clássico é o Bhagavad-Gitá, tão lido e conhecido, que constitui o “Novo Testamento” do Hinduísmo. Poucas pessoas sabem que ele é tradicionalmente considerado um Upanishad, ou seja, uma doutrina secreta que foi revelada e não composta por um indivíduo humano. Tecnicamente, o Gitá faz parte do Mahábhárata, que é uma das duas grandes epopéias nacionais da Índia. Embora existam diversas traduções desse belo texto, algumas dentre as mais populares deixam muito a desejar. Posso recomendar as versões de Sarvepalli Radhakrishnan e de Krishna Prem (que escreve do ponto de vista de um praticante). Quem quiser conhecer um excelente comentário posterior (poético e yogue) sobre o Gitá pode consultar o Jnáneshvará de Jñánadeva, do século XIII, que é uma verdadeira jóia. Foi composto em língua márati e está disponível agora numa tradução inglesa confiável e legível, de autoria de V.G. Pradhan. Para realmente compreender o Gîtâ, os estudiosos devem, sem sombra de dúvida, familiarizar-se com o contexto cultural e histórico mais amplo no qual surgiu. Também há textos pré-clássicos contidos em outras seções do Mahábhárata. São exemplos o Moksha-Dharma e o Anu-Gitá. Infelizmente, essas sessões não são facilmente acessíveis, embora os estudiosos possam compulsar o The Beginnings of Indian Philosophy de F. Edgerton, que traz excertos do Moksha-Dharma. Essa seção inteira e também o Anu-Gitá que foram traduzidos com o restante da epopéia por K.M. Ganguli e também M.N. Dutt. À semelhança do Mahábhárata, também a epopéia do Rámáyama trata, sobretudo de ensinamentos que giram em torno do valor fundamental do dharma, ou seja, da moral e da conduta virtuosa. Além disso, apresenta ensinamentos yogues sob a denominação de tapas, “ascese”.

O Yoga Clássico: A doutrina do Yoga Clássico está codificada no breve Yoga-Sútra de Patañjali e nos vários comentários a esse texto, escritos em sânscrito. O Yoga Clássico é chamado yoga-dárshana, o sistema filosófico ou ponto de vista do Yoga. Existem muitas paráfrases mas poucas boas traduções da obra de Patañjali, que é difícil de entender, pois pressupõe uma certa quantidade de conhecimento do pensamento e da cultura indiana. Não obstante, o estudo desse texto pode ser extremamente compensador. Foi isso que eu fiz com meus alunos num curso de uma aula por semana que durou nove meses, e eles evidentemente tiravam bom proveito desse exercício, tanto no que diz respeito à compreensão do sistema de Patañjali quanto à teoria e a prática do Yoga em geral. A tradução de James H.Wood é boa, posto que um tanto técnica; inclui também os dois principais comentários em sânscrito, o de Vyása e o de Vácaspati Mishra. Do ponto de vista prático, há também o The Essence of Yoga de Bernard Bouanchaud e, de B.K.S. Iyengar, o Light on the Yoga Sútras of Patañjali e o Light on Ashtanga Yoga. Para quem quiser ler um estudo erudito que defende uma interpretação não-dualista do Yoga-Sútra, (The Integrity of the Yoga Dar’sana de Ian Whicher). Muitos comentários sobre o Yoga-Sûtra foram escritos em sânscrito, e todos são bastante técnicos. Outros dois importantes comentários em sânscrito estão disponíveis em língua inglesa: o Yoga-Várttika de Vijñána Bikshu, habilmente traduzido por T.S. Rukmani, e o Yoga-Bháshya-Vivarana de Shankara Bhagavatpáda, traduzido independemente por T.S. Rukmani e Trevor Legget. Shankara foi o grande expoente do Vedânta Advaita (não-dualista), é um texto fascinante que contém muitas idéias originais.

O Yoga Pós-Clássico: O Yoga Pós-Clássico manisfesta-se num grande número de textos das seguintes categorias:

• A literatura tântrica, vasta e altamente esotérica, inclui os Ágamas, os Tantras e os Shástras, bem como a vasta literatura do Shaivismo da Caxemira e do Shaiva-Siddhânta do Sul da Índia, além dos escritos dos Siddhas em tamil. Dentre os Tantras propriamente ditos, os praticantes de Yoga devem estudar pelo menos o Kula-Arnava-Tantra e o Mahánirvána-Tantra, mais recente mas bastante significativo. Obra importante, escrita não em sânscrito mas em tamil, é  Tiru-Mantiram de Tirumûlar.

• Os Puránas, coletâneas enciclopédicas da sabedoria tradicional, que abarcam de tudo, desde a cosmologia e a filosofia até histórias de reis e de santos. Contêm muitas lendas e ensinamentos yogues. Os seguintes são especialmente importantes: o Bhagavata-Purána (também chamado Shrímad-Bhágavata), o Shiva-Purána e o Devi-Bhágavata-Purána (uma obra tântrica).

• Os chamados Yoga-Upanishads (cerca de vinte textos), a maioria dos quais foi composta depois de 1000 d.C. Entre eles incluem-se três obras de peso: o Darshana-Upanishad, o Yoga-Shikhá-Upanishad e o Tejo-Bindu-Upanishad.

• Os textos do Hatha-Yoga, como a Goraksha-Samhitá, a Hatha-Yoga-Pradípiká, a Hatha-ratna-Avalí, a Gheranda-Samhitá, a Shiva-Samhitá, o Yoga-Yájnavalkya, o Yoga-Bíja, o Yoga-Shástra de Dattátreya, o Sat-Karma-Samgraha e  Shiva-Svarodaya, todos disponíveis em inglês.

• Os escritos vedânticos, como o volumoso Yoga-Vásishtha, que ensina o Jñána-Yoga, e seu tradicional resumo, o Laghu-Yoga-Vásishtha, ambos disponíveis em versões em inglês.

• A literatura do bhakti-márga ou caminho devocional, que assume especial importância entre os Vaishnavas (adoradores de Vishnu) e os Shaivas (adoradores de Shiva). Existe um número considerável de textos bhákticos tanto em sânscrito quanto em tamil, bem como em vários outros vernáculos do subcontinente indiano. O Bhakti-Sûtra de Nárada, o Bhakti-Sútra de Shándilya e o extenso Bhágavata-Purána, que é um relato detalhado (mitológico) do nascimento, vida e morte de Krishna e contém um grande número de histórias de yogins e ascetas, todas maravilhosas e inspiradoras. Essa bela obra contém também o Uddháva-Gitá, a última instrução esotérica de Krishna ao sábio Uddháva. A adoração da Deusa a partir do ponto de vista tântrico é o tema central do Devi-Bhágavata-Purána, que também deve ser estudado. Além disso, os estudiosos sinceros do Yoga devem também ler e ponderar os grandes textos yogues associados às diversas escolas do Budismo e do Jainismo. O encontro com o mundo do Yoga por meio de sua literatura será difícil para o praticante, por diversos motivos: os textos, mesmo traduzidos e anotados, na maioria das vezes são de difícil compreensão e exigem muita concentração e perseverança. Não temos de nos tornar eruditos, mas nosso estudo (svâdhyâya) nos mostrará o que é ser um verdadeiro yogin e quais são os magníficos instrumentos que o Yoga põe à nossa disposição. Aumentará também nosso autoconhecimento e fortalecerá nosso compromisso com a a prática.

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Por que razão Kundalini deveria ser perigosa?

Outubro 13, 2008 at 9:54 pm (Hatha Yoga) (, , )

Kundalini é representada por uma língua de fogo celestial (jyotish), pura força (shakti), que penetra nosso corpo no momento do nascimento astrológico por uma passagem imaginária entre as sombrancelhas (bhrumadhya). Ela é a porção da esposa de Shiva que residirá dentro de nós durante todo o período de nossa vida, alojada num ponto qualquer próximo à base de nossa coluna vertebral.
A concepção tântrica do mundo parte do postulado de que tudo o que existe originalmente dentro de nós, existe para o nosso bem. Kundalini jamais poderia ser uma ameaça, se está dentro de nós. Ela não é um corpo estranho que teria entrado em nosso corpo no curso de nossa vida, como uma toxina, uma idéia alheia ou um microorganismo ameaçador. Kundalini por hipótese nehuma pode produzir dor, perturbação, desequilíbrio ou ameaça à vida do corpo em que ela se aloja.

Kundalini representa a força que dá identidade e sentido para o nosso corpo, e essa identidade é o nosso Dharma pessoal. Se você acreditar que Kundalini existe, então deve aceitá-la como a referência energética de sua vocação pessoal. Ela te dá vigor e perspicácia para realizar aquilo que dá significado para a sua vida.

Quanto a essa conversa de “despertar” Kundalini, é a mesma coisa que “despertar” nosso sistema endócrino ou “despertar” nossa musculatura. Isso não significa que nossas glândulas endócrinas vão subir para o alto de nossa cabeça, ou que nossos músculos vão passear por várias partes de nosso corpo.

Kundalini “desperta” apenas no sentido de expandir o efeito de sua presença para o resto do sistema orgânico, dando ao indivíduo uma autenticidade maior. A idéia tântrica é a de que o nosso ideal espiritual está estampado em nosso corpo, junto à nossa genitália. Para realizarmos esse nosso ideal, buscamos nessa região do corpo os sinais indicadores do rumo que devemos dar à nossa vida. Como Kundalini tem a natureza da contemplação (de acordo com Abhinavagupta), então é entrando em modo contemplativo que trazemos o modo de ser dessa força para o corpo todo – o que seria o “despertar” dessa serpente cósmica em nós.

Além disso, nossa consciência opera quando Kundalini repousa, e ela assume o controle quando caímos na inconsciência.

Em suma, há muito para se dizer sobre Kundalini, mas primeiro precisamos olhar Kundalini sob a mesma luz que aqueles que a descreveram para nós.

Carlos Eduardo

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Aspectos psicoenergéticos dos Ásanas Parte 2

Setembro 25, 2008 at 11:51 pm (Hatha Yoga) (, , , , , , , , )

Ainda sobre prâna

Ápana significa literalmente “força que se move para fora”. Controla todos os processos de excreção (sêmen, urina e fezes) e eliminação (eliminação de dióxido de carbono na respiração, transpiração, menstruação e nascimento) (KUPFER, 2001). Por causa dessa função de expulsão, o ápana é responsável pelo bom funcionamento do sistema imunológico. No nível sutil, regula a expulsão das experiências negativas, emocionais e mentais. Movimenta-se centrifugamente, para baixo e para fora e está localizado na parte inferior do abdômen (ROSAS, 2003).

A Dhyánabindu Upanishad, v. 95 (trad. TINOCO, 2005, p. 127), localiza o Ápana na região do Manipúra Chakra, sede do germe Ram, e a cor de Apana é “a cor do sol” (Tinoco, 2005, p. 127). A Amritanáda Upanishad (v.34, Tinoco, 2005, p. 91) afirma que a Ápana está localizada perto do ânus e que sua cor é “amarela como a cólera de Indra” (p.91). Como pode-se perceber os textos diferem ente si quanto à lozalização do Ápana.

Udána significa literalmente “força que expulsa”. Governa o crescimento do corpo, a habilidade de ficar em pé, falar, esforçar-se e entusiasmar-se. Regula a distribuição da energia vital na região do pescoço (KUPFER, 2001). No plano sutil, regula os movimentos de transformação positiva e evolução da nossa existência (ROSAS, 2003).

A Dhyánabindu Upanishad, v. 96 (trad. TINOCO, 2005, p.127), diz que Udána é da cor do Nácar, e que seu germe é a letra Va (Vam) e o elemento é a vida, o que parece ser uma analogia ao elemento água, localizando este prána, portanto, no Svadhisthána Chakra. Já a Amritanáda Upanishad (trad. TINOCO, 2005, p. 91) diz que Udána fica na garganta e é de cor amarelão (v.37).

Sámana significa literalmente “força que equilibra”. Movimenta-se circularmente, da periferia para o centro, na região média do abdômen, entre prána e ápana. Auxilia os processos digestivos em todos os níveis. Trabalha o trato gastrointestinal na digestão do alimento, os pulmões na absorção do oxigênio e a mente na assimilação de experiências sensoriais, emocionais ou mentais (KUPFER, 2001).

É dito na Dhyánabindu Upanishad, v. 97 (trad. TINOCO, 2005, p. 127), que Sámana é da cor do cristal, sua localização é onde mora o elemento Éter, ou seja, no Vishuddha Chakra, muito embora este prána esteja presente em todo corpo, “do coração ao grande artelho, passando pelo umbigo, o nariz, a garganta, os pés” (p.127). Já a Amritanáda Upanishad (v. 34, 36 e 37, trad. TINOCO, 2005, p. 91), apresenta Sámana localizada no umbigo e sua cor é branca, “resplandecente como o leite da vaca” (p.91).

Vyána significa literalmente “força que se move para fora”. Movimenta-se do centro para a periferia, entre o tronco e os membros. Controla todos os níveis de circulação: movimenta os nutrientes no corpo, os sentimentos e pensamentos no psiquismo, a administração da força de vontade e a coordenação dos outros quatro pránas (KUPFER, 2001).

A Dhyánabindu Upanishad, v. 96 (trad. TINOCO, 2005, p. 127), diz que Vyána é da cor da bandhuka (vermelha) e correlaciona este prána com o elemento terra e com o Bíja Lam, indicando ser sua localização o Múládhára Chakra. Entretanto, é dito na Amritanáda Upanishad (v. 34, trad. TINOCO, 2005, p. 91) que a natureza de Vyána é de difundir-se pelo corpo inteiro, sendo essa sua localização; e sua cor é a cor do fogo.

“Sub Pránas”

Rosas (2003) esclarece que, além desses cinco pránas principais, há ainda algumas outras correntes nervosas secundárias no homem, que ele classifica como sub-pránas. São os pránas secundários descritos no Yoga Chudamani Upanishad, a saber:
Naga (serpente) é encarregada de aliviar a pressão abdominal induzindo o arroto, o soluço e a salivação. Kurma (tartaruga), sua função é comandar a abertura e o fechamento das pálpebras. Krkara (pássaro), que provoca o espirro e a tosse. Induz a fome e a sede. Dhananjaya (conquistador de riquezas). Responsável pela sustentação e decomposição do corpo. Devadatta (dado por Deus)que induz o bocejo e o sono.
O prána atua no Pranamaya Kosha através de um complexo sistema de canais, as Nadís, que são encarregadas de distribuir a energia e de fazê-la circular por todo o corpo. As nadís foram mencionadas pelo Vedanta, mas no Yoga é que foram descritas com suas peculiaridades. Feuerstein (2001) afirma que o Prána é a energia vital descontínua, que se juntam e formam, dessa maneira, as correntes, ou nadís, e os vórtices de energia, chamado chakras.

Nadís

Nadí é derivada de Nad, que significa um talo oco, ou ainda, som, vibração, ressonância. Rosas (2003) diz que nadís são tubos, condutos ou canais que levam ar, água, sangue, nutrientes e outras substâncias para o corpo humano. São nossas artérias, veias, capilares, bronquíolos, etc. e que nos sthula sharira, as Nadís são canais através dos quais circulam a energia vital, a energia seminal e outras, bem como as sensações, a consciência e a aura espiritual. As muitas nadís existentes recebem denominações diferentes de acordo com as funções por elas desempenhadas.
Sobre a questão de equiparar as nadís como os condutos físicos (veias, artérias, etc), Iyengar (1986) faz uma ressalva, posto que, sendo elementos sutis, não podem ser comparados com a matéria. Igualmente, Feuerstein, (2001) aponta que essa comparação pode ser apenas análoga, ao invés de idêntica. Aqui consideramos a visão de Rosas (2003) de forma puramente didática, para uma melhor visualização de como atuam esses canais sutis.
No Shiva Samhitá são mencionadas 350.000 nadis. Outros textos tântricos, como o Satchakra Nirupana, falam de 72.000. O Tri-Shikhi-Brahmana-Upanishad (2.76) reconhece que esse número é incontável. Entretanto, destacam-se quatorze nadis, dentre as quais existem três principais: Sushumna, Ida e Pingala. Diz a Dhyánabindu Upanishad, v. 50-56:
“(…)Acima do sexo e abaixo do umbigo se encontra um bulbo em forma de ovo, de onde emanam os canais em numero de 72 mil; desses milhares de canais, somente se toma em consideração setenta e dois. Os mais importantes são dez por onde circulam os sopros a saber: a Ida, a Pingala, unidas à Sushumná; a Gandhari, a Hastijihva, a Pusha, a Yashasvini, a Alambusha, a Kuhu e enfim a Shankhini. É assim que é constituída a roda dos dez canais: os yogins devem ligar-se constantemente ao seu estudo. Os três canais principais onde circulam os alentos possuem por divindade a Lua, o Sol e o Fogo; são chamados a Ida, a Pingala, a Sushumná. Ida está à esquerda, Pingala à direita, Sushumná ao centro. Esses são os três caminhos por onde passam os cinco alentos: Prána, Ápana, Udána, Vyána e Sámana. (trad. TINOCO, 2005, p. 117-118)”
Sushumná é um canal central, reto, que parte do primeiro centro de energia (múládhára) e vai até o último (sahasrara), passando por todos os centros principais (chakras), sem perfurá-los. É também conhecida como a nadi do fogo. Acompanha a coluna vertebral e corresponde no corpo grosso ao sistema nervoso central (ROSAS, 2003).
Swami Sivananda (1995) esclarece que há dentro da Sushumná Nadí uma estrutura peculiar. Dentro da principal via da Iluminação há um outro canal denominado vajra nadí, o “canal do raio”, que é reluzente como o sol. Dentro de vajra nadí existe um outro canal, o chitra nadí, que é de cor pálida. Dentro de chitra nadí existe, ainda, um canal muito fino que se conhece como brahmanadi, que é por onde a energia kundaliní ascende, “iluminando” a consciência. A extremidade de brahmanadí é chamada brahmadvara, que significa “porta de Brahman”.
À esquerda da Sushumná está a Ida Nadí que também é chamada Chandra Nadi, ou nadi da lua, vai do testículo esquerdo até a narina direita. Representa a lua, o frio, e corresponde ao sistema parassimpático.
À direita da Sushumná está Pingala, também chamada Surya Nadi, ou nadi do sol, vai do testículo direito até a narina esquerda. Representa o sol, o calor e corresponde ao sistema simpático. (ROSAS, 2005)
Rosas (2003) estabelece algumas características psicológicas que estão vinculadas à predominância de energização de Ida e Pingala. As características psicológicas de Ida formam:
“Pessoas introvertidas por natureza, que sonham durante o dia, pensam muito, que são conscientes dos seus sentimentos e geralmente muitos sensíveis a fatos externos e experiências interpessoais. Geralmente pensam em catástrofes e têm pouca perspectiva da realidade, raramente são ativos, possuem pouca energia para agir e executar seus planos.
São indivíduos com pouca vitalidade física e sujeitos a doenças como constipação, depressão, ansiedade, colites, eczemas e um grande numero de doenças psicossomáticas.
Ida está relacionada com o lado esquerdo do corpo e com características como pensamentos criativos e intuitivos; qualidades como emotividade e passividade; e aspectos do tipo conservador, receptivo, cooperativo, sintético e holístico”.( p. 22)
E quanto às características psicológicas de Pingala, são:
“Pessoas extrovertidas que tem pouco acesso a experiências internas e que procuram preencher esse vazio interno com prazeres, desejos e ambições externas. Normalmente são inquietas e irritáveis, com dificuldades de relacionamento.
Os indivíduos com predominância de Pingala tendem a ativas extremamente o sistema nervoso simpático, secretando muito ácido e produzindo úlceras, angina pectoris ou elevando a pressão sanguínea alem dos limites normais. Estão constantemente em estado de preparação para ‘luta ou fuga’, secretando muita adrenalina e fazendo pouco exercício para queimar as secreções químicas excessivas. Normalmente suas doenças se manifestam no desequilíbrio das secreções endócrinas e processos metabólicos.
Pingala está relacionada com o lado direito do corpo, com pensamento lógico e racional e aspectos tais como assertividade, agressividade, autoritarismo, competitividade e exigência.(ROSAS, 2005, p. 22-23)

Sushumná, Ida e Pingala partem do Múládhára Chakra, o primeiro centro, onde se encontram num determinado ponto que é chamado de Mukta-Triveni. Enquanto o Sushumná sobe em linha reta, Ida e Pingala vão se cruzando numa linha sinuosa, através dos chakras. Ida e pingala voltam a encontrar-se no Ájña Chakra, num ponto chamado Yukta-Triveni, de onde se encaminham para a narina esquerda e direita, respectivamente. Somente a Sushumná Nadí sobe até o último chakra. (ROSAS, 2003)

Outro ponto importante mencionado no Dhyánabindu Upanishad (v. 50-51, Tinoco, 2005, p. 117) é a presença do Kanda, uma estrutura oval, de onde emanam todas as nadís. Este ponto, segundo Rosas (2005), também é conhecido como Nabhi Chakra, e sobre ele fala a Chudamany Upanishad (I:13-16):
“No centro do estômago, o centro do umbigo repousa no círculo conhecido como Manipúra. Entre o umbigo e a ultima vértebra da coluna está o centro do umbigo, formado como um ovo de passarinho. Este centro encerra dentro de si mesmo o começo de setenta e duas mil nadís, das quais setenta e duas são vitais. Destes, novamente, dez são os mais importantes. A fim de que se tenha o devido controle sobre esses dez nervos, um tem que receber atenção especial. (trad. ROSAS, 2005, p. 65)”

kanda

Rosas (2005) defende a importância deste centro denominado Kanda para toda e qualquer tipo de prática de Yoga, alegando que este centro, estando fora do seu lugar, prejudica o funcionamento das nadís, afetando, assim, a circulação do Prána pelo corpo. Antes das práticas yóguicas, o exame do Kanda deve ser realizado, conforme ensina o autor. Ele também cita as conseqüências do deslocamento do Kanda: estando acima do umbigo, provoca prisão de ventre, tornando o corpo sujeito à uma infinidade de doenças; deslocado para baixo, produz cólicas, pesadelos, entre outros; e para os lados, causa dores agudas não localizadas. Ainda pode provocar nas mulheres: irregularidades menstruais, coloração estranha do fluxo menstrual e esterilidade permanente. Nos homens provoca espermatorréia e ejaculação precoce (Rosas, 2005, p. 71).
Também o Hatha Yoga Pradipiká fala sobre o Kanda. No capítulo 3, verso 113, Yogue Svatmarama afirma a lozalização e a cor do kanda:

O centro do corpo sutil (kanda, localizado atrás do umbigo) tem uma extensão de doze dedos. Está situado por cima do ânus, a uma distância de quatro dedos e tem um aspecto delicado, de cor branca, como coberto por um pedaço de pano branco. (trad. de KUPFER, 2001, obra disponível pela internet )

chakras

Os centros de energia pelos quais passam as nadís são chamados Chakras. Chakra pode significar “roda”, “disco” ou “círculo” (Kupfer, 2001), também “movimento” (Johari, 1995) e “anel” (Rosas, 2003), podendo, além disso, receber o nome de padma (lótus).
Para Kupfer (2001) os chakras são centros de captação, armazenamento e distribuição de Prána no corpo.
Johari (1995) afirma que os chakras são centros psíquicos.
Rosas (2003) parece englobar essas duas concepções, ao conceber os chakras como centros energéticos que recebem, acumulam, transformam e distribuem energia pelo corpo (através das glândulas endócrinas que regem), além de designarem as características de personalidade, atuando também no campo psíquico.
Em relação ao movimento dos chakras, Kupfer (2001) afirma que os eles giram para ambos os lados, de forma muito rápida. Girando no sentido horário, estes centros energéticos projetam energia para fora, distribuindo-a para a área que lhe é destinada. E no sentido anti-horário, os chakras captam energia do ambiente. O autor sugere que pensemos nos chakras como “redemoinhos com o centro mais claro que as extremidades, girando vertiginosamene em ambos os sentidos” (p.194).
Os mestres tântricos divergem entre si quanto ao número de chakras espalhados pelo corpo, que pode variar de 5 centros energéticos até 11 centros, ou mais.
Rosas (2003) reconhece que existe milhares de chakras distribuídos pelo corpo todo, entretanto, afirma que sete são considerados essenciais para o trabalho do Yoga, sendo estes os descritos pela obra SatChakra Nirupana.
Este é o texto que contém a melhor descrição dos chakras, foi escrito em 1577 por Purnananda, um mestre de Bengala, e foi traduzido do sânscrito por John Woodroffe, que também utilizava o pseudônimo Arthur Avalon, na obra The Serpent Power, ou na versão em espanhol, El Poder Serpentino.

Elementos Constituintes dos Chakras

Os chakras são representados de forma simbólica através de uma mandala, palavra sânscrita que designa um “circulo ou diagrama místico dotado de profundo simbolismo” (Rosas, 2003, p. 50).
Para Lysebeth (1994), a mandala é um yantra inserido num círculo ao invés de um quadrado, como é tradicionalmente figurado. Tal como a mandala, o yantra também é um diagrama “mágico-simbólico” (p.148), que tem o poder de concentrar a energia psíquica e aumentá-la.
Do círculo saem pétalas de um lótus, sendo que cada chakra possui um número especifico de pétalas que designam duas coisas: a disposição das nadís que o rodeiam; e as letras do alfabeto sânscrito, que correspondem aos vrittis, ou latências psíquicas e também os “poderes sonoros sutis” (Rosas, 2003, p. 50). As pétalas são os subvórtices dos Chakras chamados em sânscrito de Vrttis. São os vórtices da mente. Cada vrrtti emana uma determinada energia psíquica e podemos dizer que a combinação dos aspectos dos 50 vórtices compõe os bilhões de personalidades humanas que existem. A harmonização dos vórtices é uma tarefa para muitas vidas e a medida que o homem evolui espiritualmente eles passam a funcionar de uma maneira tal que nossos sentimentos e emoções não nos dominam mais.
Quando um determinado vrrtti de um Chakra é estimulado, ele torna-se desequilibrado e este padrão energético flui através das milhares Nadis de nosso corpo sutil, perturbando a tranqüilidade de nossa mente. Como os Chakras estão ligados a uma determinada glândula, o hormônio relacionado a ela é super ou sub estimulado, modulando sua produção e provocando sintomas físicos e emocionais perceptíveis.
Cada chakra é governado por um tattva, o elemento do qual se originou, que é representado por uma figura geométrica. É o tattva que também designa a cor de cada chakra. No centro da mandala há uma letra sânscrita que é a “semente” (bíja) do mantra, um som fundamental que corresponde ao elemento do chakra.
O bíja mantra está sentado sob um animal, o que denota as qualidades do tattva, e também simboliza o veículo (váhana) da deidade masculina que governa cada chakra. (WOODROFFE, 1979)
Cada chakra têm, portanto, uma deidade masculina (Devata) e uma feminina (Shaktí), com diferentes nomes e atributos. De acordo com Rosas (2003), os Devatas representam o aspecto da consciência (Cit) da parte do corpo correspondente ao chakra. As shaktis, por sua vez, representam a parte sutil das substâncias corporais (dhatus), que e desempenham um papel fundamental em seu desenvolvimento e nutrição.
Antes de imaginarmos pequenas deidades morando em nosso interior, Lysebeth (1994) afirma que a divindade é uma energia particular antroporfizada.
Kupfer (2001) limita-se a dizer que esses elementos constituintes dos chakras são símbolos das propensões e latências associadas a cada centro. Para ele, “esses símbolos falam diretamente à mente subconsciente. Não precisam ser ‘interpretados’. A única coisa a fazer é observar-se frente a eles, e às emoções que despertam” (KUPFER, 2001, p. 187).
Existe outro símbolo que está presente em três chakras e que merece aqui uma introdução: é a presença de um triângulo invertido com um lingam (falo) em seu interior, indicando um ‘nó’ (granthi), que configura um obstáculo à ascensão da kundaliní. De acordo com Kupfer (2001), Rosas (2003) e Woodroffe (1979), os três granthis estão no múládhára, anáhata e ájña chakra.
Rosas (2005) afirma que esses granthis são um obstáculo para a realização da percepção plena da realidade de cada chakra, por conter em si um poder maior de maya-shakti (poder da Criação). Maya-shakti é trigunatmika, possui três gunas, ou características, e por isso é representada por um triângulo. Os três vértices do triângulo possuem três bindus (pontos) que correspondem ao fogo (Vahni-bindu), à lua (chandra-bindu) e ao sol (Surya-bindu). Dos bindus, emanam três Shaktis, ou seja, três poderes que são representados pelas linhas que ligam os bindus: Shakti Vama (desejo), Shakti Jyestha (ação) e Shakti Raudri (conhecimento). Com elas estão Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Transformador), respectivamente, e que também relacionam-se com os três gunas: Rajas, Tamas e Sattva.
O triângulo invertido também indica o movimento descendente e as três nadís principais: ida, pingalá e sushumná. O encontro delas tem a forma de um triângulo invertido, o que faz com que a energia desça (JOHARI, 1995).
De cor vermelha, o triângulo simboliza a mulher, ou o órgão sexual feminino ou yoni (LYSEBETH, 1994).
Rosas (2003) esclarece que esse triângulo se chama Kamarupa e que realmente simboliza a yoni (sexo feminino), que brilha constantemente. “Seus ângulos representam Iccha (a vontade), Kriya (a ação) e Jñana (o conhecimento)” (p.59).

Sheila Drumond

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Aspectos psicoenergéticos dos Ásanas Parte 1

Setembro 25, 2008 at 11:46 pm (Hatha Yoga) (, , , , , , , , )

A influência do tantra

O conhecimento da anatomia e a fisiologia do corpo sutil pode ser observado desde a época das Upanishads, porém, seu desenvolvimento integral ocorreu com o advento do Tantra, que surgiu como um movimento cultural que influenciou toda espiritualidade da Índia, como veremos adiante.
O conhecimento do corpo sutil é de fundamental importância para todo praticante espiritual que deseja a Libertação ou Moksha. Entretanto, esse conhecimento não se destina somente à estes. Àqueles que trabalham para reestabelecer o equilíbrio das pessoas, este conhecimento é igualmente importante, pois assume, nestes casos, o mapa pelo qual devemos trilhar. Aos instrutores de yoga, terapeutas corporais de forma geral, o domínio desta ciência, por assim dizer, possibilita a manutenção do equilíbrio psicofísico, bem como previne os arrombamentos energéticos.

Uma das influências mais nítidas do Tantra em toda cultura e religiosidade hindu diz respeito à concepção do corpo humano que em muito difere do que até então era tradicional na Índia. Muitas das tradições ascéticas consideravam o corpo como um mero acúmulo de vísceras, cuja natureza é corrompida e cujo destino final é morrer e apodrecer. Talvez o exemplo mais claro disso é o que aparece no Agni Purana (LI:15):

O asceta (yati) concebe seu corpo, na melhor das hipóteses, como uma bolha de pele, rodeado de músculos, de tendões e de carne, cheio de urina, fezes e impurezas malcheirosas, habitáculo da doença e do sofrimento, vítima certa da velhice, da tristeza e da morte, mais transitório que uma gota de orvalho numa folha de erva.
(trad. FEUERSTEIN, 2001, p. 461)

No Maitráyaníya Upanishad (1:3) também podemos encontrar uma definição semelhante:
Ó Ser Venerável, o que há de bom no usufruto dos desejos neste corpo malcheiroso e sem substância, num mero conglomerado de ossos, pele, tendões, músculos, medula, carne, sêmen, sangue, muco, lágrimas, fezes, urina, gazes, bile e catarro? O que há de bom no usufruto dos desejos neste corpo que é afligido pelo desejo, pela ira, pela cobiça, pela ilusão, pelo medo, pelo desânimo, pela inveja, pela separação em relação às coisas queridas e a proximidade das não-queridas, pela fome, pela sede, pela velhice, pela morte, pela doença, pela tristeza, pesar e tudo mais?
(trad. FEUERSTEIN, 2006, p. 462)
Entretanto, como observa Eliade (1979), historiador das religiões, “no tantrismo, o corpo humano adquire uma importância que nunca havia tido antes na história espiritual da Índia” (p. 156). Essa nova atitude se expressa sinteticamente no Kularnava Tantra (1.14), outro importante texto tântrico hindu: “dentre os 840.000 tipos de seres corpóreos, o conhecimento da Realidade não pode ser adquirido senão pelo [corpo] humano”. (trad. FEUERSTEIN, 2001, p. 462)
Com o surgimento do Tantra, surge, então, uma nova visão do corpo: a de que é um templo do divino, pois ele permite uma série de investigações, reflexões e experiências que o tornam um instrumento invalorável para a realização espiritual e a iluminação.
O Tantra é um importante marco na história do Yoga, pois trás a luz uma nova concepção do corpo, que antes disso, era considerado um obstáculo para a libertação, fonte da corrupção e inimigo do Espírito. Esta visão de corpo como um monte de coisas substanciais temporais, deu lugar a uma concepção física da morada de Deus, e o preparo do corpo tornou-se um processo alquímico para realizar a perfeição espiritual. O corpo passou a ser visto como um reflexo do macrocosmo, que contém em seu interior todos os segredos do universo.

Os Corpos

Aquele que conhece a origem do Prána, suas entradas nos corpos, seus locais de atuação, modos como se distribuem e suas cinco divisões, seus aspectos internos e externos, obtém a imortalidade; sim, obtém a imortalidade. (Prasna Upanishad 3:12, trad. TINOCO, 1996, p. 185)

A concepção de que o ser humano possui mais corpos além do físico está presente em três escolas do Hinduísmo: Vedanta, Sámkhya e Yoga, sendo que essas últimas apresentam a mesma proposta. Embora se possa encontrar referências da existência de uma anatomia sutil nas antigas Upanishads, foi somente nos textos mais recentes do Tantra e do Yoga que podemos nos deparar com uma descrição mais detalhada e desenvolvida dessa anatomia.

Para o hindu, toda forma de energia é denominada “Prána”. No Rig Veda (X,90,13), é dito que prána indica a respiração do purusha cósmico e da vida em geral. O Yoga Vashinta (III,13,31), define o prána como o poder vibratório (spanda shakti) que está presente em todo o tipo de manifestação. O Prána é a energia do corpo sutil, tido como o molde energético do corpo físico. No Atharva Veda (11.4.11) o Prána é concebido como ‘força vital’. (FEUERSTEIN, 2001).
A Taittiryia Upanishad, Parte II, Capítulos 1 ao 5 (Tinoco, 1996, p. 228-230) descreve os corpos do ser humano em número de cinco, são denominados Koshas, que pode ser traduzido como invólucro, camada. Assim, temos o Annamaya Kosha, o corpo feito de alimentos; o Pránamaya Kosha, o corpo feito de Prána ou energia vital; o Manomaya Kosha, o corpo da mente; o Vijñanamaya Kosha, o corpo do intelecto; e Anandamaya Kosha, o corpo de bem aventurança. Feuerstein (2001) explica que esses cinco koshas cobrem e ocultam a Realidade definitiva e que, apesar desse modelo não ser típico do Tantra, seus adeptos adotam as distinções funcionais (corpo, mente, força vital, inteligência superior e bem aventurança).
Como afirma Tinoco (2005), quanto à anatomia desses corpos, apenas dois são conhecidos: Annamaya Kosha, que é constituído dos órgãos, tecidos, enfim, os elementos anatômicos conhecidos pela nossa medicina; e o Pránamaya Kosha, cuja descrição foi amplamente desenvolvida pela escola do Yoga, principalmente depois do advento do Tantra. Quanto aos outros corpos, os textos são omissos ou desconhecidos.
O Vedanta descreve dois elementos constituintes do Pránamaya Kosha: os ‘pránas’, ou “ares vitais” e as nadís, os canais por onde circulam tais pránas.

Os Corpos no Tantra

O Tantra Yoga, além de descrever melhor esses elementos citados pelo Vedanta, desenvolve uma visão mais profunda e detalhada da anatomia sutil do Pránamaya Kosha. Difere, porém, na concepção e nomenclatura dos corpos, que, tanto para o Yoga quanto para o Sámkhya, são apenas três e são denominados Shariras, a saber: Sthula Sharira, o corpo denso, feito de alimentos; Sukshma Sharira, o corpo sutil; e Karana Sharira, o corpo causal. Entretanto, os textos mais recentes do Yoga e do Vedanta apresentam uma equivalência entre as nomenclaturas existentes. Essa tendência é considerada em muitas escolas, como, por exemplo, o Dakshina Tantra Yoga (ROSAS, 2003).
Rosas (2003) diz que o ser humano possui três corpos (shariram) que têm relação com cinco “invólucros” (koshas). Esses invólucros é que encobre aparentemente o ‘Eu Real’ (Atma), causando a falsa experiência do eu limitado e separado do corpo total da criação. O autor segue a seguinte concepção: Sthula shariram, o corpo grosso, corresponde a tudo que é físico, tangível, está relacionado diretamente com os elementos grossificados. Aqui está incluído o Annamaya Kosha, traduzida por ele como “bainha do alimento”, formada pelos elementos grossificados que ingerimos através da alimentação. Sukshma shariram, o corpo sutil, é constituído pelas emoções, sensações, sentimentos e está relacionado à mente, ao intelecto e ao Prána, a energia sutil. Relacionam-se aqui três koshas: Vijnanamaya Kosha, “a bainha do intelecto”, é responsável pela noção de individualidade, regendo o ego (ahamkara); Manomaya Kosha, a “bainha da mente”, traz em si todos os instrumentos psíquicos de percepção do mundo exterior, bem como a herança genética e os condicionamentos individuais; e o Pránamaya Kosha, a “bainha do Prána”, onde se encontra os chakras, dentre outros elementos sutis.
E o Karana shariram, o corpo causal, que na alma individual, é constituído pela ignorância que limita a consciência do homem, impedindo-o de ter a percepção de sua união com Atma, o ser total. Relacionado à este corpo está Anandamaya Kosha “a bainha da felicidade”, responsável pelas experiências de felicidade autóctones do Atma, mas que devido à ignorância, são vistas como provenientes do mundo físico.
Aponta Tinoco (2005), que um exemplo claro dessa equivalência nos textos sagrados é o Yuktabhavadeva, um texto do Yoga escrito por Bhavadeva Misra no século XVII, onde podemos encontrar no capitulo III:

Sthula sharira (corpo grosseiro) consiste de cinco tanmatras e cinco mahabhutas. Ele é chamado de Annamaya Kosha.
Sukshma sharira (corpo sutil) consiste de 17 constituintes, incluindo os cinco pranas (principais), os cinco órgãos dos sentidos, os cinco órgãos motores, a mente (manas) e buddhi (intelecto). Ele inclui o pranamaya kosha, manomaya kosha e vijnanamaya kosha. Karana sharira contem o anandamaya kosha. (trad. TINOCO 2008, obra disponível pela internet)

É importante frisar que o Yuktabhavadeva, além de prever a equivalência da anatomia sutil entre Yoga e Vedanta, inclui em sua descrição aspectos desenvolvidos pelo Sámkhya e adotados pelo Yoga, que consideram que a matéria possui três características distintas que, combinadas entre si, estão presentes em toda e qualquer manifestação da criação. Essas características são denominadas Gunas, e são eles:

Gunas

SATTVA: Responsável pela tranqüilidade, meditação, pensamento, conhecimento, clareza, pureza. Tem a cor branca. Quanto maior a presença de sattva, maior é a aproximação da condição da consciência pura. A principal função deste Guna é elevar a consciência. (ROSAS, 2003).
RAJAS: responsável pela agitação, movimento, atividade. É de cor vermelha. Atua de forma ativa sobre o Guna de tamas para suprimir sattva, ou sobre sattva para suprimir tamas. (ROSAS, 2003).
TAMAS: responsável pela escuridão, obscuridade, inércia, ausência de atividade e clareza. De cor preta. Tem o processo inverso de sattva, pois sua função é encobrir a consciência. (ROSAS, 2003)
Uma correlação com as cores aqui é interessante e necessária. Vimos que cada Guna corresponde uma cor diferente, que simbolizam as antigas cores associadas ao nascimento, à vida e à morte. O preto também significa a dissolução dos antigos valores; o vermelho,o sacrifício de ilusões mantidas anteriormente, e o branco, a nova luz, o novo conhecimento, que deriva de ter vivenciado as duas primeiras cores (ROSAS, 2003).
A teoria sobre os Gunas está exposta na cosmologia Sámkhya, foi adotada pela Ayurveda, a medicina do hinduismo e está presente também nos Yoga Sutras de Patañjali (a partir de II:18).

Pranas

O pránamaya kosha, camada ou corpo de vitalidade, está composto de cinco formas diferentes que a energia vital (prána) assume, de acordo com seu movimento e direção no interior do corpo. Rosas (2003) lembra que o prána é um só e que essa divisão é apenas uma didática para uma melhor compreensão das diferentes funções que ele assume. Essas cinco formas da força vital recebem o nome de vayus ou pránas. Sobre os ares vitais, a Prasna Upanishad, III:3-7 (Tinoco, 1996, p. 184), cita cinco principais: prána, apana, sámana, vyána e udána, comenta sua localização e suas funções. Essa concepção também é aceita pelas escolas de Yoga, onde, posteriormente, poderemos encontrar seu desenvolvimento nas Upanishads do Yoga. A Amritabindu (95-98) e a Amritanáda Upanishad (34-38) comentam sobre a cor e a localização dos pránas. Sobre a localização e funções dos pránas, diz a Prasna Upanishad (III:5-9):

Prána propriamente dito, habita o olho, o ouvido, a boca e o nariz. Apana, o segundo prana, governa os órgãos de excreção e os reprodutores. Samana, o terceiro prana, está localizado na região umbilical e comanda a digestão e a assimilação dos alimentos.

O Atman reside no coração, de onde partem 101 nadis; de cada um deles, partem uma centena de ramos e de cada um deles se origina setenta e dois mil outros nadis ainda menores. Em todos eles se move o quarto prana, denominado Vyana.
Udana, o quinto prana, é aquele que conduz o homem virtuoso para um nascimento mais elevado e o homem cheio de vícios e paixões, para um nascimento inferior. O homem possuidor de qualidades boas e más, Udana conduz ao renascimento no mundo dos homens.
O sol, verdadeiramente, contem o Prana externo. A terra é controlada por Apana. O espaço e o éter entre a terra e o céu, são controlados por Samana e o ar, por Vyana.
O fogo contém Udana. Verdadeiramente, aquele cujo fogo vital se extingue é conduzido ao renascimento, tendo os sentidos absorvidos pela mente.
(trad. TINOCO, 1996, p.184-185)
Como veremos adiante, a Dhyánabindu Upanishad (v.95-98) estabelece as cores, elementos e os bíjas, “germes” ou “sementes” que são correlacionados com cada prána. Parte-se do pressuposto que, ao serem estimulados com essas “sementes” (bíjas), os centros energéticos responsáveis pelo funcionamento do prána correspondente é ativado. A Amritanáda Upanishad, (Tinoco, 2005, p. 85) a Upanishad do Som Imortal (o Pranava Om), ensina a pronúncia exata do Om acrescido do bindu. O verso quatro deixa claro que a presença do bindu indica a nasalização da parte final do Bíja. Assim sendo, as letras que determinam a semente do prána, devem ser nasalizadas nas práticas tântricas que incluem a energização dos chakras.
Prána significa literalmente “força que se move para frente”. Regula todos os processos de absorção: o movimento inspiratório, a assimilação de alimentos sólidos e líquidos e a recepção das impressões sensoriais. É centrípeto por natureza e tem como finalidade colocar as coisas em movimento. Localiza-se na parte superior do tórax, entre a garganta e o umbigo. (KUPFER, 2001). Já Rosas (2003) diz que o prána governa os mecanismos respiratório e circulatório e que sua principal função é a de absorver energia, incluindo, assim um conjunto de mecanismos sutis de absorção de prána como as vias respiratórias, a língua e a pele.
Na Dhyánabindu Upanishad, v. 95 (trad. TINOCO, 2005, p. 127), é dito que o Prána é da cor de uma nuvem carregada de chuva e seu “germe” é YA, indicando o Bíja Mantra do chakra cardíaco, já que Ya acompanhado com o bindu torna-se Yam. O Amritanáda Upanishad (v. 34) localiza o Prána na região do coração e diz que ele é da cor vermelho-sangue (v. 35).
Sheila Drumond

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Breve Biografia de Krishnamacharya

Setembro 21, 2008 at 8:46 pm (Grandes mestres, Hatha Yoga) (, , )

O Hatha Yoga como conhecemos hoje em dia teve muita influência de Krishnamacharya. Nós poderíamos dizer que 80% da prática do hatha como conhecido no ocidente veio dele.

De acordo com as entradas de seus diários feitos perto do fim de sua vida ele iniciou seus estudos de Yoga com seu pai aos cinco anos de idade, aprendendo um estilo familiar. Sua família descendia de um nátha-siddha conhecido como Nathámuni. Então seu primeiro contato com o hatha foi ao estilo nátha. Neste período ele também iniciou com seu pai o estudo dos Sútras de Pátañjali.

Na adolescência, após a morte de seu pai, ele aprendeu de um swami da linhagem de Sivananda 24 ásanas. Após praticar por algum tempo se aperfeiçoando, aos 16 anos ele empreendeu uma peregrinação ao santuáio de seu antepassado, Nathámuni. Lá ele teve uma experiência mística que marcaria sua carreira como yogi. Fora uma espécie de visão. Ele contava que no portal do templo um ancião lhe fazia sinais, apontando para uma mangueira. Ele caminhou até a árvore e exausto caiu em sono aos seus pés. Quando se levantou, três yogis estavam ali reunidos e seu ancestral, Nathámuni, estava no meio. Krishnamacharya prostou-se aos seus pés e pediu instruções. Ele conta que por horas Nathámuni lhe transmitiu o ‘Yogarahasya’ (Segredos do Yoga), um texto perdido há mais de cem mil anos. De memória, Krishnamacharya transcreveu o texto posteriormente.

Após sua experiência ele continuou suas práticas através de textos e ensinamentos que recebia de um yogi ou outro enquanto se dedicava aos estudos nas disciplinas clássicas da Índia. Um dia, quando praticava ásanas no gramado dos jardins da universidade que cursava, um de seus professores se aproximou e o instigou a procurar um mestre de Hatha Yoga que vivia isolado em uma caverna com três filhos e a esposa. Ele se chamava Shrí Ramamohan Bramachari. Vale lembrar que neste período o hatha ainda era muito marginalizado. Krishnamacharya estudou com este mestre por sete anos. Seu áchárya o ensinou a maestria nas práticas do hatha. Ele desenvolveu proficiência em não menos que três mil ásanas, desenvolvendo siddhis como parar sua pulsação, levantar objetos extraordinariamente pesados com os dentes, parar carros em movimento com a força de seus braços. Estes siddhis ele demonstrou publicamente a fim de promover a disseminação do yoga em suas palestras, conferencias e demonstrações.

Ele seguiu as instruções de seu áchárya: 1. promulgar o Yoga; e 2. constituir uma família. Ao contrário da tradição do Hatha Yoga, que naquele tempo era marginalizado, onde os yogis se retiravam para cavernas e florestas a fim de praticar e ensinar esta ciência, não tendo lar ou família, Krishnamacharya voltou a sua cidade natal e começou a dar aulas. Honrando a segunda recomendação de seu áchárya, ele casou-se. Ele queria que Krishnamacharya aprendesse a vida em família, ensinando um Yoga que pudesse beneficiar os chefes de família modernos.

Mesmo não atribuindo a si mesmo as inovações que promoveu, seus ensinamentos foram disseminados pelo globo. O que conhecemos hoje como Viniyoga, Ashtánga Vinyasa Yoga, Iyengar Yoga e etc. é fruto de seus ensinamentos que por sua vez foram formados por uma intricada rede de influências que recebeu desde a sua infância.

Om Shiva.

Anuttara.

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Krisnamacharya: biografia

Setembro 9, 2008 at 1:34 pm (Filosofia do yoga, Grandes mestres, Hatha Yoga)

Tirumalai Krishnamacharya nasceu em 18 de novembro de 1888 em Mysore, sul da Índia, numa família que tem suas raízes no famoso sábio indiano do século nove Nathamuni, autor do Yogarahasya e o primeiro professor da linhagem de Gurus Vaishnavas.

O Yogarahasya (A essência do Yoga) é um dos mais importantes textos da história do Yoga. Foi escrito há mais de mil anos e, infelizmente, há cerca de mil anos desapareceu da herança do Yoga. Uma das mais incríveis histórias da vida de Sri Krishnamacharya está relacionada à redescoberta desse importante texto de Nathamuni. Com apenas 16 anos de idade, numa peregrinação até o local sagrado onde Nathamuni havia recebido esses ensinamentos, Krishnamacharya teve uma importante revelação. O que aconteceu lá é descrito a seguir pelo próprio Krishnamacharya, muitos anos após o fato.

“Quando eu tinha 5 anos meu pai me iniciou à prática de Yoga. Quando ele disse que nossa família se originou de Nathamuni, o Yogi que recebeu o ensinamento de Nammazvar (um legendário santo que desde o nascimento manifestou qualidades divinas), eu decidi visitar seu local de nascimento. Mas meu pai não permitiu porque estávamos morando muito longe desse local (chamado Alvar Tirunagari).

Quando eu tinha 10 anos meu pai morreu. Eu estava sozinho. Alguns anos depois, eu tive algumas rúpias (moeda indiana) para fazer a viagem até uma região próxima ao local desejado. De lá caminhei 32 quilômetros até Alvar Tirunagari. Cheguei na porta do templo exausto. Havia um homem velho sentado próximo à entrada. Eu perguntei a ele onde poderia encontrar Nathamuni. Sorridente, ele apontou seu dedo e disse: “Vá até o bosque de mangueiras; lá ele estará sentado com seus discípulos”. Com grande excitação eu atravessei o Rio Tamraparni, me senti completamente cansado e cai. De repente, me vi em um bosque de mangueira na presença de três sábios. Me prostrei e pedi a eles que me instruíssem no Yogarahasya. Eles inclinaram a cabeça. O sábio sentado no centro começou a recitar os versos. Ele tinha uma voz musical.

Após algumas horas eu acordei e olhei ao redor. Não havia bosque e também não havia sábios. Eu estava sentado em frente à entrada do templo. O velho homem ainda estava lá. Ele me perguntou: “Você recebeu as instruções do Yogarahasya? Entre e ofereça suas preces a Nammazvar!”.

Eu entrei no templo, caminhei ao redor da árvore sagrada (com mais de dois mil anos de idade), me prostrei 108 vezes, recebi a prasadam (colocação ritual de uma cobertura ornamental prateada do altar sobre a cabeça do devoto), e saí do templo para agradecer o velho Brâmane. Ele não estava lá. Eu comecei a lembrar de sua feição. Que coincidência! Ele se parecia exatamente como o sábio que estava sentado no centro do bosque.

Eu soube, então, que o velho Brâmane que eu tinha encontrado não era outro senão o próprio Nathamuni”.

Krishnamacharya recebeu sua primeira instrução em sânscrito e Yoga de seu pai, antes de se tornar aluno no Brahmatantra Parakala Mutt, uma das mais conhecidas e respeitadas escolas Brahmanes. Matriculado aos 12 anos, ele estudou os textos vêdicos e aprendeu os rituais vêdicos enquanto simultaneamente estudava no Royal College of Mysore. Aos 18 anos se mudou para Benares, ende estudou sânscrito, lógica e gramática na universidade. De volta a Mysore, Krishnamacharya recebeu uma completa base de Vedánta de Sri Krishna Brahmatantra Swami, diretor do Parakala Mutt. Então, foi ao norte novamente para estudar Sámkhya, o sistema filosófico mais antigo da Índia, no qual o Yoga está fundamentalmente embasado. Em 1916 viajou aos Himalayas onde, no pé do Monte Kailash, encontrou seu professor, Sri Ramamohan Brahmachary, um Yogi erudito que estava vivendo com sua família próximo ao lago Manasarovar, no Tibete.

Krishnamacharya ficou mais de sete anos com esse professor, que exerceu grande influência no rumo que ele tomou em sua vida, dando a ele a grande tarefa de espalhar a mensagem do Yoga e de usar suas habilidades como curador e alguém capaz de auxiliar os doentes. Conseqüentemente, Sri Krishnamacharya não seguiu uma carreira acadêmica, mas retornou ao sul, onde estudou Ayurveda, o sistema médico tradicional indiano, e a filosofia Nyáya, uma escola vêdica de lógica. Em 1924 ele retornou a Mysore, onde o Rei, um regente progressista, deu a ele a oportunidade de abrir uma escola de Yoga. O próprio Rei era um de seus alunos mais entusiastas. De 1933 a 1955 Krishnamacharya ensinou Yoga na escola e escreveu seu primeiro livro, Yoga Makarandan (Segredos do Yoga).

Nessa época sua reputação estava se espalhando pelo sul da Índia e além. Os primeiros estudantes ocidentais de Krishnamacharya vieram estudar Yoga com ele em 1937. Em 1939 e 1940 Krishnamacharya recebeu a visita de uma equipe médica francesa que queria verificar a capacidade de um yogi experiente deliberadamente parar seu batimento cardíaco. Para Sri Krishnamacharya, este exame tão maravilhoso era uma demonstração particularmente aborrecedora, algo que ele se submeteu apenas por se sentir responsável por validar o Yoga aos olhos do cético mundo científico.

Logo o interesse e o trabalho de Krishnamacharya se voltaram para o tratamento de doentes, utilizando Ayurveda e Yoga como agentes de cura. Ele se tornou cada vez mais conhecido e, em 1952, foi chamado a Madras para tratar um político popular que tinha sofrido um ataque do coração. Finalmente, Krishnamacharya se estabeleceu em Madras com sua família.

Krishnamacharya nunca viu o Yoga simplesmente como uma prática física. Sempre foi mais relacionado a alcançar o que é mais elevado, que para ele era Deus. Assim, para Krishnamacharya, Yoga significava “dar passos que levam a Deus para se tornar um com Ele”. Esse caminho exige bastante daqueles que o seguem: uma forte determinação, confiança e a habilidade de manter os esforços constantemente (abhyása).

Krishnamacharya ensinou que Yoga deve ser adaptado e praticado de acordo com as necessidades, capacidade e aspirações de cada estudante. A relação professor-aluno é considerada essencial para o estudo de Yoga, sendo necessária uma relação de amizade e confiança mútua.

Mesmo sendo considerado por muitos como o maior Yogi deste século, Krishnamacharya nunca reivindicou ter descoberto algo, mas sempre disse: “Nada é meu; tudo isso vem de meu professor, ou de Deus”. Além de seus alunos indianos, mais ocidentais vieram a Madras para estudar com ele. Em 1976, T.K.V. Desikachar, filho de Krishnamacharya e um de seus mais próximos discípulos, fundou o Krishnamacharya Yoga Mandiram, uma instituição onde o Yoga é usado para tratar doentes e onde é ensinado tanto para indianos como para estudantes estrangeiros. Sri Krishnamacharya ensinou e inspirou os que estiveram ao seu redor até seis semanas antes de sua morte, em 1989.

De acordo com seu filho, Desikachar, o que torna o Yoga de Krishnamacharya tão único é sua insistência em atender cada indivíduo e sua condição particular. Se nós respeitamos cada pessoa individualmente, isso naturalmente significa que iremos sempre começar de onde cada pessoa atualmente está. O ponto de início nunca é relativo às necessidades do professor, mas às do estudante. Isso requer abordagens diferentes, não há apenas uma abordagem para todos.

Quando jovem, Desikachar afastou-se dos ensinamentos tradicionais e seguiu uma educação de estilo ocidental. Ele se formou como engenheiro e foi trabalhar para uma empresa dinamarquesa. Mais tarde, Desikachar compreendeu a importância do conhecimento único de seu pai. Deixou a engenharia para trás e estudou com seu pai durante 27 anos até poucos meses antes da morte de Krishnamacharya. Apesar de Krishnamacharya ter treinado muitos professores durante sua vida, foi para Desikachar que ele passou seu conhecimento mais inteira e sistematicamente. O texto de Yoga considerado essencial é o Yoga Sútra. Desikachar estudou o Yoga Sútra oito vezes com seu pai. O Yogarahasya foi também todo ensinado a Desikachar de 1963 a 1965.

O professor de Yoga Mark Whitwell escreveu sobre Desikachar: “Seus ensinamentos e sua sensibilidade para as necessidades do indivíduo são sempre transmitidos num contexto de sincera amizade e humor”.

Nos últimos anos, Desikachar tem sido convidado por seus alunos para dar cursos e participar de conferências de Yoga por todo o mundo. Em Junho de 2000, Desikachar esteve nos Estados Unidos dando um curso de 4 dias juntamente com seus mais antigos alunos e, atualmente, professores nos EUA: Gary Kraftsow, Martin Pierce e Sonia Nelson. Nesse encontro, Desikachar expressou sua preocupação quanto ao Viniyoga nos EUA. Ele sente que há um fundamento que está se perdendo e que existe uma expansão horizontal sem aprofundamento vertical. Num poço, numa vasilha larga, a água irá evaporar rapidamente, diz Desikachar. Ressaltou que há muito trabalho a ser feito nessa direção.

Uma Evolução (1920 – 1989)

Imagine alguém que soubesse de cor o Ramayana – poema com 24 mil versos -, o Mahabharata – um épico maior do que a Ilíada e a Odisséia, de Homero -, todas as principais Upanishads, as seis escolas de filosofia da Índia, e a ciência do Ayurveda – sistema de medicina tradicional indiano. Imagine essa mesma pessoa como o mestre cujos ensinamentos revolucionaram o mundo do Yoga, que falava fluentemente mais de doze línguas oficiais da Índia e, ainda assim, vivia modestamente com sua família em uma casa de uma só peça. Embora seja difícil imaginar alguém dessa grandeza, esses são exatamente os atributos que fizeram de Sri T. Krishnamacharya um dos maiores mestres da história da Índia.

Nascido em 1888, Tirumalai Krishnamacharya tinha um desejo ardente de buscar o melhor dos ensinamentos. Viajando extensa e intensamente em seu país, ele estudou com os melhores professores e cedo se tornou mestre nos sistemas filosóficos tradicionais indianos. O aprendizado de Yoga que recebera ainda na infância motivou-o a procurar aquele que seria seu mestre no Tibet, com quem passou sete anos e meio dedicado ao aprendizado. Ao fim desse tempo, esse professor pediu-lhe que retornasse à sua cidade, constituísse família e difundisse o que havia aprendido de Yoga.

Embora toda a sua erudição o habilitasse a conseguir trabalhos que lhe dariam prestígio, riqueza e poder, Krishnamacharya permaneceu devotado exclusivamente ao Yoga, seguindo a orientação de seu professor.

Em sua experiência de seis décadas ensinando Yoga, T. Krishnamacharya fez contribuições de inestimável valor. Embora ele não esteja mais entre nós, seus ensinamentos continuam vivos e populares graças aos esforços de seus alunos, que são hoje considerados autoridades mundiais em Yoga.

Traçamos aqui a evolução na forma como T.K. ensinou Yoga, em particular Yogasanas.

Vajrakaya – 1920 A 1930

Esse período começa no início dos anos 20. Krishnamacharya ensinava no palácio de Mysore. Nessa época, havia necessidade de demonstrar os benefícios e poderes do Yoga. Por isso, seu estilo de prática e ensino procurava tornar claro esse aspecto.

O estilo de ensinar adotado por ele objetivava a maestria do corpo, ou ter um vajrakaya (um corpo de diamante). Ele demonstrou essa possibilidade de diferentes maneiras, inclusive parando voluntariamente seus batimentos cardíacos, fazendo asanas sobre uma outra pessoa, jejuando por vários dias seguidos e ainda através de outros feitos normalmente impossíveis.

Mandala – 1930 A 1950

A partir de 1930, Krishnamacharya adotou o método de ensinar séries de posturas, executadas de forma dinâmica. Ele explicitou essa técnica no livro que escreveu na época, chamado “Yoga Makaranda” (a essência do Yoga). A combinação de posturas nessas seqüências dinâmicas se destinava aos níveis de energia das crianças que ele então ensinava no Palácio de Mysore. Chamadas vinyasa krama, essas seqüências ainda hoje estão em voga, já que são muito atraentes e úteis para crianças. Foi durante esse período que os hoje famosos professores B.K.S. Iyengar e Pattabhi Jois foram alunos de T. Krishnamacharya.

Shikshana - 1960 A 1870

Após mudar-se para a cidade de Madras, no final dos anos 50, a abordagem adotada por ele ao ensinar recebeu o nome de shikshana. Aqui, a perfeição das posturas era o foco. E a perfeição das posturas não se baseava apenas na forma, mas também na respiração. Seu objetivo era que cada postura da seqüência fosse executada corretamente e, além disso, com uma mesma razão respiratória ao longo de toda a série.

Foi nessa época que T.K.V. Desikachar começou suas aulas com Krishnamacharya

Yatha Shakti – 1970 a 1980

A partir do início dos anos 70, a abordagem dominante na forma de ensinar de Krishnamacharya foi a de adaptar o Yoga levando em conta as habilidades de cada praticante.

Embora ele tivesse praticado yogaterapia ao longo de toda a sua vida, foi nesse período que ele estabeleceu a parte mais importante do seu ensinamento. Usando a capacidade das pessoas como ponto de partida, ele gradualmente as levava em direção a uma saúde melhor.

Angalaghava – 1980 a 1985

Reconhecendo que seus alunos tinham cada vez menos tempo para a sua prática diária de Yoga, Krishnamacharya desenvolveu um método de praticar que exigia menos tempo, mas proporcionava leveza do corpo (significado das palavras anga-laghava).

O método combina diferentes posturas, que podem ser alcançadas através de passos fáceis, a partir de um mesmo ponto de início. A técnica foi explicitada por Krishnamacharya em um livro que ele escreveu nessa época, intitulado “Yogasanagalu”. Esse tipo de combinação de posturas ajudou a otimizar o tempo que os alunos podiam destinar à prática de Yoga.

Svadhyaya – 1985 a 1989

Nos seus muitos anos de ensino, Krishnamacharya não foi para seus alunos apenas mestre de Yoga, mas também um orientador espiritual. Com o passar dos anos, ele percebeu que os caminhos espirituais dos alunos, associados à prática de Yoga, poderiam ser uma jornada em direção à calma interior. A partir daí, ele introduziu o Canto Védico nas práticas de seus alunos e ajudou-os a trilhar seu próprio caminho espiritual por meio do Yoga.

Também nesse tipo de ensinamento, ele respeitava a crença religiosa do praticante, sugerindo para recitação durante a prática passagens apropriadas à sua cultura e tradição espiritual.

O que foi apresentado aqui não é senão uma pequena parte da contribuição de T. Krishnamacharya aos campos do Yoga, espiritualidade, saúde e estilo de vida. Suas numerosas outras contribuições incluem composições, comentários a escrituras, traduções, poemas e inúmeras abordagens de ensino.

No campo do Yoga, suas outras contribuições incluem o Yogavalli – um extenso comentário ao Yogasutra de Patanjali, ainda inédito. Também a ele se deve o renascimento de textos como o Yogarahasya, traduções de escrituras como Hatha Yoga Pradipika e Yogayajñavalkya Samhita, poemas como o Yoganjalisaram e o Dhyanamalika e incontáveis artigos e ensaios sobre diferentes temas, que elucidam os mais profundos mistérios do Yoga.

Fora do campo do Yoga, ele contribuiu ainda com comentários ao Vedantasutra. Seu conhecimento de Ayurveda era tão profundo, que ele mesmo se encarregava de preparar os remédios com que tratava seus pacientes. Krishnamacharya combinava Yoga e Ayurveda para que seus alunos se recuperassem rapidamente. Era também um mestre dos Vedas, Upanishads e rituais, sobre os quais escreveu extensos comentários e cujos segredos compartilhou com o mundo.

Falar das qualidades de um homem como esse é quase impossível. É como apreciar a beleza de uma folha da figueira, enquanto a imensa árvore ainda fica por ser descoberta.

Autorização de Kausthub Desikachar.

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Shiva Samhita – Coleção de Ensinamentos de Shiva

Agosto 7, 2008 at 11:46 am (Filosofia do yoga, Hatha Yoga)

A Shiva Samhita e o Hatha Yoga.

O nome Shiva Samhita significa em sânscrito “Coleção [de Ensinamentos] de Shiva”. É um texto em 540 estrofes sobre Hatha Yoga datado do século XVII desta era. Essas 540 estrofes, compostas na métrica chamada trishtubh, estão divididas em cinco capítulos, chamados patalas. A obra está composta na forma de um diálogo entre o deus Shiva e sua esposa Parvati, no qual o deus-yogi ensina as práticas do Hatha para sua consorte (detalhe que demonstra que, contrariamente à crença em voga em alguns círculos de Yoga da atualidade, esta prática era tanto para homens quanto para mulheres naquela época, assim como nas anteriores).

Este livro tem “apenas” 300 anos de idade, mas resgata práticas muito anteriores a ele. Assim como a Gheranda Samhita, cita copiosamente o mais antigo manual de Hatha que chegou até a atualidade, a Hatha Yoga Pradipika, bem como algumas das Upanishads do Yoga e um importante texto de Vedanta, atribuído a Adi Shankaracharya, chamado Atma Bodha.

O primeiro capítulo apresenta as noções filosóficas sobre as quais se apoia este sistema, claramente baseadas nos ensinamentos do Advaita Vedanta, a maior e mais influente escola de filosofia não-dualista da Índia. O autor nos exorta a percebermos a unidade que permeia a criação, à qual todos nós estamos inextrincavelmente ligados, bem como a percebermos e compreendermos a verdadeira natureza da realidade, oculta sob o véu de maya, a ilusão.

O segundo patala versa sobre a estrutura do corpo sutil. O terceiro capítulo contém as técnicas de asana e pranayama. O quarto, ensina as práticas de mudra, os selos energéticos, e inclui uma detalhada e insólita técnica de reabsorção seminal prescrita para evitar a perda do sêmen durante a cópula, chamada vajrondi mudra. O quinto e último capítulo, que é o mais extenso, versa sobre os chakras, centros de energia no corpo sutil,  bem como sobre quatro formas de Yoga: Mantra, Hatha, Laya, e Raja Yoga, e seus diferentes métodos.

Hatha e Raja Yoga como caminhos complementares

Chegando no final do último capítulo, o autor retoma uma idéia já presente na Hatha Yoga Pradipika: a de que Hatha e Raja Yoga são interdependentes e complementares:

“O Hatha Yoga não pode ser obtido sem o Raja Yoga, nem o Raja Yoga pode ser obtido sem o Hatha Yoga. Portanto, o yogi deverá, primeiramente, aprender o Hatha Yoga das instruções de seu sábio mestre”. V:182.

Compare o leitor a frase acima com a afirmação da Hatha Yoga Pradipika: “Saúdo o Primevo Senhor, Shiva (Adinatha), que ensinou o conhecimento do Hatha Yoga a sua esposa Parvati. Este conhecimento, como uma escada, conduz ao elevado Raja Yoga”. I:1.

Tipos de praticantes de Yoga (sadhakas).

“O Yoga é de quatro tipos: primeiro, vêm o Mantra Yoga; em segundo lugar, o Hatha Yoga, em terceiro, o Laya Yoga e, em quarto lugar, o Raja Yoga, que elimina as dualidades”. V:9.

O autor afirma que nem todas as formas de Yoga são adequadas para todas as pessoas: “Os praticantes são de quatro tipos: [aqueles cuja intensidade é] suave, moderada, ardente e muito ardente. [Este último tipo,] o melhor, pode cruzar o oceano do mundo [das aparências]”. V:10.

A continuação, descreve a motivação e as características de cada um desses tipos de praticante, indicando, em função dessas características, o tipo de prática mais adequado para cada um:

“Pessoas de mente estreita, distraídas, adoentadas, que questionam os ensinamentos do mestre, homens avarentos, que agem de modo incorreto, glutões, demasiadamente apegados a suas esposas, tímidos, doentes, não independentes, carentes e cruéis, aqueles de mau caráter e os fracos, todos esses são considerados praticantes [de motivação] fraca. Com grande esforço, tais pessoas alcançam o sucesso na prática em doze anos. Estes devem ser considerados aptos para a prática de Mantra Yoga”. V:11.

“Pessoas de mente aberta, compassivas, amantes da virtude, eloqüentes. Aqueles que sempre evitam os extremos, são os praticantes de motivação média. Estes, devem ser iniciados pelo mestre no Laya Yoga”. V:13.

“Pessoas de mente firme, versadas no Laya Yoga, independentes, cheias de energia, magnânimas, cheias de simpatia, que sabem perdoar, verdadeiras, corajosas, cheias de confiança [no mestre e no ensinamento], adoradoras dos pés de lótus de seus Gurus, sempre comprometidas na prática de Yoga, tais pessoas são consideradas praticantes ardentes (adhimatra). Eles obtêm sucesso na prática de Yoga em seis anos, e devem ser iniciados no Hatha Yoga e seus diversos ramos”. V:14.

“Aqueles que tiverem o maior caudal de energia, com iniciativa, comprometidos, heróicos, conhecedores das escrituras, perseverantes, livres dos efeitos das emoções cegas, que não se deixam confundir, cheios de disposição, moderados em sua dieta, que dominam seus sentidos, destemidos, limpos, hábeis, caridosos, bem dispostos para ajudar o próximo, competentes, firmes, talentosos, que cultivam o contentamento, que sabem perdoar, que são de boa índole, devotos, que sabem manter seus objetivos em segredo, eloqüentes, pacíficos, que têm confiança nas escrituras e adoram Ishvara e o guru, que têm aversão a desperdiçar seu tempo e são livres de doenças, que conhecem os deveres do adhimatra e praticam todos os Yogas. Sem dúvida, tais praticantes obtêm o êxito na prática em três anos. [Estes são considerados os mais ardentes, e] estão capacitados para serem iniciados em todas as formas de Yoga, sem dúvida”. V:15.

Para quem é a prática de Hatha Yoga?

O leitor pode considerar as exigências e qualidades que se esperam do praticante ideal um tanto exageradas. Porém, o fato é que a maior parte das condições aqui listadas são essenciais para ter-se sucesso na prática. Mesmo se para o praticante da atualidade for difícil de aceitar isso, desde o tempo das Upanishads o caminho do Yoga sempre foi descrito como um caminho estreito e difícil. Aliás, desde o início dos tempos o Yoga foi considerado um caminho para muito poucos, como a própria Shiva Samhita aponta numa outra passagem:

“Este Yogashastra aqui exposto é uma doutrina muito secreta, que deverá somente ser revelada nestes três mundos ao devoto de alma elevada”. I:19.

Pela afirmação acima, podemos deduzir que o ensinamento aqui contido não se destina a qualquer um, nem é para iniciantes. Pelo menos, segundo os autores destes textos antigos. Se o praticante não estiver preparado para cultivar as virtudes anteriormente listadas, que são condições sine que non para se fazer merecedor e receber o ensinamento do Yoga, seja do tipo que for, este ficará sempre fora do alcance dele.

Condições para se ter sucesso na prática.

“O yogi deve renunciar ao seguinte: 1. alimentos ácidos, 2. adstringentes, 3. substâncias pungentes, 4. sal, 5. mostarda, e 6. alimentos amargos. 7. Andar demasiado, 8.. tomar banho antes do amanhecer, e 9. alimentar-se com frituras. Ele deve evitar: 10. roubar, 11. matar [até mesmo animais], 12. cultivar inimizades, 13. o orgulho, 14. a ambigüidade e 15. a desonestidade. Igualmente, deve evitar 16. jejuar, 17. mentir, 18. pensamentos alheios à libertação dos condicionamentos (moksha), 19. crueldade em relação aos animais, 20. companhia de mulheres, 21. ficar demasiado perto do fogo, 22. falar demais, sem medir as conseqüências das próprias palavras e, finalmente, 23. comer demais”. III:33.

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O Yoga

Agosto 7, 2008 at 11:31 am (Hatha Yoga)

O Yoga

Om Nath Uttara Kula Kaula Namah!

O Yoga é uma antiga e completa ciência espiritual que evoluiu a partir das civilizações do Vale do Indo através de milhares de anos, sendo desenvolvida por estudos e por experiência interior ao longo de uma corrente ancestral de mestres iluminados.

É muito difícil determinar o nascimento do Yoga. Nós poderíamos dizer que sua origem pode ser rastreada nos primórdios dos tempos no berço da civilização, a Índia. Como uma disciplina espiritual, sobretudo prática, o Yoga sobreviveu às brumas do tempo por anteceder a qualquer sistema filosófico.

Estatuetas e sinetes de esteatite representando entidades femininas e masculinas como Kali e Shiva, o protoyogi itfálico, sentado em ásana meditativa, apontam rastros desta estrutura espiritual dentre os povos considerados o berço do Tantra[1] e do Yoga.

Quando o primeiro homem tentou compreender a Natureza (Prakiti) e suas manifestações, quando se iniciou a necessidade da busca e do auto-aperfeiçoamento a fim de se chegar à essência do Ser (Purusha), nasceu o Yoga, uma tecnologia espiritual capaz de dotar seu adepto de capacidades que, antes latentes, agora o levam ao desenvolvimento de todos os diversos níveis de consciência. Assim o Yoga nasce da compreensão adquirida de todas as manifestações externas da natureza e suas influencias subjetivas sobre a consciência humana.

Como uma arcaica tecnologia espiritual, anterior à codificação de sistemas filosóficos, o Yoga é um caminho de integração com a própria consciência. Como uma metodologia sistematizada, o Yoga oferece o néctar (amrita) que aplaca a sede de conhecer a si mesmo. A recompensa é o estado de não condicionamento (samádhi). A prática deste sistema eliminou a distância entre o sagrado e o profano. Ademais, a profunda introspecção decorrente desta prática espiritual levou os primeiros protoyogis a descobrir em si mesmos o Ser e a Natureza (Purusha & Prakiti). O Purusha representa a força cognitiva capaz de visão e percepção real do universo e que não está sujeito a mudanças. Prakriti, a energia manifestada, está sujeita a constantes mudanças, e abrange toda matéria, incluindo a mente e seus pensamentos, sentimentos e memórias. Yoga, como união, é assim a metodologia prática que nos permite desvendar o estado interior em que estas duas forças, também conhecidas pelos nomes de Shiva & Shakti no Tantra, se unificam.

A palavra Yoga possui muitos significados como juntar, unir, amarrar os cordões da mente. Mas outros significados singulares são importantes, tais como atingir o que era antes inatingível ou um estado de constante mudança. Assim, se nos embasarmos na Tradição do Yoga encontraremos inúmeros significados importantes que conceitualizam a palavra. Contudo, o Yoga é aquele estado consciente onde toda ação é acompanhada de perfeita atenção. A prática do Yoga cria um estado que nos capacita a estarmos sempre presentes em nós mesmos, em todos os momentos atentos a nossas ações.

Embora o Yoga seja anterior a qualquer sistema filosófico, ele sobreviveu a todos os cultos e sub-cultos originados da Índia e países próximos. Muitos cultos, seitas e religiões utilizaram sua filosofia especulativa para sistematizá-lo, bem como se valeram do Yoga como fundamento prático para suas especulações. Dentre as Tradições que se valeram do Yoga nós podemos destacar o Tantra, os Nathas Siddhas, o Vedánta, o Sámkhya, o Jainismo, o Budismo e etc.

Assim, não é possível determinar, de forma alguma, se uma ou outra tradição detém os verdadeiros princípios do Yoga. Embora a estrutura do Yoga esteja intimamente ligada ao Vedánta ou ao Tantra como hoje conhecemos, consideramos a Tradição do Yoga em si inerente a qualquer sistema, portanto aplicável a qualquer um. Em outras palavras, poderíamos dizer que da mesma maneira que diferentes pérolas de um rosário estão ligadas entre si por um único fio, da mesma forma todas as diferentes tradições, do Vedánta ao Tantra, estão ligadas pelo Yoga. O Yoga é o aspecto prático subjacente de todas as tradições espirituais que nasceram no seio da Índia, uma vez que conduz ao reforço da sensibilização e a realização das convicções pessoais.

Como enfatizado acima, o Yoga é um sistema prático de busca espiritual e auto-transcendência. Seu escopo integral é deveras incompreensível para a mente. Portanto, por maiores que forem os esforços em direção ao estudo da tradição ela somente será compreendida em essência na prática. Esta prática não se limita a técnicas psicofisiológicas como os ásanas e pránáyámas do Hatha Yoga, mas uma integralidade de todas as faculdades do Ser. O Yoga é a própria vida pulsando dentro de cada sadhaka. No Yoga Sútras de Patañjali, II:26, está escrito: vivekakhyátiraviplavá hánopáyah, i.e. discernimento constante é o meio para se destruir a ignorância. Este discernimento é a lucidez ou o estado de consciência plena abordado anteriormente. No Bagavad Gítá II:50 encontramos: Yogah karmashu kaushalam, i.e. Yoga é a perfeição na ação. É a mesma abordagem filosófica, dita em outras palavras. Quando o sadhaka se encontra plenamente consciente, fazendo de sua vida diária uma sacralização espiritual, mantendo-se firme na prática contínua e constante da execução da plena atenção, isso é Yoga. Isso é integração.

Toda tradição espiritual passa por diversas modificações no curso de sua evolução. Inúmeros são os mestres que lhe acrescentam novos pontos de vista e novas práticas segundo suas próprias experiências. Com o Yoga não foi diferente. Embora em essência a Tradição do Yoga permaneça imutável, repousa em seu seio mestres que contribuíram para o crescimento e a difusão do Yoga e seus novos sistemas, cada um adequado a um tipo de pessoa.. O resultado disso é o que vemos hoje. Atualmente as pessoas praticam Yoga para o benefício da saúde física e mental, para adquirir concentração, tranqüilidade e experiências espirituais. Existe uma grande variedade de caminhos no Yoga que servem para atender diferentes necessidades humanas e os mais diversos temperamentos, assistindo assim a todos no caminho da liberação de todo o potencial humano, da criatividade e da libertação espiritual.

No ocidente o ramo mais conhecido e difundido do Yoga é o Hatha Yoga.[2] Este é um método de Yoga desenvolvido como uma parte da Tradição Tântrica que existiu na Índia 10 000 anos atrás. Como citado acima, artefatos arqueológicos na forma de estatuetas demonstravam o Senhor Shiva em postura meditativa. Estes artefatos foram encontrados em escavações de ruínas arqueológicas no Vale do Indo em Harappa e Mohenjodaro (atual Paquistão). Estas ruínas foram uma vez o lugar de morada de povos que viviam em eras pré-védicas antes do florescimento da civilização ariana na Índia. De acordo com a tradição mítica, Shiva[3] é considerado o fundador do Yoga e Parvati, sua primeira discípula.

O Senhor Shiva é comumente considerado o símbolo e a incorporação da Suprema Consciência. Parvati representa o Supremo Conhecimento, Vontade e Ação, além de ser responsável por toda criação. Esta força ou energia também é conhecida pelo nome de Kundaliní Shakti, a força cósmica que jaz latente e adormecida em todos os seres. Parvati ainda é considerada a mãe de todo o universo. A alma individual encarna no mundo das formas e é liberada de sua escravidão através de sua graça. No amor de sua compaixão para com seus filhos ela comunica seu conhecimento secreto de libertação através do Tantra. O Hatha Yoga deriva suas técnicas do Tantra e ambos não podem ser separados, assim como a Consciência, Shiva, não pode ser separada da Energia, Shakti.

A palavra Tantra é a combinação de duas palavras: tanoti e trayati, que significam expansão e liberação respectivamente. Portanto, esta é a ciência da expansão da consciência e da liberação da energia. O Tantra é o caminho para se obter a liberdade da escravidão do mundo enquanto se vive nele. O primeiro passo no sádhana tântrico é conhecer as limitações do corpo e da mente. O próximo passo são as técnicas que irão expandir a consciência e liberar as energias enquanto as limitações pessoais são transcendidas e a mais alta Realidade é experienciada. O princípio unificador por trás dos inúmeros sistemas de Tantra é que o mundo material e suas experiências podem ser utilizadas para atingir iluminação. O hathayogi que segue a via tântrica não procura desapegar-se do mundo fenomenal apoiando-se sobre as forças do intelecto. Ao contrário, seu propósito é a transmutação de toda a natureza a partir de sua forma mais grosseira, o corpo físico.

Por volta dos Sécs. VII e XII d.C. houve um grande alvoroço em torno do corpo de diamante ou corpo plenamente realizado. Este movimento culminou no Culto dos Natha Siddhas. Os siddhas eram os adeptos realizados do Tantra que alcançaram a perfeição, i.e. os siddhis. O tântrico adepto siddha trabalha sobre a matéria prima em seu estado mais bruto, o corpo físico, transmutando-a na essência espiritual corporificada. Este processo de cultivo do corpo ou káya-sádhana foi à necessidade tântrica de se espiritualizar o corpo e corporificar o espírito. Aqui nasceu o Hatha Yoga.

A escola mais importante do movimento siddha que fora fator fundamental na revolução pan-indiana dos ensinos espirituais do hinduísmo foi à Tradição dos Nathas Yogis. Esta escola foi fundada por Matsyendranatha,[4] embora o Senhor Shiva, como Adi-Natha, seja considerado o verdadeiro patrono desta escola. Por muitas tradições Matsyendranatha é considerado uma encarnação de Shiva. Contudo, é a Gorakshanatha que a fundação do Hatha Yoga é atribuída. Ele escreveu o famoso tratado chamado Hatha Yoga (hoje perdido), cujo Hatha Yoga Pradípiká é dito se basear.

Finalmente, em níveis práticos, o Hatha Yoga equilibra e harmoniza o corpo, a mente e as emoções. Este estado pode ser alcançado através da prática de ásanas (posturas físicas), pránáyámas (controle do alento), mudrá e bandha (técnicas psicofísicas de liberação da energia vital), shatkarma (limpeza interna), bem como uma grande variedade de técnicas de meditação. Através do Hatha Yoga as limitações da vida podem ser transcendidas; habilidades podem ser desenvolvidas e uma maior eficácia nas ações podem ser conquistadas, o que resulta na expressão dos mais elevados níveis de criatividade e potencialidade humana.

Om Namah Shivaya!

Anuttara Kápilanath Kulácaryá



[1] Embora o Tantra seja um movimento particularmente recente, datado do Séc. IV d.C., traços de sua arcaica manifestação foram encontrados no neolítico (8000 a.C.), e muitos de seus símbolos são datados do paleolítico (20 000 a.C.).

[2] Método de Yoga Tântrico surgido por volta dos Sécs. IX-XII que almeja o despertar da Kundaliní pelo esforço físico extremo. Hatha (`esforço violento´ ou `força´) é derivada de duas raízes: ha, sol, e tha, lua. Aqui notadamente aparece a presença tântrica: a integração das forças lunar e solar, feminina e masculina; portanto a transcendência a partir desta união (Yoga) é o objetivo do Tantra. O surgimento do Hatha Yoga é atribuído a Gorakshanatha, asceta da linhagem dos Nathas Siddhas e principal discípulo de Matsyendranatha, fundador da Escola Yogini Kaula, a linhagem shakta da Tradição Kaula.

[3] Veja abaixo.

[4] A postura matsyendrásana leva seu nome em sua homenagem.

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