Origens do Yoga – Georg Feuerstein

Dezembro 28, 2008 at 11:34 pm (Cultura Indiana, Filosofia do yoga, Hatha Yoga)

O Yoga Arcaico: Os muitos textos do que se pode chamar de “Yoga Arcaico” ou “Yoga Védico” são os próprios quatro Vedas – Rig-Veda, Yajur-Veda, Sáma-Veda e Atharva-Veda – e os textos rituais dos Brahmanas e Áranyakas, baseados nos quatro hinários. O Rig-Veda, que um número cada vez maior de eruditos já data do terceiro e do quatro milênios a.C., é uma impressionante coletânea de hinos compostos por videntes (rishi) cujo olhar interior atravessava o mundo visível (material) e penetrava os mundos invisíveis (sutis). Por milhares de anos essa grande obra foi transmitida oralmente com toda fidelidade até ser por fim escrita, no século XIV. A correta recordação dos hinos exigia uma memória incrível – arte em que todos os povos antigos parecem ter se superado. Como o Rig-Veda representa a parte mais sagrada de todo o cânone dos textos sagrados hindus, os brahmins guardavam-no cuidadosamente dos olhos e ouvidos dos não-iniciados. Com efeito, foi só no século XIX que estrangeiros puderam lê-lo. Nessa época, até mesmos os brahmins já haviam se esquecido do sentido de certas palavras arcaicas e em grande medida ignoravam o significado mais profundo dos mais de dez mil versículos desse hinário.Por meio dos esforços da erudição moderna, cujos pioneiros foram grandes estudiosos europeus como Paul Deussen e Max Muller, o significado do Rig-Veda tem sido redescoberto aos poucos. Esse trabalho de resgate ainda não terminou. Com efeito, o sentido mais profundo do Rig-Veda e dos outros hinários ou “coletâneas” (samhitá) védicas ainda está, em grande parte, perdido para nós. Esse fato foi posto em evidência por Sri Aurobindo, pai do moderno Yoga Integral, que aplicou o seu profundo conhecimento de Yoga à interpretação da herança védica.

O Yoga Pré-Clássico: Os ensinamentos do Yoga Pré-Clássico sucederam aos Vedas (c.4500-2500 a.C.) mas precederam o famoso Yoga-Sútra de Patañjali (c.100-200 d.C), que veio a ser reconhecido como a expressão filosófica clássica do Yoga. Os textos da era pré-clássica ensinam diversas versões do Sámkhya-Yoga, segundo o qual a realidade última é única e singular, mas se manisfesta em sucessivos níveis de existência que terminam com o cosmo físico que conhecemos. Essa idéia já se encontra no Rig-Veda, mas está desenvolvida em toda a sua plenitude nas Upanishads. Nessas escrituras sagradas de caráter esotérico, encontramos pela primeira vez uma enunciação clara das doutrinas do não-dualismo (advaita) combinadas às do emanacionismo: universo da multiplicidade emana em estágios definidos da Singularidade transcendente. Com o tempo, isso conduziu á forma clássica do Sámkhya (que mapeia os estágios desse processo de emanação e as diversas categorias a que se dá origem). Conquanto os primeiros Upanishads, como o Brihad-Áranyaka, o Chándogya e o Taittirîya-Upanishad, não usem ainda o termo yoga no sentido técnico que adquiriu posteriormente, eles pressupõem evidentemente uma familiaridade com a disciplina espiritual que esse termo veio a significar em épocas posteriores.O mais antigo texto desse gênero que conhece a palavra yoga em seu sentido técnico é o Katha-Upanishad, composto na era pré-budista. Esse texto delineia as práticas e idéias principais do Yoga. Existem várias traduções razoavelmente confiáveis desse Upanishad, especialmente as de S. Radhakrishnan e R.E. Hume, bastante fáceis de se obter. Como esse texto, à semelhança de tantos outros textos do Yoga e do Vedánta é às vezes um pouco obscuro, os estudiosos podem consultar também o livro perspicaz de Krishna Prem. Enquanto se trabalha com o Katha-Upanishad, convém estudar também o Shvetáshvatara-Upanishad e o Maitráyaníya-Upanishad, ambos um pouco mais novos e que, portanto, evidenciam o estágio seguinte na evolução do Yoga. Também neste caso, as traduções de Radhakrishnan e Hume são bons pontos de partida. O texto principal do Yoga Pré-Clássico é o Bhagavad-Gitá, tão lido e conhecido, que constitui o “Novo Testamento” do Hinduísmo. Poucas pessoas sabem que ele é tradicionalmente considerado um Upanishad, ou seja, uma doutrina secreta que foi revelada e não composta por um indivíduo humano. Tecnicamente, o Gitá faz parte do Mahábhárata, que é uma das duas grandes epopéias nacionais da Índia. Embora existam diversas traduções desse belo texto, algumas dentre as mais populares deixam muito a desejar. Posso recomendar as versões de Sarvepalli Radhakrishnan e de Krishna Prem (que escreve do ponto de vista de um praticante). Quem quiser conhecer um excelente comentário posterior (poético e yogue) sobre o Gitá pode consultar o Jnáneshvará de Jñánadeva, do século XIII, que é uma verdadeira jóia. Foi composto em língua márati e está disponível agora numa tradução inglesa confiável e legível, de autoria de V.G. Pradhan. Para realmente compreender o Gîtâ, os estudiosos devem, sem sombra de dúvida, familiarizar-se com o contexto cultural e histórico mais amplo no qual surgiu. Também há textos pré-clássicos contidos em outras seções do Mahábhárata. São exemplos o Moksha-Dharma e o Anu-Gitá. Infelizmente, essas sessões não são facilmente acessíveis, embora os estudiosos possam compulsar o The Beginnings of Indian Philosophy de F. Edgerton, que traz excertos do Moksha-Dharma. Essa seção inteira e também o Anu-Gitá que foram traduzidos com o restante da epopéia por K.M. Ganguli e também M.N. Dutt. À semelhança do Mahábhárata, também a epopéia do Rámáyama trata, sobretudo de ensinamentos que giram em torno do valor fundamental do dharma, ou seja, da moral e da conduta virtuosa. Além disso, apresenta ensinamentos yogues sob a denominação de tapas, “ascese”.

O Yoga Clássico: A doutrina do Yoga Clássico está codificada no breve Yoga-Sútra de Patañjali e nos vários comentários a esse texto, escritos em sânscrito. O Yoga Clássico é chamado yoga-dárshana, o sistema filosófico ou ponto de vista do Yoga. Existem muitas paráfrases mas poucas boas traduções da obra de Patañjali, que é difícil de entender, pois pressupõe uma certa quantidade de conhecimento do pensamento e da cultura indiana. Não obstante, o estudo desse texto pode ser extremamente compensador. Foi isso que eu fiz com meus alunos num curso de uma aula por semana que durou nove meses, e eles evidentemente tiravam bom proveito desse exercício, tanto no que diz respeito à compreensão do sistema de Patañjali quanto à teoria e a prática do Yoga em geral. A tradução de James H.Wood é boa, posto que um tanto técnica; inclui também os dois principais comentários em sânscrito, o de Vyása e o de Vácaspati Mishra. Do ponto de vista prático, há também o The Essence of Yoga de Bernard Bouanchaud e, de B.K.S. Iyengar, o Light on the Yoga Sútras of Patañjali e o Light on Ashtanga Yoga. Para quem quiser ler um estudo erudito que defende uma interpretação não-dualista do Yoga-Sútra, (The Integrity of the Yoga Dar’sana de Ian Whicher). Muitos comentários sobre o Yoga-Sûtra foram escritos em sânscrito, e todos são bastante técnicos. Outros dois importantes comentários em sânscrito estão disponíveis em língua inglesa: o Yoga-Várttika de Vijñána Bikshu, habilmente traduzido por T.S. Rukmani, e o Yoga-Bháshya-Vivarana de Shankara Bhagavatpáda, traduzido independemente por T.S. Rukmani e Trevor Legget. Shankara foi o grande expoente do Vedânta Advaita (não-dualista), é um texto fascinante que contém muitas idéias originais.

O Yoga Pós-Clássico: O Yoga Pós-Clássico manisfesta-se num grande número de textos das seguintes categorias:

• A literatura tântrica, vasta e altamente esotérica, inclui os Ágamas, os Tantras e os Shástras, bem como a vasta literatura do Shaivismo da Caxemira e do Shaiva-Siddhânta do Sul da Índia, além dos escritos dos Siddhas em tamil. Dentre os Tantras propriamente ditos, os praticantes de Yoga devem estudar pelo menos o Kula-Arnava-Tantra e o Mahánirvána-Tantra, mais recente mas bastante significativo. Obra importante, escrita não em sânscrito mas em tamil, é  Tiru-Mantiram de Tirumûlar.

• Os Puránas, coletâneas enciclopédicas da sabedoria tradicional, que abarcam de tudo, desde a cosmologia e a filosofia até histórias de reis e de santos. Contêm muitas lendas e ensinamentos yogues. Os seguintes são especialmente importantes: o Bhagavata-Purána (também chamado Shrímad-Bhágavata), o Shiva-Purána e o Devi-Bhágavata-Purána (uma obra tântrica).

• Os chamados Yoga-Upanishads (cerca de vinte textos), a maioria dos quais foi composta depois de 1000 d.C. Entre eles incluem-se três obras de peso: o Darshana-Upanishad, o Yoga-Shikhá-Upanishad e o Tejo-Bindu-Upanishad.

• Os textos do Hatha-Yoga, como a Goraksha-Samhitá, a Hatha-Yoga-Pradípiká, a Hatha-ratna-Avalí, a Gheranda-Samhitá, a Shiva-Samhitá, o Yoga-Yájnavalkya, o Yoga-Bíja, o Yoga-Shástra de Dattátreya, o Sat-Karma-Samgraha e  Shiva-Svarodaya, todos disponíveis em inglês.

• Os escritos vedânticos, como o volumoso Yoga-Vásishtha, que ensina o Jñána-Yoga, e seu tradicional resumo, o Laghu-Yoga-Vásishtha, ambos disponíveis em versões em inglês.

• A literatura do bhakti-márga ou caminho devocional, que assume especial importância entre os Vaishnavas (adoradores de Vishnu) e os Shaivas (adoradores de Shiva). Existe um número considerável de textos bhákticos tanto em sânscrito quanto em tamil, bem como em vários outros vernáculos do subcontinente indiano. O Bhakti-Sûtra de Nárada, o Bhakti-Sútra de Shándilya e o extenso Bhágavata-Purána, que é um relato detalhado (mitológico) do nascimento, vida e morte de Krishna e contém um grande número de histórias de yogins e ascetas, todas maravilhosas e inspiradoras. Essa bela obra contém também o Uddháva-Gitá, a última instrução esotérica de Krishna ao sábio Uddháva. A adoração da Deusa a partir do ponto de vista tântrico é o tema central do Devi-Bhágavata-Purána, que também deve ser estudado. Além disso, os estudiosos sinceros do Yoga devem também ler e ponderar os grandes textos yogues associados às diversas escolas do Budismo e do Jainismo. O encontro com o mundo do Yoga por meio de sua literatura será difícil para o praticante, por diversos motivos: os textos, mesmo traduzidos e anotados, na maioria das vezes são de difícil compreensão e exigem muita concentração e perseverança. Não temos de nos tornar eruditos, mas nosso estudo (svâdhyâya) nos mostrará o que é ser um verdadeiro yogin e quais são os magníficos instrumentos que o Yoga põe à nossa disposição. Aumentará também nosso autoconhecimento e fortalecerá nosso compromisso com a a prática.

2 Comentários

  1. Anuttara disse,

    Olá, namaskár! Você poderia me dizer a fonte de onde tirou este texto de Georg Feuerstein?

    Obrigado.

  2. Dainsu disse,

    Olá, vou ficar te devendo ok? Já tem um tempo que postei mas não consegui encontrar o site de onde tirei… Estou vontando com o blog volte pra ler mais

Afixar um Comentário