Elementos de Tantra
J. R. Araújo
A literatura Tantra refere-se especificamente ao aspecto feminino da Pessoa Suprema. Neste sistema, a realização da energia de prazer (shakti) da Deidade adorável é o objetivo último do praticante. Nos Tantras Vaishnavas, essa Energia Suprema é hladini shakti, personificada por Srimati Radharani. Para o praticante Shaiva (seguidor de Shiva) essa energia é personificada por Parvati. Qualquer que seja a deidade, Vishnu ou Shiva, de adoração do praticante, ele procura ocupar-se na contemplação e serviço da energia interna de sua deidade. Entrar em yoga sublime com a energia shakti de sua devoção é o objetivo supremo e desejável. Assim como o Senhor Supremo permanece junto de toda alma corporificada como Paramatma, sua energia interna, shaktidevi, também está presente como Kundalini devi.
Tantra Yoga procura a realização direta da Maha Shakti, a Divina Energia Interna da deidade de adoração do praticante (sakta) e envolve o aspecto mais geral onde diversas técnicas (asanas, mantras, puja, yantras, pranayana, dhyana, mudras, etc.) são utilizadas, promovendo a dinâmica de energias sutis para a obtenção de poderes especiais (siddhis) ou a realização de Maha Shakti. Kundalini Yoga, também conhecida como Bhuta-suddhi, é uma forma particular de Tantra Yoga. Estes termos referem-se a Kundalini Shakti ou a Suprema Energia no corpo humano, pela ascensão da qual, yoga ou samadhi é alcançado. Durante esta ascensão, os elementos do corpo e a mente são purificados (bhuta-suddhi). Kundalini Yoga procura a realização do aspecto localizado dessa energia interna, kundalinidevi, situada no Muladhara Chakra, em estado adormecido. Utiliza-se da movimentação das energias nos dois nadis, ida e pingala e suas convoluções em torno do sushumna ou canal central, em seu movimento ascendente. Existem seis chakras ou centros de energia alinhados e situados verticalmente, próximos à coluna vertebral. Na base da coluna vertebral, há o Muladhara chakra, onde repousa disposta em espiral a energia kundalini que é uma manifestação de Maha Shakti ou a Divina Deusa, como expansão da energia de prazer emanada do Senhor Supremo. O Senhor Supremo permanece junto de toda alma corporificada como Paramatma, sua energia sakti também está presente como Kundalini devi. A perfeição, neste sistema de yoga, consiste em direcionar esta energia, para o alto, fazendo-a circular por todos os seis chakras, por meio de uma série de exercícios respiratórios apropriados, meditação no bija-mantram característico de cada chakra, que é o mantra raiz ou a vibração sonora original conexa com cada um destes centros de energia e assim fazer esta energia despertar e ascender em direção ao alto da cabeça, onde está o Sahasrara Padma que não é considerado um chakra, mas uma abertura no alto da cabeça. Uma das técnicas de respiração do Kundalini Pranayana utilizada é a Bhairavi Kriya, considerada muito poderosa para a obtenção de poderes místicos (siddhis) e elevação da consciência.
A idéia de “Tantra Yoga” como uma prática sexual é uma completa distorção e mal representação do caminho espiritual genuíno e tradicional delineado nos Tantras. Os Tantras compreendem uma vasta coleção de textos védicos escritos em Sânscrito, abrangendo uma variada gama de assuntos, mas tendo como objetivo central o reviver de nossa relação espiritual com Deus. De acordo com o Nirukti, o dicionário padrão em Sânscrito, tantra significa “instrução”. Instrução em diversos campos do conhecimento tais como, meditação, construção de templos, agricultura, culinária, tecelagem, música, geometria e matemática, decoração, adoração e cerimônias no templo, organização de festivais religiosos, administração de comunidades, artes militares, comércio e finanças, vida familiar, conhecimento de ervas medicinais, e muitos outros assuntos.
Na tradição filosófico-espiritual chamada Sanatana-dharma, existem três sistemas principais que originalmente contêm ensinamentos sobre Sakti Devi e Kundalini. Estes sistemas compreendem os Vedas e Upanishads, que formam o sistema mais antigo, os Puranas e os Tantras. Nos Vedas encontramos informações especialmente no Atharva Veda. Nos Upanishads temos o Yogopanishad e o Kundalini Yoga Upanishad. Entre os Puranas temos o Shiva Purana, o Lingam Purana. No Markandeya Purana há uma parte designada como devimahatmya onde a devoção a Sakti devi é enfatizada, bem como no Upa-Purana Devi-Bhagavata. Existem dezoito Puranas principais e dezoito secundários ou Upa-Puranas. Dentre os textos tântricos tradicionais sobre o assunto, destacam-se os Sat Chakra Nirupana, Paduka Panchaka, Kularnava Tantra, Yoga Taravali (que descreve as técnicas de Kundalini-yoga), Sarada Tilak Tantram, Saundaryalahari que é um comentário de Sripad Shankaryacharya sobre as glórias de Kundalini ou a Divina Shakti.
A literatura tântrica segue duas vertentes, a dakshinachara (mão direita) e a vamchara (mão esquerda). Esta designação parece seguir o costume védico de que a mão direita é utilizada para atividades auspiciosas, puja (rituais de adoração), manuseio de artigos nas cerimônias prescritas nos Vedas ou mesmo higiene dos membros superiores do corpo, enquanto a mão esquerda é utilizada para atividades inferiores, como a higiene de determinadas partes do corpo, por exemplo. Assim, existem literaturas e práticas onde a abordagem seja dakshinachara ou vamchara. O Tantra da mão direita, diz respeito aos rituais de purificação e às atividades onde uma disciplina espiritual rígida procura a realização da energia original (Maha Shakti) emanada do Senhor Supremo. Todos esses textos mencionados no parágrafo anterior dizem respeito à dakshinachara.
Os Gaudiyas Vaishnavas utilizam-se de textos tântricos dakshinacharas, tais como Narada Pañcaratra, Brihad-gautamiya Tantra, Gautamiya Tantra, Svatvata Tantra, Brihad-vaishnava Tantra, Vishnu-yamala Tantra, Svayambhuva Tantra, Vaishnava Tantra, Tantra-nirnaya e outros. Em muitos volumes do Srimad-Bhagavatam e Caitanya Caritamrta, Srila Prabhupada (Mestre Espiritual na tradição gaudiya-vashnava) faz referências freqüentes a estes textos.
No Brihad Gautamiya Tantra é dito sobre Srimati Radharani :
devi krsna-mayi prokta
radhika para-devata
sarva-laksmi-mayi sarva-
kantih sammohini para
“A deusa transcendental Srimati Radharani é a consorte direta do Senhor Krishna. Ela é a figura central dentre todas as deusas da fortuna. Ela é a potência interna principal do Senhor e possui toda a atratividade para atrair a Toda-atrativa Personalidade de Deus“. No Caitanya-caritamrta, todo o capítulo 4 do Adi-lila, promove a explicação de .Srimati Radharani como a energia interna de Sri Krishna, com base no verso acima mencionado do Brihad Gautamiya Tantra.
Apesar de Tantra ser uma disciplina séria, existe uma prática que corresponde a uma escola trântrica de menor importância na Índia, mas que ganhou bastante difusão no Ocidente. É a escola Kaula Marga, onde a energia sexual é diretamente utilizada como uma mola propulsora de Kundalini Shakti. É uma prática muito rígida, onde exige uma disciplina rigorosa, mas que no decorrer dos anos tornou-se muito distorcida e que neste aspecto, degenerado, ganhou notoriedade no Ocidente. Em seu aspecto genuíno e tradicional o praticante (kaula) inicia seus estudos aos cinco anos de idade, quando é levado a um mosteiro ou ashram, numa floresta densa e inacessível lá permanecendo até a idade de cerca de vinte anos. Durante todo esse período observa celibato absoluto, imerso numa atmosfera propícia ao desenvolvimento pessoal, sem qualquer contato, até mesmo visual, com pessoas de mentalidade mundana ou mesmo do sexo oposto. O Praticante recebe instrução teórica e prática em diversas atividades mencionadas nos sastras, tais como yoga, meditação, medicina, artes e ciências védicas. Segue uma disciplina rigorosa de purificação e conhecimento dos textos tântricos. Aprende a movimentar a energia sutil através do shushumna, passando-a pelos chakras e quando está quase pronto para o ritual final, encontra-se com sua shakti. È central, nessa tradição a figura da sakti. Esta é uma moça, educada igualmente de acordo com essa tradição, oferecida como esposa a esse rapaz desde quando este tinha a idade de cinco anos, quando foi levado ao ashram. Esta jovem também recebeu instruções, mas permaneceu durante todo esse tempo na casa de seus pais. São jovens provenientes de famílias shaktas devotadas e o sucesso nesta disciplina é o objetivo de suas vidas. É importante salientar que, em qualquer fase deste processo, havendo a falha de qualquer um deles, a procura do objetivo é imediatamente abandonada e eles voltam para suas famílias, onde a cerimônia de casamento é oficializada e, juntos, constituirão família. Antes, porém, tentarão com muito esforço e força de vontade a busca da emancipação em yoga. Neste momento, devidamente preparados, eles encontram-se na floresta, fora dos limites do ashram, e após uma breve cerimônia vão juntos, sem qualquer contato físico, cruzando a floresta, alimentando-se apenas daquilo que possam coletar, como frutos silvestres, folhas e raízes. Praticam austeridades (tapas), meditação (dhyana), observam celibato e executam muitos exercícios respiratórios sempre acompanhados de mantras em glorificação a Shakti devi cultivando sempre o desapego aos prazeres do corpo. Quando completam o ciclo de viverem na floresta, começam o ciclo urbano quando visitam lugares de peregrinação. Neste ciclo, não coletam alimentos, mas esmolam o que comer, trocam suas roupas com as roupas dos pedintes e dormem ao relento. Este é o período de maior austeridades, onde as práticas de meditação são incrementadas. Ao final deste ciclo, nem mesmo esmolam o que comer e, sem pedir, comem apenas o que recebem em caridade. Aí chegou o momento do teste final de seus desapegos ao corpo. Aproximam-se de um lugar onde cadáveres são cremados, e após vários dias em meditação e orações a Shakti devi, procuram uma parte qualquer de algum cadáver que tenha permanecida sem cremar totalmente e como teste final de seus desapegos, comem um pouco destes restos. Neste teste não deve haver repulsa ou medo, pois eles devem observar se têm apegos ou aversões provenientes de qualquer atividade corpórea.
No caso de superarem esta fase, agora estão aptos para a fase seguinte, Urdhvana Kriya. A verificação de ausência de apegos ou aversões nas atividades corpóreas, trará certeza aos praticantes de que ao adentrarem nesta fase, o farão sem qualquer mácula de gozo dos sentidos, e assim, terão o necessário controle para alcançarem o objetivo desta fase, após anos e anos de meticulosa preparação. A tradição “urdhvum” refere-se à prática de se transmutar a energia sexual, direcionando-a para cima, através dos nadis tântricos, até o alto da cabeça. Esta prática, denominada Urdhvamnaya Kriya, é reconhecida como uma técnica eficaz e usada em conjunto com o mantra sri-prasada-para . No Kulanarva Tantra, o Senhor Shiva afirma: “Ó Deveshi ! Saiba que este Urdhvamnaya é o meio mais simples e direto para a emancipação espiritual, o qual oferece mais e melhores frutos que qualquer outro método. Nem os Vedas, Ágamas, Sastras, Puranas, austeridades, peregrinações, mantras e nem mesmo as ervas medicinais, nada pode superar este Urdhvamnaya, aprendido apenas através do guru”. Nesta prática, os kaulas devidamente habilitados, por meses e meses de exercícios e testes, como os descritos acima, podem executar o ritual final, em um contato sexual, onde, na ausência de orgasmo ou ejaculação, toda a energia sexual não é desperdiçada, mas utilizada como uma mola propulsora da energia sakti, que será por fim impulsionada para o sahasrama padma, fazendo com que os praticantes alcancem o estágio último de realização da energia infinita de Shakti devi, usufruindo assim de um mergulho neste aspecto diversificado (feminino) do brahman, quando todos os siddhis e consciência superior se manifestam. È um caminho árduo, sério e por demais difícil, que nada tem a ver com a licenciosidade e orgia que faz parte dos exercícios de grupos e gurus indulgentes que nada entendem de Tantra e de seu real objetivo. Assim, depois de provarem a si mesmos estarem distantes da propensão ao gozo dos sentidos, livres do apego ou aversão corpóreos, totalmente situados em meditação na forma Shakti devi como suas Ishta-devata, deidade adorável, os kaulas submetem-se ao ritual urdhvana kriya, livres da propensão materialista de prazer, e assim bem sucedidos, entram em samadhi conseqüente do despertar de kundalini shakti. Esta forma ritual disciplinada, austera e bastante rígida é bem diferente da licenciosidade praticada nas assim chamadas academias de yoga tantra.
Os Kumaras alcançaram o estado de pureza, potência espiritual plena e desapego genuíno (niskriyan ), após executarem urdhva-retasa ou transmutarem a propensão sexual materialista (por meio da meditação) em energia espiritual pura. (Srimad. Bhagavatam, canto 3, cap.12, verso 4).
Portanto podemos entender que Tantra Yoga é uma disciplina que favorece ao avanço espiritual, possibilitando ao praticante a realização plena em yoga com as energias internas de prazer do Senhor Supremo. No Caitanya Caritamrta, Adi-lila, capítulo 4, Krishnadasa Kaviraja Goswami explica que Srimati Radharani é a origem de todas as Energias Lakshmis, ou deusas da fortuna, e, como o Senhor Vishnu é a origem do Senhor Shiva, a energia de prazer deste, também é uma expansão de Vishnu. O Senhor Krishna, é em última análise a fonte de todas as energias e a realização plena ou parcial destas energias é sempre um passo importante no caminho da auto-realização.
Kundalini e Yoga
Kundalini certamente é assunto para o Yoga, dentro do escopo da Cultura Tântrica.
Acredito que o medo que muitas pessoas alegam ter de Kundalini seja decorrente de leituras que fizeram, e não de experiência pessoal. Esta minha crença decorre da percepção de que, embora muitos praticantes de Yoga tenham lido ou ouvido falar sobre Kundalini, na verdade não têm uma compreensão clara sobre o assunto. Se perguntados sobre o que é, em geral são capazes apenas de repetir algumas generalidades da literatura comum.
A principal fonte de desinformação sobre Kundalini é a literatura ocultista, em especial aquela alegadamente produzida por “clarividência”. É importante que o praticante de Yoga entenda que o Ocultismo ocidental não é fonte confiável de referência para ele. Para entender Kundalini ele precisa buscar a literatura do Tantra.
Depois, é interessante destacar que a literatura do Tantra é muito difícil de se encontrar fora da Índia. Pois está em sua maior parte traduzida apenas do Sânscrito para o Hindi, ou foi composta em Tamil ou Hindi e jamais traduzida. Será preciso, portanto, se valer de poucas fontes mais acessíveis.
Por fim, como a tradição do Tantra está muito focada na relação guru/shiShya, uma parte da literatura positivamente adverte que não se deve estudar o assunto senão sob a orientação pessoal de um guru. Isso deve ser entendido como uma característica comum a todos os assuntos tratados pelo Tantra, e não apenas Kundalini.
Carlos Eduardo
Surya Namaskara é antigo?
O Surya Namaskara é uma prática relativamente recente, desenvolvida aparentemente na região do Rajastão. Está baseada em rituais muito antigos de saudação ao Sol que eram executados às margens dos rios ou dentro de suas águas, em tempos védicos, e que são praticados ainda hoje por toda a Índia. Diariamente essa prática pode ser testemunhada ao amanhecer na margem oeste do Ganges, em Varanasi.
No Rajastão há famílias Rajputs que se acreditam integrantes do Surya VaMsha (Dinastia Solar), e como tal possivelmente teriam adaptado os rituais para uma série de saudações às várias manifestações da divindade solar.
Apenas há pouco mais de um século essa prática teria sido formalmente assimilada ao Yoga, e adaptada para encenar uma sequência de posturas do tipo “asanam”. O Raja de Aundh (Maharashtra), que em 1937 estudava Direito em Londres, teria chamado a atenção pública ao ensinar uma sequência de posturas, praticadas por sua família, a um grupo de britânicos. Entre eles estava um jornalista que, após anotar detalhadamente o procedimento, teria publicado artigos e um livro a respeito do Surya Namaskar, tornando-se o responsavel pela popularização gradual da prática no ocidente.
A sequência moderna enuncia doze nomes pelos quais é chamado o deus do Sol, mas que não têm necessariamente relação com posição do astro no céu, ou com os signos do Zodíaco.
Carlos Eduardo
Em busca de um instrutor
Eloisa Vargas
Estar “em forma” na ótica da ginástica é uma coisa bem diferente
do “estar em forma” na visão do Yoga. Yoga não é ginástica e isto
deve ser entendido antes de começar. Existem mil maneiras de
praticar a parte física do Yoga mas nenhuma destas maneiras é
ginástica.
Se você pretende praticar o Yoga de uma forma verdadeira, certifique-
se de que o instrutor que você escolheu é a pessoa capacitada para
orientá-lo neste contexto.
Se você é iniciante e quer aprender , deve procurar um instrutor de
Yoga que ensine as poses (ásanas) na forma ou estilo que mais
sintonize com você pois os estilos são muitos. Faça algumas aulas
para aprender as poses e os fluxos. Se o instrutor não for bom no
suporte filosófico, e você se interessa por esta área, leia sobre o
assunto, busque, pesquise. Procure trocar de instrutor até que
descubra aquele que será o melhor para você.
Saiba que muitas vezes o nome Yoga é usado para coisas que nem sempre
condizem com os princípios do Yoga. O fato das academias oferecerem
esta prática como uma “ginástica diferente” ou como uma alternativa
para os que enjoaram da malhação pura e simples, por um lado ajuda a
trazer uma imagem de um Yoga mais dinâmico, mas por outro, acaba por
corromper a sua essência.
Mas ainda assim acredito que isto não seja motivo suficiente para que
se estabeleça um sistema de fiscalização oficial no Yoga pois apesar
destes enganos, a pessoa que nasceu para o Yoga sabe a diferença e
não compra gato por lebre. Alguns perdem um pouco de tempo pelos
caminhos errados mas um dia, encontram um instrutor sincero com o
qual se harmonizam dentro do estilo que lhes é mais apropriado.
Embora não haja motivos suficientes para que esta prática
seja “fiscalizada”, creio que existe uma forte tendência à abertura
de núcleos de ensino para formação e apoio aos instrutores dentro dos
princípios básicos da essência do Yoga.
Estes princípios são simples e não devem ser objeto de puro
intelecto uma vez que Yoga é simples, não está vinculado a nenhum
sistema de crenças e nem mesmo exige que se estude a sua filosofia
uma vez que é, essencialmente, uma questão de prática. Nenhuma
corrente filosófica serve de suporte ao Yoga e sim, o contrário.
Pattabhi Joes refere-se ao lado teórico filosófico do Yoga com grande
sabedoria quando postula o seguinte:
” Yoga é noventa e nove por cento prática e um por cento teoria. Para
aquele que não pratica, a teoria é inútil, para aquele que pratica,
ela é óbvia.”
Creio que a preocupação fundamental na transmissão do Yoga por parte
dos instrutores dos ramos derivados do hatha yoga deverá basear-se em
dois pontos:
1) Fazer com que o aluno entenda que Yoga não é ginástica e não é
terapia, embora o faça como conseqüência e não como objetivo.O
objetivo único do Yoga é a iluminação.
2) Trabalhar intensamente na correção da postura e dos
desalinhamentos que provocam desequilíbrios a fim de que os asanas
sejam praticados com perfeição.
Para que o aluno entenda que Yoga não é ginástica, existe o Astanga
Yoga de Patanjali – o código de ética e prática do Yogue que deverá
ser mostrado e compreendido na experiência viva do momento da
prática. No Hatha-Yoga-Pradîpikâ (4.102), o mais popular manual dessa
escola, este item é esclarecido na seguinte citação:
” Todos os meios do Hatha Yoga têm como fim a aquisição da perfeição
no Râja-Yoga. “
Para que possam corrigir sua postura e adquirir alinhamento e
equilíbrio, é necessário que o instrutor conheça e aplique leis da
biomecânica até que o aluno adquira a habilidade de descobrir o
equilíbrio e o alinhamento através da ação inteligente e natural do
próprio corpo.
Em hatha yoga, que é o caminho do Yoga que utiliza o corpo como base
para a iluminação, o alinhamento perfeito será desenvolvido
naturalmente através do treinamento, dedicação, paciência e
perseverança. Com o tempo e a prática, este trabalho físico através
dos asana começa a atingir a mente abrindo caminho para a consciência
do espírito. Embora todos fiquem “em forma” externamente, não é este
o objetivo. O que se chama de “boa forma”, saúde etc., é apenas
condição para outras coisas que são a essência do Yoga.
O instrutor que segue os preceitos básicos do Yoga será abençoado
pelos mestres ancestrais e jamais desvirtuará ou corromperá a
prática. Esta é a ética da transmissão de um conhecimento ancestral
que bem sabemos, em parte, é herança kármica e que por isto, está
muito longe de ser compreendido ou administrado através de leis
humanas. E é por isto que o verdadeiro Yoga deverá continuar livre de
qualquer fator que possa restringi-lo ou tentar aprisioná-lo em um
conjunto de regras, direitos e deveres. Isto não é necessário e o
praticante sincero sabe disto.
Acredito que existe um princípio de troca na “transmissão do
conhecimento do Yoga” e é dentro deste princípio que pratico e
ensino: se você respeita as bases do Yoga, os mestres ancestrais
estarão contigo e te ajudarão a transmitir o que pode e deve ser
transmitido. Acredito ser esta uma função kármica e que o instrutor
não pode tentar fazer disto, apenas uma profissão. Penso que seja um
grande erro e com conseqüências sérias a manipulação do Yoga através
de leis e regulamentações. Uma faculdade jamais poderá produzir um
yogi e sei que todo o instrutor honesto há de concordar neste ponto.
Quando ensinamos, não estamos à serviço de nada a não ser do próprio
Yoga. Se cumprirmos e honrarmos nossa obrigação , as energias dos
mestres ancestrais nos guiarão pois estarão sempre ao nosso lado.
É difícil tentar abordar este assunto por este ângulo
considerado “místico” numa época onde grande parte dos instrutores,
responsáveis pela transmissão desta sabedoria milenar, tornam-se
materialistas ao ponto de tentarem transformar o Yoga em objeto de
consumo.
Mas saiba que o verdadeiro Yoga não está perdido e você poderá
reconhecê-lo não através da mídia e nem de prédios e aparatos
elegantes que abrigam as escolas atuais. O verdadeiro Yoga está
presente no desapego, na humildade e na sinceridade daqueles que o
transmitem e praticam e esses valores são verdadeiros e
incorruptíveis.