Como surgem as instabilidades na mente? – por Daniel Nodari
Palavras chaves:
Ahámkara (noção do eu, consciência de si, ego)
Buddhi (inteligência superior, intelecto)
Chitta (aspecto superior mente)
Indriya (os cinco órgãos dos sentidos sensoriais)
Manas (mente, pensamento)
Nirodhah (supressão)
Vritti (instabilidade mental ou profusão de pensamentos)
A meditação deveria vir naturalmente, como resultado da serenidade da mente, como causa da prática do Sama (controle da mente), Dama (controle dos sentidos), Uparati (controle dosobjetos dos sentidos) e Pratyahara (abstração dos sentido). – Swámi Sivánanda
Falamos tanto em Pátañjali e principalmente no seu mais famoso sútra I:2: Yogash chitta vritti nirodhah, Yoga é a supressão da instabilidade da consciência. Muitas traduções e interpretações sobre este aforismo já foram feitas e a idéia deste texto não é fazer mais uma tradução ou interpretação, o foco principal consiste em analisar um fragmento, o fragmento de como são gerados os vrittis. Mas para que a idéia principal do texto possa ser trabalhada é necessário que se faça pequenos comentários sobre este sútra.
Para deixar a tradução ainda mais completa, tal sútra poderia ser traduzido e interpretado como: o processo de união (yogash) acontece quando toda a instabilidade (vritti) na consciência (chitta) for cessada (nirodhah). Entenda-se a palavra Yoga como “união” ou uma técnica que gera um “processo de união”.
Yoga é uma prática que promove uma tríplice união no ser humano. O primeiro processo de união acontece consigo mesmo, processo de autoconhecimento. O segundo processo de união acontece através da união com os outros seres vivos, só após a compreensão de si mesmo é que se iniciará a compreensão dos outros seres vivos. E o terceiro processo de união acontece quando a consciência do sádhaka (praticante) une-se com a consciência cósmica, com a totalidade, quebrando a dualidade entre púrusha e prakriti, e entre o observador e o objeto observado.
Nirodhah é a supressão dessas instabilidades, veja que optamos por supressão e não por repressão. Repressão é o ato de reprimir ou impor algo e quando algo é imposto ou reprimido, a tendência é que venha a se rebelar. Caso você reprima seus pensamentos, você corre o risco de nunca conseguir cessar a instabilidade da mente, pois a sua mente e os seus pensamentos estarão se rebelando contra você. A supressão é fazer com que se extingam as instabilidades de forma gradual.
Vritti pode ser traduzido das mais diversas formas, mas sempre expressando a mesma idéia: instabilidade, turbulência, modificação, movimento, idéias, vortéx, fenômenos e mudanças que acontecem constantemente em chitta (aspecto superior da mente).
Vrittis são gerados por cincos caminhos, portas de acesso ou vias de conexão com o mundo exterior. Essa via de acesso chama-se indriya, os cinco sentidos sensoriais.
Manas (mente) atuará inicialmente através da presença dos órgãos sensoriais, assim como as outras estruturas cognitivas (buddhi e ahámkara) estão diretamente associadas umas com as outras. Os órgãos sensoriais, portanto, serão o início de toda a atividade mental e esta atividade mental terá como substrato final a produção do vritti. Segundo Pátañjali, “a meditação elimina tais vrittis”, Dhyána heyás tad vrttayah, II-11.
Indriyas se conectam com manas, que se conecta com buddhi, que se conecta com ahámkara, ou seja, chitta e indriya funcionam ativos e constantemente. Lembrando que chitta é o aspecto superior da consciência que engloba manas, buddhi e ahámkara.
Os cinco órgãos dos sentidos, atividades sensoriais ou faculdades sensoriais são: srotra (audição), ghrána (olfato), chakshu (visão), rasana (paladar) e spárshana (tato). Neste conjunto, recebem o nome de Jnánendriya, órgãos dos sentidos que geram o conhecimento (jnána).
Indryia é a conexão do mundo externo com o mundo interno, a relação de objetos com o sujeito. Sendo assim, as instabilidades na consciência nada mais são do que uma projeção do mundo exterior em forma de pensamentos, como se trouxéssemos o mundo para dentro de nossa cabeça, só que na forma de pensamentos. Toda a agitação do mundo, a inquietação das pessoas, vozes de pessoas, barulho do trânsito, luzes e imagens de outdoors, o cheiro da poluição, a visão da miséria e pobreza, fenômenos naturais como ventos, chuvas, terremotos, etc., todas essas turbulências ficam impressas dentro da nossa mente, na mesma freqüência que se encontram no mundo. A percepção de agitação gera agitação na mente, a visão de confusão gera confusão nos pensamentos, e assim por diante…
O mesmo acontece todos os outros órgãos sensoriais. Os sons, por exemplo, além de servirem de identificadores sonoros dos objetos, também alteram diretamente os nossos estados emocionais. Lembranças do passado, sentimentos bons ou ruins vêm à tona através da energia do som. Isso que nem estamos comentando sobre os efeitos dos mantras (kirtans e bhajans) que atuam diretamente no nosso psiquismo e dos bíja mantra que atuam nos chakras localizados no prána máyá kosha (corpo ilusório composto por prána ou corpo sutil).
Chitta é o aspecto superior da mente. Chitta se divide em manas (mente), buddhi (intelecto) e ahámkara (ego, noção da própria existência). O termo chitta, exposto no contexto do Rája Yoga de Pátañjali, corresponde ao Antahkarana no contexto do Vedanta. Antahkarana é o psiquismo, instrumento interior, assim como mente, intelecto, ego e a mente subconsciente. É responsável pelas experiências físicas e psíquicas do ser humano.
Smriti (memória) é um dos aspectos funcionais de chitta. É através da memória e da associação de um pensamento com outros pensamentos que ocorre a instabilidade de pensamentos na consciência. Armazenamos informações tanto de forma consciente como de forma inconsciente, a maioria das impressões marcadas no nosso subconsciente foram armazenadas sem que tomássemos consciência do processo. Ou seja, acumulamos tantas informações advindas dos cincos sentidos sensoriais que nem é possível perceber a velocidade de informações armazenadas na memória.
Manas é quem tem o primeiro contato com as informações recebidas pelo mundo externo. Tudo que é visto, cheirado, escutado, degustado e sentido passa por manas. Manas codifica as informações geradas por indriya transformando-as em namah (nome) e rupa (forma). Após a identificação da informação no plano mental, inicia-se processo de formação dos vrittis.
Dando um exemplo bem prático de como manas percebe as informações: ao ouvir o latido de um cachorro a mente automaticamente reafirma a informação dizendo: “isso é o latido de um cachorro”. Manas analisou de forma superficial a informação percebida.
Buddhi distinguirá as diferentes formas, tamanhos, cores, aromas, sons, paladares, temperatura, dimensões, texturas, etc… Ao se observar um objeto, automaticamente acontece o processo de racionalização do objeto visualizado, mesmo que seja inconsciente, mas isso acontece a toda hora.
É assim que inicia a atividade em buddhi, intelectualizando tais informações percebidas por manas. Usando agora o mesmo exemplo anterior: após manas ter percebido a informação, tal informação será desmembrada. Já sabemos que o som percebido foi de um latido de cachorro, mas agora buddhi informará (através da atividade mental que acontece com uma velocidade muito rápida) qual o tamanho do cachorro, qual a raça, se o som é grave ou agudo, qual a direção do som percebido, se foi um latido de alegria, dor, fome, de alerta, se o som está próximo ou não, etc. Todo este processo de intelectualização da informação percebida por manas acontece em fração de segundo, a tal ponto que mal percebemos que toda essa atividade mental está acontecendo.
Agora que efetivamente o vritti é produzido e armazenado no plano mental, ahámkara será o aspecto da mente que afirmará se você conhece ou não conhece tal informação recebida através de um dos órgãos dos sentidos.
Quando ahámkara compreende, interpreta e assimila as informações de manas e buddhi o pensamento está gerado, por conseqüência o vritti também.
Ahámkara será quem afirmará se chitta realmente conhece ou não informações de manas e buddhi.
Conhecendo ou não conhecendo, a instabilidade já está instalada na mente. Instalada na forma de um objeto com nome e forma (namah e rupa) ou na forma de dúvida. Exemplificando esta última frase: ao receber uma informação do mundo externo, ahámkara irá dizer “sim, eu conheço” à informação recebida ou “eu não conheço”. Ao vermos um copo de água, manas recebe a informação, buddhi intelectualiza a informação e ahámkara reforçará a informação afirmando “isto eu conheço, isto é um copo de água”. Está gerado o vritti. Lembrando novamente que isso acontece em fração de segundos, tão rápido que nem tomamos conhecimento do processo.
E se ahámkara não conhece a informação recebida por manas e buddhi? Aqui vai um exemplo bem prático: o que é o tempo? Qual a concepção de tempo? O tempo existe? Independente da sua existência, o tempo existe? Questões deste nível ficam sem respostas, pois ahámkara, o princípio egóico, não consegue responder tais questionamentos pelo simples fato de não saber o que é o tempo. Portanto: “eu não sei o que é o tempo”. Não obtendo esta resposta, a dúvida está gerada, e por conseqüência mais um vritti foi gerado.
Aparentemente demos exemplos simples, mas são exatamente com esses exemplos simples que convivemos todos os dias. As informações têm cinco portas de acesso, os cinco sentidos sensoriais, e isso acontece de forma muito rápida, agora tente imaginar quantos pensamentos são gerados a cada minuto, a cada hora e a cada dia. Quantos vrittis foram gerados na sua consciência pelo fato de você estar lendo este texto agora? Vritti são muito mais contagiosos do que vírus e bactérias, ao assistir um filme você esta recebendo milhares de vrittis, ao ler um e-mail você está recebendo milhares de vrittis e mesmo ao atender um simples telefonema você estará recebendo milhares de vrittis! Realmente isso é muito contagioso!
Por isso que Pátañjali afirma que “yoga é a supressão da instabilidade na consciência”. E a cessação dos vrittis acontece pela via da meditação. Vrittis geram impressões marcantes em todos os nossos níveis de consciência, planos subconsciente e inconsciente, influindo diretamente em todos os nossos estados emocional e racionais.
Vrittis não são bons nem maus, são turbilhões de pensamentos que ficam rodeando a nossa mente e que vêm nos atrapalhar principalmente nas técnicas que exijam muita concentração. É exatamente quando tentamos diminuir por completo os pensamentos para atingir dhyána e samádhi (meditação e hiperconsciência) que as impressões deixadas pelos vrittis na nossa mente se tornam mais fortes. Só assim é que conseguimos vivenciar a dificuldade e complexidade que estão inseridas no sútra I:2 de Pátañjali. Primeiramente é importante conhecer os vrittis, saber como eles surgem e funcionam, para só assim conseguir suprimi-los por completo. Não tente brigar com os turbilhões de pensamentos, vá domando-os lentamente, que de forma bem natural eles irão cessar e você atingirá dhyána e sámadhi.
Para que o processo “cessação das ondas mentais” aconteça, o sádhaka já deve ter um bom tempo de prática e ter conseguido vivenciar (ou estar vivenciando), com êxito, as várias outras técnicas do yoga. Técnicas que no conjunto compõe o universo do yoga: mudrás (linguagem ou gestos manuais, mas nos shástras [escrituras] de hatha yoga, podem ser denominações de ásanas e bandhas), mantras (vocalização de kirtan, japa e bíja mantra), pránáyáma (técnicas respiratórias de captação de prána – bio-energia), kriyás (técnicas de purificação do corpo), bandhas (contração de glândulas, plexos e órgãos), ásanas (técnicas corporias), yoganidrá (técnica de descontração), pratyáhára (abstração dos sentidos sensoriais [indriya]), dháraná (concentração), dhyána (meditação), samádhi (hiperconsciência).
Reflita sobre os seus pensamentos e emoções, sobre os cinco sentidos e como eles conectam você com o mundo. Observe como cada sentido produz estados emocionais e novos pensamentos. Conheça a raiz de seus pensamentos e emoções e obtenha sucesso nos seus sádhanas.
Indriya é o fator de conexão com o mundo externo e é através desta conexão que chitta (aspecto superior da mente) produz os vrittis. Esse é um dos árduos trabalhos do sádhaka, cessar todas essas instabilidades, pensamentos, emoções, para obter sucesso como yogin, o samádhi. Sinceramente, espero que estes meus vrittis tenham contribuído no seu processo evolutivo e na busca do seu autoconhecimento.
(Texto autorizado e cedido por Daniel Nodari – professor de Yoga e músico – Ministra aulas na Casa do Yogin, Av Marilando 274, Bairro Higienópolis – Porto Alegre (51)30193688 – casadoyogin@terra.com.br e no Yoga Ganesha Studio – Rua Lima e Silva 740, 2 andar, Cidade Baixa, Porto Alegre, RS. (51) 3286.3068 – yogaganesha@yogaganesha.com. Contato: nodariwrum@gmail.com, danielyoga@gmail.com)
DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL
Por Frei Betto
Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos,recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.
Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados,ansiosos,geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado caféda manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?’
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foià aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom,então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’,retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã…’. ‘Que tanta coisa?’,perguntei. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada.
Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’
Estamos construindo super-homens e supermulheres totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um super executivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluíremaulas de meditação!
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias deginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto?’. ‘Olha,uma maravilha, não tinha uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Antes, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto,em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi nho de prédio ou de quadra! Tudo évirtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais.
A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil – com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos.
A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá ese apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de quefelicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar esterefrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!’ O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose. Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista.
Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber ahistória daquela cidade – a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral;hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinhade esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s.
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático.’Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego,também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial deAtenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser FELIZ’
Elementos de Tantra
J. R. Araújo
A literatura Tantra refere-se especificamente ao aspecto feminino da Pessoa Suprema. Neste sistema, a realização da energia de prazer (shakti) da Deidade adorável é o objetivo último do praticante. Nos Tantras Vaishnavas, essa Energia Suprema é hladini shakti, personificada por Srimati Radharani. Para o praticante Shaiva (seguidor de Shiva) essa energia é personificada por Parvati. Qualquer que seja a deidade, Vishnu ou Shiva, de adoração do praticante, ele procura ocupar-se na contemplação e serviço da energia interna de sua deidade. Entrar em yoga sublime com a energia shakti de sua devoção é o objetivo supremo e desejável. Assim como o Senhor Supremo permanece junto de toda alma corporificada como Paramatma, sua energia interna, shaktidevi, também está presente como Kundalini devi.
Tantra Yoga procura a realização direta da Maha Shakti, a Divina Energia Interna da deidade de adoração do praticante (sakta) e envolve o aspecto mais geral onde diversas técnicas (asanas, mantras, puja, yantras, pranayana, dhyana, mudras, etc.) são utilizadas, promovendo a dinâmica de energias sutis para a obtenção de poderes especiais (siddhis) ou a realização de Maha Shakti. Kundalini Yoga, também conhecida como Bhuta-suddhi, é uma forma particular de Tantra Yoga. Estes termos referem-se a Kundalini Shakti ou a Suprema Energia no corpo humano, pela ascensão da qual, yoga ou samadhi é alcançado. Durante esta ascensão, os elementos do corpo e a mente são purificados (bhuta-suddhi). Kundalini Yoga procura a realização do aspecto localizado dessa energia interna, kundalinidevi, situada no Muladhara Chakra, em estado adormecido. Utiliza-se da movimentação das energias nos dois nadis, ida e pingala e suas convoluções em torno do sushumna ou canal central, em seu movimento ascendente. Existem seis chakras ou centros de energia alinhados e situados verticalmente, próximos à coluna vertebral. Na base da coluna vertebral, há o Muladhara chakra, onde repousa disposta em espiral a energia kundalini que é uma manifestação de Maha Shakti ou a Divina Deusa, como expansão da energia de prazer emanada do Senhor Supremo. O Senhor Supremo permanece junto de toda alma corporificada como Paramatma, sua energia sakti também está presente como Kundalini devi. A perfeição, neste sistema de yoga, consiste em direcionar esta energia, para o alto, fazendo-a circular por todos os seis chakras, por meio de uma série de exercícios respiratórios apropriados, meditação no bija-mantram característico de cada chakra, que é o mantra raiz ou a vibração sonora original conexa com cada um destes centros de energia e assim fazer esta energia despertar e ascender em direção ao alto da cabeça, onde está o Sahasrara Padma que não é considerado um chakra, mas uma abertura no alto da cabeça. Uma das técnicas de respiração do Kundalini Pranayana utilizada é a Bhairavi Kriya, considerada muito poderosa para a obtenção de poderes místicos (siddhis) e elevação da consciência.
A idéia de “Tantra Yoga” como uma prática sexual é uma completa distorção e mal representação do caminho espiritual genuíno e tradicional delineado nos Tantras. Os Tantras compreendem uma vasta coleção de textos védicos escritos em Sânscrito, abrangendo uma variada gama de assuntos, mas tendo como objetivo central o reviver de nossa relação espiritual com Deus. De acordo com o Nirukti, o dicionário padrão em Sânscrito, tantra significa “instrução”. Instrução em diversos campos do conhecimento tais como, meditação, construção de templos, agricultura, culinária, tecelagem, música, geometria e matemática, decoração, adoração e cerimônias no templo, organização de festivais religiosos, administração de comunidades, artes militares, comércio e finanças, vida familiar, conhecimento de ervas medicinais, e muitos outros assuntos.
Na tradição filosófico-espiritual chamada Sanatana-dharma, existem três sistemas principais que originalmente contêm ensinamentos sobre Sakti Devi e Kundalini. Estes sistemas compreendem os Vedas e Upanishads, que formam o sistema mais antigo, os Puranas e os Tantras. Nos Vedas encontramos informações especialmente no Atharva Veda. Nos Upanishads temos o Yogopanishad e o Kundalini Yoga Upanishad. Entre os Puranas temos o Shiva Purana, o Lingam Purana. No Markandeya Purana há uma parte designada como devimahatmya onde a devoção a Sakti devi é enfatizada, bem como no Upa-Purana Devi-Bhagavata. Existem dezoito Puranas principais e dezoito secundários ou Upa-Puranas. Dentre os textos tântricos tradicionais sobre o assunto, destacam-se os Sat Chakra Nirupana, Paduka Panchaka, Kularnava Tantra, Yoga Taravali (que descreve as técnicas de Kundalini-yoga), Sarada Tilak Tantram, Saundaryalahari que é um comentário de Sripad Shankaryacharya sobre as glórias de Kundalini ou a Divina Shakti.
A literatura tântrica segue duas vertentes, a dakshinachara (mão direita) e a vamchara (mão esquerda). Esta designação parece seguir o costume védico de que a mão direita é utilizada para atividades auspiciosas, puja (rituais de adoração), manuseio de artigos nas cerimônias prescritas nos Vedas ou mesmo higiene dos membros superiores do corpo, enquanto a mão esquerda é utilizada para atividades inferiores, como a higiene de determinadas partes do corpo, por exemplo. Assim, existem literaturas e práticas onde a abordagem seja dakshinachara ou vamchara. O Tantra da mão direita, diz respeito aos rituais de purificação e às atividades onde uma disciplina espiritual rígida procura a realização da energia original (Maha Shakti) emanada do Senhor Supremo. Todos esses textos mencionados no parágrafo anterior dizem respeito à dakshinachara.
Os Gaudiyas Vaishnavas utilizam-se de textos tântricos dakshinacharas, tais como Narada Pañcaratra, Brihad-gautamiya Tantra, Gautamiya Tantra, Svatvata Tantra, Brihad-vaishnava Tantra, Vishnu-yamala Tantra, Svayambhuva Tantra, Vaishnava Tantra, Tantra-nirnaya e outros. Em muitos volumes do Srimad-Bhagavatam e Caitanya Caritamrta, Srila Prabhupada (Mestre Espiritual na tradição gaudiya-vashnava) faz referências freqüentes a estes textos.
No Brihad Gautamiya Tantra é dito sobre Srimati Radharani :
devi krsna-mayi prokta
radhika para-devata
sarva-laksmi-mayi sarva-
kantih sammohini para
“A deusa transcendental Srimati Radharani é a consorte direta do Senhor Krishna. Ela é a figura central dentre todas as deusas da fortuna. Ela é a potência interna principal do Senhor e possui toda a atratividade para atrair a Toda-atrativa Personalidade de Deus“. No Caitanya-caritamrta, todo o capítulo 4 do Adi-lila, promove a explicação de .Srimati Radharani como a energia interna de Sri Krishna, com base no verso acima mencionado do Brihad Gautamiya Tantra.
Apesar de Tantra ser uma disciplina séria, existe uma prática que corresponde a uma escola trântrica de menor importância na Índia, mas que ganhou bastante difusão no Ocidente. É a escola Kaula Marga, onde a energia sexual é diretamente utilizada como uma mola propulsora de Kundalini Shakti. É uma prática muito rígida, onde exige uma disciplina rigorosa, mas que no decorrer dos anos tornou-se muito distorcida e que neste aspecto, degenerado, ganhou notoriedade no Ocidente. Em seu aspecto genuíno e tradicional o praticante (kaula) inicia seus estudos aos cinco anos de idade, quando é levado a um mosteiro ou ashram, numa floresta densa e inacessível lá permanecendo até a idade de cerca de vinte anos. Durante todo esse período observa celibato absoluto, imerso numa atmosfera propícia ao desenvolvimento pessoal, sem qualquer contato, até mesmo visual, com pessoas de mentalidade mundana ou mesmo do sexo oposto. O Praticante recebe instrução teórica e prática em diversas atividades mencionadas nos sastras, tais como yoga, meditação, medicina, artes e ciências védicas. Segue uma disciplina rigorosa de purificação e conhecimento dos textos tântricos. Aprende a movimentar a energia sutil através do shushumna, passando-a pelos chakras e quando está quase pronto para o ritual final, encontra-se com sua shakti. È central, nessa tradição a figura da sakti. Esta é uma moça, educada igualmente de acordo com essa tradição, oferecida como esposa a esse rapaz desde quando este tinha a idade de cinco anos, quando foi levado ao ashram. Esta jovem também recebeu instruções, mas permaneceu durante todo esse tempo na casa de seus pais. São jovens provenientes de famílias shaktas devotadas e o sucesso nesta disciplina é o objetivo de suas vidas. É importante salientar que, em qualquer fase deste processo, havendo a falha de qualquer um deles, a procura do objetivo é imediatamente abandonada e eles voltam para suas famílias, onde a cerimônia de casamento é oficializada e, juntos, constituirão família. Antes, porém, tentarão com muito esforço e força de vontade a busca da emancipação em yoga. Neste momento, devidamente preparados, eles encontram-se na floresta, fora dos limites do ashram, e após uma breve cerimônia vão juntos, sem qualquer contato físico, cruzando a floresta, alimentando-se apenas daquilo que possam coletar, como frutos silvestres, folhas e raízes. Praticam austeridades (tapas), meditação (dhyana), observam celibato e executam muitos exercícios respiratórios sempre acompanhados de mantras em glorificação a Shakti devi cultivando sempre o desapego aos prazeres do corpo. Quando completam o ciclo de viverem na floresta, começam o ciclo urbano quando visitam lugares de peregrinação. Neste ciclo, não coletam alimentos, mas esmolam o que comer, trocam suas roupas com as roupas dos pedintes e dormem ao relento. Este é o período de maior austeridades, onde as práticas de meditação são incrementadas. Ao final deste ciclo, nem mesmo esmolam o que comer e, sem pedir, comem apenas o que recebem em caridade. Aí chegou o momento do teste final de seus desapegos ao corpo. Aproximam-se de um lugar onde cadáveres são cremados, e após vários dias em meditação e orações a Shakti devi, procuram uma parte qualquer de algum cadáver que tenha permanecida sem cremar totalmente e como teste final de seus desapegos, comem um pouco destes restos. Neste teste não deve haver repulsa ou medo, pois eles devem observar se têm apegos ou aversões provenientes de qualquer atividade corpórea.
No caso de superarem esta fase, agora estão aptos para a fase seguinte, Urdhvana Kriya. A verificação de ausência de apegos ou aversões nas atividades corpóreas, trará certeza aos praticantes de que ao adentrarem nesta fase, o farão sem qualquer mácula de gozo dos sentidos, e assim, terão o necessário controle para alcançarem o objetivo desta fase, após anos e anos de meticulosa preparação. A tradição “urdhvum” refere-se à prática de se transmutar a energia sexual, direcionando-a para cima, através dos nadis tântricos, até o alto da cabeça. Esta prática, denominada Urdhvamnaya Kriya, é reconhecida como uma técnica eficaz e usada em conjunto com o mantra sri-prasada-para . No Kulanarva Tantra, o Senhor Shiva afirma: “Ó Deveshi ! Saiba que este Urdhvamnaya é o meio mais simples e direto para a emancipação espiritual, o qual oferece mais e melhores frutos que qualquer outro método. Nem os Vedas, Ágamas, Sastras, Puranas, austeridades, peregrinações, mantras e nem mesmo as ervas medicinais, nada pode superar este Urdhvamnaya, aprendido apenas através do guru”. Nesta prática, os kaulas devidamente habilitados, por meses e meses de exercícios e testes, como os descritos acima, podem executar o ritual final, em um contato sexual, onde, na ausência de orgasmo ou ejaculação, toda a energia sexual não é desperdiçada, mas utilizada como uma mola propulsora da energia sakti, que será por fim impulsionada para o sahasrama padma, fazendo com que os praticantes alcancem o estágio último de realização da energia infinita de Shakti devi, usufruindo assim de um mergulho neste aspecto diversificado (feminino) do brahman, quando todos os siddhis e consciência superior se manifestam. È um caminho árduo, sério e por demais difícil, que nada tem a ver com a licenciosidade e orgia que faz parte dos exercícios de grupos e gurus indulgentes que nada entendem de Tantra e de seu real objetivo. Assim, depois de provarem a si mesmos estarem distantes da propensão ao gozo dos sentidos, livres do apego ou aversão corpóreos, totalmente situados em meditação na forma Shakti devi como suas Ishta-devata, deidade adorável, os kaulas submetem-se ao ritual urdhvana kriya, livres da propensão materialista de prazer, e assim bem sucedidos, entram em samadhi conseqüente do despertar de kundalini shakti. Esta forma ritual disciplinada, austera e bastante rígida é bem diferente da licenciosidade praticada nas assim chamadas academias de yoga tantra.
Os Kumaras alcançaram o estado de pureza, potência espiritual plena e desapego genuíno (niskriyan ), após executarem urdhva-retasa ou transmutarem a propensão sexual materialista (por meio da meditação) em energia espiritual pura. (Srimad. Bhagavatam, canto 3, cap.12, verso 4).
Portanto podemos entender que Tantra Yoga é uma disciplina que favorece ao avanço espiritual, possibilitando ao praticante a realização plena em yoga com as energias internas de prazer do Senhor Supremo. No Caitanya Caritamrta, Adi-lila, capítulo 4, Krishnadasa Kaviraja Goswami explica que Srimati Radharani é a origem de todas as Energias Lakshmis, ou deusas da fortuna, e, como o Senhor Vishnu é a origem do Senhor Shiva, a energia de prazer deste, também é uma expansão de Vishnu. O Senhor Krishna, é em última análise a fonte de todas as energias e a realização plena ou parcial destas energias é sempre um passo importante no caminho da auto-realização.
Parte interessante do Kularnava Tantra
“Neste mundo estão incontáveis massas de seres sofrendo toda forma de dor. A velhice espreita como uma tigresa. A vida se esvazia como se fosse a água de um pote quebrado. A doença mata como os inimigos. A prosperidade é apenas um sonho; a juventude é como uma flor. A vida é vista e se vai como o relâmpago. O corpo nada mais é que uma bolha d’água. Como então alguém pode saber disso e mesmo assim permanecer satisfeito? O Jivatma (corpo psíquico pessoal) passa pelos lakhs de experiência, entretanto somente como ser humano ele pode obter a verdade. É com grande dificuldade que se nasce ser humano. Portanto, é um suicida aquele que, tendo obtido um excelente nascimento, não sabe o que é para seu bem. Há alguns que tendo bebido o vinho da ilusão estão perdidos em buscas terrenas, não percebem o vôo do tempo e não são comovidos pela visão do sofrimento.
Há outros que caíram no poço profundo das Seis Filosofias – adversários fúteis lançados ao deslumbrante oceano dos Vedas e Shastras (escrituras). Eles estudam dia e noite e aprendem palavras. Alguns ainda, fascinados pelo conceito, falam do pensamento Umani de forma nenhuma percebendo-o. Meras palavras e conversa não podem dispersar a ilusão do errante. A escuridão não é dispersada pela menção da palavra ‘candeeiro’ . O que há então há fazer? Os Shastras (escrituras) são muitos, a vida é curta e há milhões de obstáculos. Portanto, que a essência deles seja compreendida, assim como o Hamsa (o cisne divino) separa o leite da água com a qual estava misturado.” (Kularnava Tantra)
O Tantrismo Shakta
“De todos os cultos tântricos, a tradição dos Shâkta é a que mais tem sofrido críticas, em razão de um entendimento e práticas errôneos. Muitos vêem neles somente ‘lascívia, mistério e magia negra, superstições tolas e vulgares’. Mas estudando-se mais profundamente os Shâkta Tantras com o propósito de entendê-los, encontra-se muito sentido nos princípios neles ensinados.
Filosoficamente, o Shâkta-darshana (filosofia, ponto de vista) é um tipo de não-dualismo. A realidade, de acordo com ele, é não-dual (advaita); é da natureza da Existência-Consciência-Beatitude (saccidânanda). É nirguna, isto é sem atributos, no sentido que não há distinções nela. Nada é real além dela. Todas as coisas são idênticas a ela. A realidade não-dual manifesta-se como o mundo de pluralidade através do poder de mâyâ. Até este ponto, o Advaita do Shaktismo está em acordo com o de Shankara (Vedanta clássico). Mas, enquanto para Shankara mâyâ é o princípio de ilusão que vela o verdadeiro Brahman (Ser Universal) e projeta-se no mundo irreal, para o Shaktismo, mâyâ é um poder real, manifestando-se na forma do universo diversificado.
A esse respeito,o ensinamento dos Shâkta é idêntico ao do Shivaísmo de Kâshmira. Ambos consideram a realidade última como sendo Shiva-Shakti, Consciência-Poder. Shiva é o princípio estático da consciência enquanto Shakti é o princípio cinético. Os Shâkta Tantras representam esta verdade pelo célebre provérbio, ‘Shiva sem Shakti é shava (cadáver)’ e pela figura de cinco cadáveres de Shiva sustentando o trono da Mãe do Mundo, nas deslumbrantes florestas da Ilha das Pedras Preciosas (Manidvîpa), cujas areias douradas são banhadas pelo Oceano da Imortalidade (amrta).
Enquanto Shiva é a fundação básica da criação, Shakti é seu princípio dinâmico, móvel. Há dois aspectos de Shakti, vidyâ ou chit-shakti e avidyâ ou mâyâ-shakti. Chit-shakti é da natureza da Iluminação e Consciência (prakâsha). Mâyâ-shakti é a mesma consciência que oculta a si mesma e projeta-se no mundo. É a potência do vir-a-ser, a semente da evolução (vimarsha). Através de mâyâ, o Um torna-se Muitos, o Infinito torna-se finito, o Supremo Espírito torna-se o mundo de Mente, Vida e Matéria. A evolução não afeta, realmente, a natureza de Shiva, que não é somente da forma do universo (vishvamaya) mas está além dele (vishvottîrna).
Em um mundo dominado por conceitos masculinos e com tendências profanas, a ênfase da filosofia Shâkta na maternidade de Deus é fascinante. É necessário ressaltar, no entanto, que Shakti é mulher somente figurativamente e simbólicamente. Shakti é Deus como o princípio de produtividade; e o Shâkta dá a Ele a forma feminina para propósitos de culto. Na verdade, segundo sua filosofia, a realidade última nem é masculina nem feminina. Um hino dedicado a Shakti o Mahâkâla-samhitâ diz:
T.M.P. Mahadevan, Outlines of Hinduism, p.203 – 206.
Zeitgeist Addendum
Como entender como funciona a economia moderna.
Como entender como a criação de dinheiro funciona.
Como entender como entender o como sutil como somos escravizados hoje.
Como entender o império americano e seu ditadura baseada no domínio das grandes corporações.
São doze partes, clique duas vezes acima para entrar no youtube, as outras partes estão do lado direito.
Canção de Atma
ÄTMAÑAÖAK OU nirvana satkam
por Shankaracharya
Eu não sou a mente, nem o intelecto, não sou o ego nem a consciência;
Não sou a audição, nem o paladar, o olfato ou a visão;
E nem o espaço ou a terra, não sou a luz ou o ar.
Minha natureza é a benção da pura consciência. Eu sou Shiva, eu sou Shiva.
Não sou o que se chama de Prana (energia) nem os cinco alentos vitais;
Nem os sete elementos, nem os cinco corpos.
Não sou a fala, as mãos ou os pés, nem o sexo ou a excreção.
Minha natureza é a benção da pura consciência. Eu sou Shiva, eu sou Shiva.
Não tenho apegos nem sinto aversão a nada. Nem ganância, nem confusão.
Nem o orgulho nem a inveja são meus.
Não tenho deveres (dharma), nem objetivos, nem desejo, nem aspiro à libertação (moksha).
Minha natureza é a benção da pura consciência. Eu sou Shiva, eu sou Shiva.
Nem a virtude, nem o pecado, nem a alegria ou o sofrimento;
Nem o mantra, nem os lugares sagrados, nem as escrituras ou o ritual.
Não sou o prazer, nem o que é prazeiroso, nem aquele que desfruta do prazer.
Minha natureza é a benção da pura consciência. Eu sou Shiva, eu sou Shiva.
Não sou a morte nem o medo, não tenho classe social ou casta;
Nem pai, nem mãe, nem o nascimento são meus.
Não tenho parentes ou amigos, nem guru ou discípulos.
Minha natureza é a benção da pura consciência. Eu sou Shiva, eu sou Shiva.
Sou imutável, sem forma,
Não estou subjulgado pelos sentido e permeio tudo o que existe.
Sou incomensurável. Estou além da servidão e da própria libertação.
Minha natureza é a benção da pura consciência. Eu sou Shiva, eu sou Shiva.
Guru
“Guru Brahma Guru Vishnu Guru Devo Maheshwara
Guru Sakshath Parambrahma Tasmai Shri Gurave Namaha
Significa: Guru é o criador Brahma; Guru é o preservador Vishnu; Guru é também do destruidor Shiva e ele é a fonte do Absoluto. Eu ofereço todo o esforço do meu trabalho ao Guru. “
Extraído de Gurustotram (versos ou hino ao Guru) primeiros versos, autor Ady Shankaracharya.
Guru Gita, 46.
Somente o guru, [que está sempre] tranquilo, é a Suprema Condição”.
Shri Tattva Cintamani, 2.36, Purnananda.
O discípulo é a última.
O conhecimento é o lugar de encontro.Instrução é o elo”.
Taittiriya-Upanishad (3.1.1)
Patañjali, selos do Vale do Indo, Bhagavad Gita
Patañjali é um marco histórico por se tratar do mais antigo documento que trata especificamente do Yoga como um assunto distinto de qualquer outro. O assunto do texto de Patanjali é o próprio Yoga.
O Yoga é mencionado desde algumas das mais antigas upanishadas como uma prática de ajustamento da mente, e, particularmente na Shvetashvatara Upanishat ele é descrito com mais detalhamento, já com todos os traços característicos do então futuro Yoga Clássico. Ali também nasce a figura de Shiva, ainda como uma personificação benigna do deus Rudrá.
O conceito do Yoga, portanto, surge ainda no período védico da literatura sânscrita, e isso é o máximo que podemos afirmar com certeza sobre suas origens.
Quanto à comparação das poses de figurinhas dos selos da civilização do Vale do Indo com os asanas do Yoga, é equivocada, pois nada sugere que houvesse qualquer ênfase em posturas nas referências mais antigas ao Yoga. Para ser preciso, essa ênfase surge muito tardiamente no Yoga, a partir da abordagem tântrica, que aparece somente na Idade Média (ha pouco mais de mil anos).
O Yoga mencionado na Bhagavad Gita parece estar a caminho de se tornar uma doutrina (o que acontecerá apenas com Patanjali). Mas é um equívoco considerar que ali são tratados vários “tipos” de Yoga. A palavra “yoga”, ali, tem um significado genérico de “uso” – de onde podemos tirar: o uso da Inteligência (buddhiH); o uso do ritual (karma); e o uso do compartilhamento divino (bhaktiH). Ela menciona o uso dessas ferramentas para a realização do Dharma – que é o verdadeiro foco da Gita.
Kriya Yoga é uma expressão utilizada por Patanjali na primeira frase do segundo capítulo dos Sutras para descrever aquilo que resume a prática de sua doutrina, ou seja, apenas três componentes do niyama: tapas, svadhyaya e Ishvarapranidhanam. Não é um “tipo” de Yoga, mas sim aquilo que Patanjali sugere que seja o “coração” do Yoga, pois produz samadhi e atenua as perturbações ao processo do Yoga.
Carlos Eduardo