Como surgem as instabilidades na mente? – por Daniel Nodari

Outubro 31, 2008 at 1:47 pm (Filosofia do yoga) (, , , , , , , )

Palavras chaves:
Ahámkara (noção do eu, consciência de si, ego)
Buddhi (inteligência superior,  intelecto)
Chitta (aspecto superior mente)
Indriya (os cinco órgãos dos sentidos sensoriais)
Manas (mente, pensamento)
Nirodhah (supressão)
Vritti (instabilidade mental ou profusão de pensamentos)

A meditação deveria vir naturalmente, como resultado da serenidade da mente, como causa da prática do Sama (controle da mente), Dama (controle dos sentidos), Uparati (controle dosobjetos dos sentidos)  e Pratyahara (abstração dos sentido). – Swámi Sivánanda

Falamos tanto em Pátañjali e principalmente no seu mais famoso sútra I:2: Yogash chitta vritti nirodhah, Yoga é a supressão da instabilidade da consciência. Muitas traduções e interpretações sobre este aforismo já foram feitas e a idéia deste texto não é fazer mais uma tradução ou interpretação, o foco principal consiste em analisar um fragmento, o fragmento de como são gerados os vrittis. Mas para que a idéia principal do texto possa ser trabalhada é necessário que se faça pequenos comentários sobre este sútra.

Para deixar a tradução ainda mais completa, tal sútra poderia ser traduzido e interpretado como: o processo de união (yogash) acontece quando toda a instabilidade (vritti) na consciência (chitta) for cessada (nirodhah). Entenda-se a palavra Yoga como “união” ou uma técnica que gera um “processo de união”.

Yoga é uma prática que promove uma tríplice união no ser humano. O primeiro processo de união acontece consigo mesmo, processo de autoconhecimento. O segundo processo de união acontece através da união com os outros seres vivos, só após a compreensão de si mesmo é que se iniciará a compreensão dos outros seres vivos. E o terceiro processo de união acontece quando a consciência do sádhaka (praticante) une-se com a consciência cósmica, com a totalidade, quebrando a dualidade entre púrusha e prakriti, e entre o observador e o objeto observado.

Nirodhah é a supressão dessas instabilidades, veja que optamos por supressão e não por repressão. Repressão é o ato de reprimir ou impor algo e quando algo é imposto ou reprimido, a tendência é que venha a se rebelar. Caso você reprima seus pensamentos, você corre o risco de nunca conseguir cessar a instabilidade da mente, pois a sua mente e os seus pensamentos estarão se rebelando contra você. A supressão é fazer com que se extingam as instabilidades de forma gradual.

Vritti pode ser traduzido das mais diversas formas, mas sempre expressando a mesma idéia: instabilidade, turbulência, modificação, movimento, idéias, vortéx, fenômenos e mudanças que acontecem constantemente em chitta (aspecto superior da mente).

Vrittis são gerados por cincos caminhos, portas de acesso ou vias de conexão com o mundo exterior. Essa via de acesso chama-se indriya, os cinco sentidos sensoriais.

Manas (mente) atuará inicialmente através da presença dos órgãos sensoriais, assim como as outras estruturas cognitivas (buddhi e ahámkara) estão diretamente associadas umas com as outras. Os órgãos sensoriais, portanto, serão o início de toda a atividade mental e esta atividade mental terá como substrato final a produção do vritti. Segundo Pátañjali, “a meditação elimina tais vrittis”, Dhyána heyás tad vrttayah, II-11.

Indriyas se conectam com manas, que se conecta com buddhi, que se conecta com ahámkara, ou seja, chitta e indriya funcionam ativos e constantemente. Lembrando que chitta é o aspecto superior da consciência que engloba manas, buddhi e ahámkara.

Os cinco órgãos dos sentidos, atividades sensoriais ou faculdades sensoriais são: srotra (audição), ghrána (olfato), chakshu (visão), rasana (paladar) e spárshana (tato). Neste conjunto, recebem o nome de Jnánendriya, órgãos dos sentidos que geram o conhecimento (jnána).

Indryia é a conexão do mundo externo com o mundo interno, a relação de objetos com o sujeito. Sendo assim, as instabilidades na consciência nada mais são do que uma projeção do mundo exterior em forma de pensamentos, como se trouxéssemos o mundo para dentro de nossa cabeça, só que na forma de pensamentos. Toda a agitação do mundo, a inquietação das pessoas, vozes de pessoas, barulho do trânsito, luzes e imagens de outdoors, o cheiro da poluição, a visão da miséria e pobreza, fenômenos naturais como ventos, chuvas, terremotos, etc., todas essas turbulências ficam impressas dentro da nossa mente, na mesma freqüência que se encontram no mundo. A percepção de agitação gera agitação na mente, a visão de confusão gera confusão nos pensamentos, e assim por diante…

O mesmo acontece todos os outros órgãos sensoriais. Os sons, por exemplo, além de servirem de identificadores sonoros dos objetos, também alteram diretamente os nossos estados emocionais. Lembranças do passado, sentimentos bons ou ruins vêm à tona através da energia do som. Isso que nem estamos comentando sobre os efeitos dos mantras (kirtans e bhajans) que atuam diretamente no nosso psiquismo e dos bíja mantra que atuam nos chakras localizados no prána máyá kosha (corpo ilusório composto por prána ou corpo sutil).

Chitta é o aspecto superior da mente. Chitta se divide em manas (mente), buddhi (intelecto) e ahámkara (ego, noção da própria existência). O termo chitta, exposto no contexto do Rája Yoga de Pátañjali, corresponde ao Antahkarana no contexto do Vedanta. Antahkarana é o psiquismo, instrumento interior, assim como mente, intelecto, ego e a mente subconsciente. É responsável pelas experiências físicas e psíquicas do ser humano.

Smriti (memória) é um dos aspectos funcionais de chitta. É através da memória e da associação de um pensamento com outros pensamentos que ocorre a instabilidade de pensamentos na consciência. Armazenamos informações tanto de forma consciente como de forma inconsciente, a maioria das impressões marcadas no nosso subconsciente foram armazenadas sem que tomássemos consciência do processo. Ou seja, acumulamos tantas informações advindas dos cincos sentidos sensoriais que nem é possível perceber a velocidade de informações armazenadas na memória.

Manas é quem tem o primeiro contato com as informações recebidas pelo mundo externo. Tudo que é visto, cheirado, escutado, degustado e sentido passa por manas. Manas codifica as informações geradas por indriya transformando-as em namah (nome) e rupa (forma). Após a identificação da informação no plano mental, inicia-se processo de formação dos vrittis.

Dando um exemplo bem prático de como manas percebe as informações: ao ouvir o latido de um cachorro a mente automaticamente reafirma a informação dizendo: “isso é o latido de um cachorro”. Manas analisou de forma superficial a informação percebida.

Buddhi distinguirá as diferentes formas, tamanhos, cores, aromas, sons, paladares, temperatura, dimensões, texturas, etc… Ao se observar um objeto, automaticamente acontece o processo de racionalização do objeto visualizado, mesmo que seja inconsciente, mas isso acontece a toda hora.

É assim que inicia a atividade em buddhi, intelectualizando tais informações percebidas por manas. Usando agora o mesmo exemplo anterior:  após manas ter percebido a informação, tal informação será desmembrada. Já sabemos que o som percebido foi de um latido de cachorro, mas agora buddhi informará (através da atividade mental que acontece com uma velocidade muito rápida) qual o tamanho do cachorro, qual a raça, se o som é grave ou agudo, qual a direção do som percebido, se foi um latido de alegria, dor, fome, de alerta, se o som está próximo ou não, etc. Todo este processo de intelectualização da informação percebida por manas acontece em fração de segundo, a tal ponto que mal percebemos que toda essa atividade mental está acontecendo.

Agora que efetivamente o vritti é produzido e armazenado no plano mental, ahámkara será o aspecto da mente que afirmará se você conhece ou não conhece tal informação recebida através de um dos órgãos dos sentidos.

Quando ahámkara compreende, interpreta e assimila as informações de manas e buddhi o pensamento está gerado, por conseqüência o vritti também.

Ahámkara será quem afirmará se chitta realmente conhece ou não informações de manas e buddhi.

Conhecendo ou não conhecendo, a instabilidade já está instalada na mente. Instalada na forma de um objeto com nome e forma (namah e rupa) ou na forma de dúvida. Exemplificando esta última frase: ao receber uma informação do mundo externo, ahámkara irá dizer “sim, eu conheço” à informação recebida ou “eu não conheço”. Ao vermos um copo de água, manas recebe a informação, buddhi intelectualiza a informação e ahámkara reforçará a informação afirmando “isto eu conheço, isto é um copo de água”. Está gerado o vritti. Lembrando novamente que isso acontece em fração de segundos, tão rápido que nem tomamos conhecimento do processo.

E se ahámkara não conhece a informação recebida por manas e buddhi? Aqui vai um exemplo bem prático: o que é o tempo? Qual a concepção de tempo? O tempo existe? Independente da sua existência, o tempo existe? Questões deste nível ficam sem respostas, pois ahámkara, o princípio egóico, não consegue responder tais questionamentos pelo simples fato de não saber o que é o tempo. Portanto: “eu não sei o que é o tempo”. Não obtendo esta resposta, a dúvida está gerada, e por conseqüência mais um vritti foi gerado.

Aparentemente demos exemplos simples, mas são exatamente com esses exemplos simples que convivemos todos os dias. As informações têm cinco portas de acesso, os cinco sentidos sensoriais, e isso acontece de forma muito rápida, agora tente imaginar quantos pensamentos são gerados a cada minuto, a cada hora e a cada dia. Quantos vrittis foram gerados na sua consciência pelo fato de você estar lendo este texto agora? Vritti são muito mais contagiosos do que vírus e bactérias, ao assistir um filme você esta recebendo milhares de vrittis, ao ler um e-mail você está recebendo milhares de vrittis e mesmo ao atender um simples telefonema você estará recebendo milhares de vrittis! Realmente isso é muito contagioso!

Por isso que Pátañjali afirma que “yoga é a supressão da instabilidade na consciência”. E a cessação dos vrittis acontece pela via da meditação. Vrittis geram impressões marcantes em todos os nossos níveis de consciência, planos subconsciente e inconsciente, influindo diretamente em todos os nossos estados emocional e racionais.

Vrittis não são bons nem maus, são turbilhões de pensamentos que ficam rodeando a nossa mente e que vêm nos atrapalhar principalmente nas técnicas que exijam muita concentração. É exatamente quando tentamos diminuir por completo os pensamentos para atingir dhyána e samádhi (meditação e hiperconsciência) que as impressões deixadas pelos vrittis na nossa mente se tornam mais fortes. Só assim é que conseguimos vivenciar a dificuldade e complexidade que estão inseridas no sútra I:2 de Pátañjali. Primeiramente é importante conhecer os vrittis, saber como eles surgem e funcionam, para só assim conseguir suprimi-los por completo. Não tente brigar com os turbilhões de pensamentos, vá domando-os lentamente, que de forma bem natural eles irão cessar e você atingirá dhyána e sámadhi.

Para que o processo “cessação das ondas mentais” aconteça, o sádhaka já deve ter um bom tempo de prática e ter conseguido vivenciar (ou estar vivenciando), com êxito, as várias outras técnicas do yoga. Técnicas que no conjunto compõe o universo do yoga: mudrás (linguagem ou gestos manuais, mas nos shástras [escrituras] de hatha yoga, podem ser denominações de ásanas e bandhas), mantras (vocalização de kirtan, japa e bíja mantra), pránáyáma (técnicas respiratórias de captação de prána – bio-energia), kriyás (técnicas de purificação do corpo), bandhas (contração de glândulas, plexos e órgãos), ásanas (técnicas corporias), yoganidrá (técnica de descontração), pratyáhára (abstração dos sentidos sensoriais [indriya]), dháraná (concentração), dhyána (meditação), samádhi (hiperconsciência).

Reflita sobre os seus pensamentos e emoções, sobre os cinco sentidos e como eles  conectam você com o mundo. Observe como cada sentido produz estados emocionais e novos pensamentos. Conheça a raiz de seus pensamentos e emoções e obtenha sucesso nos seus sádhanas.

Indriya é o fator de conexão com o mundo externo e é através desta conexão que chitta (aspecto superior da mente) produz os vrittis. Esse é um dos árduos trabalhos do sádhaka, cessar todas essas instabilidades, pensamentos, emoções, para obter  sucesso como yogin, o samádhi.  Sinceramente, espero que estes meus vrittis tenham contribuído no seu processo evolutivo e na  busca do seu autoconhecimento.

(Texto autorizado e cedido por Daniel Nodari – professor de Yoga e músico – Ministra aulas na Casa do Yogin, Av Marilando 274, Bairro Higienópolis – Porto Alegre (51)30193688 – casadoyogin@terra.com.br e no Yoga Ganesha Studio – Rua Lima e Silva 740, 2 andar, Cidade Baixa, Porto Alegre, RS. (51) 3286.3068 – yogaganesha@yogaganesha.com. Contato: nodariwrum@gmail.com, danielyoga@gmail.com)

Afixar um Comentário