Krisnamacharya: biografia
Tirumalai Krishnamacharya nasceu em 18 de novembro de 1888 em Mysore, sul da Índia, numa família que tem suas raízes no famoso sábio indiano do século nove Nathamuni, autor do Yogarahasya e o primeiro professor da linhagem de Gurus Vaishnavas.
O Yogarahasya (A essência do Yoga) é um dos mais importantes textos da história do Yoga. Foi escrito há mais de mil anos e, infelizmente, há cerca de mil anos desapareceu da herança do Yoga. Uma das mais incríveis histórias da vida de Sri Krishnamacharya está relacionada à redescoberta desse importante texto de Nathamuni. Com apenas 16 anos de idade, numa peregrinação até o local sagrado onde Nathamuni havia recebido esses ensinamentos, Krishnamacharya teve uma importante revelação. O que aconteceu lá é descrito a seguir pelo próprio Krishnamacharya, muitos anos após o fato.
“Quando eu tinha 5 anos meu pai me iniciou à prática de Yoga. Quando ele disse que nossa família se originou de Nathamuni, o Yogi que recebeu o ensinamento de Nammazvar (um legendário santo que desde o nascimento manifestou qualidades divinas), eu decidi visitar seu local de nascimento. Mas meu pai não permitiu porque estávamos morando muito longe desse local (chamado Alvar Tirunagari).
Quando eu tinha 10 anos meu pai morreu. Eu estava sozinho. Alguns anos depois, eu tive algumas rúpias (moeda indiana) para fazer a viagem até uma região próxima ao local desejado. De lá caminhei 32 quilômetros até Alvar Tirunagari. Cheguei na porta do templo exausto. Havia um homem velho sentado próximo à entrada. Eu perguntei a ele onde poderia encontrar Nathamuni. Sorridente, ele apontou seu dedo e disse: “Vá até o bosque de mangueiras; lá ele estará sentado com seus discípulos”. Com grande excitação eu atravessei o Rio Tamraparni, me senti completamente cansado e cai. De repente, me vi em um bosque de mangueira na presença de três sábios. Me prostrei e pedi a eles que me instruíssem no Yogarahasya. Eles inclinaram a cabeça. O sábio sentado no centro começou a recitar os versos. Ele tinha uma voz musical.
Após algumas horas eu acordei e olhei ao redor. Não havia bosque e também não havia sábios. Eu estava sentado em frente à entrada do templo. O velho homem ainda estava lá. Ele me perguntou: “Você recebeu as instruções do Yogarahasya? Entre e ofereça suas preces a Nammazvar!”.
Eu entrei no templo, caminhei ao redor da árvore sagrada (com mais de dois mil anos de idade), me prostrei 108 vezes, recebi a prasadam (colocação ritual de uma cobertura ornamental prateada do altar sobre a cabeça do devoto), e saí do templo para agradecer o velho Brâmane. Ele não estava lá. Eu comecei a lembrar de sua feição. Que coincidência! Ele se parecia exatamente como o sábio que estava sentado no centro do bosque.
Eu soube, então, que o velho Brâmane que eu tinha encontrado não era outro senão o próprio Nathamuni”.
Krishnamacharya recebeu sua primeira instrução em sânscrito e Yoga de seu pai, antes de se tornar aluno no Brahmatantra Parakala Mutt, uma das mais conhecidas e respeitadas escolas Brahmanes. Matriculado aos 12 anos, ele estudou os textos vêdicos e aprendeu os rituais vêdicos enquanto simultaneamente estudava no Royal College of Mysore. Aos 18 anos se mudou para Benares, ende estudou sânscrito, lógica e gramática na universidade. De volta a Mysore, Krishnamacharya recebeu uma completa base de Vedánta de Sri Krishna Brahmatantra Swami, diretor do Parakala Mutt. Então, foi ao norte novamente para estudar Sámkhya, o sistema filosófico mais antigo da Índia, no qual o Yoga está fundamentalmente embasado. Em 1916 viajou aos Himalayas onde, no pé do Monte Kailash, encontrou seu professor, Sri Ramamohan Brahmachary, um Yogi erudito que estava vivendo com sua família próximo ao lago Manasarovar, no Tibete.
Krishnamacharya ficou mais de sete anos com esse professor, que exerceu grande influência no rumo que ele tomou em sua vida, dando a ele a grande tarefa de espalhar a mensagem do Yoga e de usar suas habilidades como curador e alguém capaz de auxiliar os doentes. Conseqüentemente, Sri Krishnamacharya não seguiu uma carreira acadêmica, mas retornou ao sul, onde estudou Ayurveda, o sistema médico tradicional indiano, e a filosofia Nyáya, uma escola vêdica de lógica. Em 1924 ele retornou a Mysore, onde o Rei, um regente progressista, deu a ele a oportunidade de abrir uma escola de Yoga. O próprio Rei era um de seus alunos mais entusiastas. De 1933 a 1955 Krishnamacharya ensinou Yoga na escola e escreveu seu primeiro livro, Yoga Makarandan (Segredos do Yoga).
Nessa época sua reputação estava se espalhando pelo sul da Índia e além. Os primeiros estudantes ocidentais de Krishnamacharya vieram estudar Yoga com ele em 1937. Em 1939 e 1940 Krishnamacharya recebeu a visita de uma equipe médica francesa que queria verificar a capacidade de um yogi experiente deliberadamente parar seu batimento cardíaco. Para Sri Krishnamacharya, este exame tão maravilhoso era uma demonstração particularmente aborrecedora, algo que ele se submeteu apenas por se sentir responsável por validar o Yoga aos olhos do cético mundo científico.
Logo o interesse e o trabalho de Krishnamacharya se voltaram para o tratamento de doentes, utilizando Ayurveda e Yoga como agentes de cura. Ele se tornou cada vez mais conhecido e, em 1952, foi chamado a Madras para tratar um político popular que tinha sofrido um ataque do coração. Finalmente, Krishnamacharya se estabeleceu em Madras com sua família.
Krishnamacharya nunca viu o Yoga simplesmente como uma prática física. Sempre foi mais relacionado a alcançar o que é mais elevado, que para ele era Deus. Assim, para Krishnamacharya, Yoga significava “dar passos que levam a Deus para se tornar um com Ele”. Esse caminho exige bastante daqueles que o seguem: uma forte determinação, confiança e a habilidade de manter os esforços constantemente (abhyása).
Krishnamacharya ensinou que Yoga deve ser adaptado e praticado de acordo com as necessidades, capacidade e aspirações de cada estudante. A relação professor-aluno é considerada essencial para o estudo de Yoga, sendo necessária uma relação de amizade e confiança mútua.
Mesmo sendo considerado por muitos como o maior Yogi deste século, Krishnamacharya nunca reivindicou ter descoberto algo, mas sempre disse: “Nada é meu; tudo isso vem de meu professor, ou de Deus”. Além de seus alunos indianos, mais ocidentais vieram a Madras para estudar com ele. Em 1976, T.K.V. Desikachar, filho de Krishnamacharya e um de seus mais próximos discípulos, fundou o Krishnamacharya Yoga Mandiram, uma instituição onde o Yoga é usado para tratar doentes e onde é ensinado tanto para indianos como para estudantes estrangeiros. Sri Krishnamacharya ensinou e inspirou os que estiveram ao seu redor até seis semanas antes de sua morte, em 1989.
De acordo com seu filho, Desikachar, o que torna o Yoga de Krishnamacharya tão único é sua insistência em atender cada indivíduo e sua condição particular. Se nós respeitamos cada pessoa individualmente, isso naturalmente significa que iremos sempre começar de onde cada pessoa atualmente está. O ponto de início nunca é relativo às necessidades do professor, mas às do estudante. Isso requer abordagens diferentes, não há apenas uma abordagem para todos.
Quando jovem, Desikachar afastou-se dos ensinamentos tradicionais e seguiu uma educação de estilo ocidental. Ele se formou como engenheiro e foi trabalhar para uma empresa dinamarquesa. Mais tarde, Desikachar compreendeu a importância do conhecimento único de seu pai. Deixou a engenharia para trás e estudou com seu pai durante 27 anos até poucos meses antes da morte de Krishnamacharya. Apesar de Krishnamacharya ter treinado muitos professores durante sua vida, foi para Desikachar que ele passou seu conhecimento mais inteira e sistematicamente. O texto de Yoga considerado essencial é o Yoga Sútra. Desikachar estudou o Yoga Sútra oito vezes com seu pai. O Yogarahasya foi também todo ensinado a Desikachar de 1963 a 1965.
O professor de Yoga Mark Whitwell escreveu sobre Desikachar: “Seus ensinamentos e sua sensibilidade para as necessidades do indivíduo são sempre transmitidos num contexto de sincera amizade e humor”.
Nos últimos anos, Desikachar tem sido convidado por seus alunos para dar cursos e participar de conferências de Yoga por todo o mundo. Em Junho de 2000, Desikachar esteve nos Estados Unidos dando um curso de 4 dias juntamente com seus mais antigos alunos e, atualmente, professores nos EUA: Gary Kraftsow, Martin Pierce e Sonia Nelson. Nesse encontro, Desikachar expressou sua preocupação quanto ao Viniyoga nos EUA. Ele sente que há um fundamento que está se perdendo e que existe uma expansão horizontal sem aprofundamento vertical. Num poço, numa vasilha larga, a água irá evaporar rapidamente, diz Desikachar. Ressaltou que há muito trabalho a ser feito nessa direção.
Uma Evolução (1920 – 1989)
Nascido em 1888, Tirumalai Krishnamacharya tinha um desejo ardente de buscar o melhor dos ensinamentos. Viajando extensa e intensamente em seu país, ele estudou com os melhores professores e cedo se tornou mestre nos sistemas filosóficos tradicionais indianos. O aprendizado de Yoga que recebera ainda na infância motivou-o a procurar aquele que seria seu mestre no Tibet, com quem passou sete anos e meio dedicado ao aprendizado. Ao fim desse tempo, esse professor pediu-lhe que retornasse à sua cidade, constituísse família e difundisse o que havia aprendido de Yoga.
Embora toda a sua erudição o habilitasse a conseguir trabalhos que lhe dariam prestígio, riqueza e poder, Krishnamacharya permaneceu devotado exclusivamente ao Yoga, seguindo a orientação de seu professor.
Em sua experiência de seis décadas ensinando Yoga, T. Krishnamacharya fez contribuições de inestimável valor. Embora ele não esteja mais entre nós, seus ensinamentos continuam vivos e populares graças aos esforços de seus alunos, que são hoje considerados autoridades mundiais em Yoga.
Traçamos aqui a evolução na forma como T.K. ensinou Yoga, em particular Yogasanas.
Esse período começa no início dos anos 20. Krishnamacharya ensinava no palácio de Mysore. Nessa época, havia necessidade de demonstrar os benefícios e poderes do Yoga. Por isso, seu estilo de prática e ensino procurava tornar claro esse aspecto.
O estilo de ensinar adotado por ele objetivava a maestria do corpo, ou ter um vajrakaya (um corpo de diamante). Ele demonstrou essa possibilidade de diferentes maneiras, inclusive parando voluntariamente seus batimentos cardíacos, fazendo asanas sobre uma outra pessoa, jejuando por vários dias seguidos e ainda através de outros feitos normalmente impossíveis.
Mandala – 1930 A 1950
A partir de 1930, Krishnamacharya adotou o método de ensinar séries de posturas, executadas de forma dinâmica. Ele explicitou essa técnica no livro que escreveu na época, chamado “Yoga Makaranda” (a essência do Yoga). A combinação de posturas nessas seqüências dinâmicas se destinava aos níveis de energia das crianças que ele então ensinava no Palácio de Mysore. Chamadas vinyasa krama, essas seqüências ainda hoje estão em voga, já que são muito atraentes e úteis para crianças. Foi durante esse período que os hoje famosos professores B.K.S. Iyengar e Pattabhi Jois foram alunos de T. Krishnamacharya.
Após mudar-se para a cidade de Madras, no final dos anos 50, a abordagem adotada por ele ao ensinar recebeu o nome de shikshana. Aqui, a perfeição das posturas era o foco. E a perfeição das posturas não se baseava apenas na forma, mas também na respiração. Seu objetivo era que cada postura da seqüência fosse executada corretamente e, além disso, com uma mesma razão respiratória ao longo de toda a série.
Foi nessa época que T.K.V. Desikachar começou suas aulas com Krishnamacharya
Yatha Shakti – 1970 a 1980
A partir do início dos anos 70, a abordagem dominante na forma de ensinar de Krishnamacharya foi a de adaptar o Yoga levando em conta as habilidades de cada praticante.
Embora ele tivesse praticado yogaterapia ao longo de toda a sua vida, foi nesse período que ele estabeleceu a parte mais importante do seu ensinamento. Usando a capacidade das pessoas como ponto de partida, ele gradualmente as levava em direção a uma saúde melhor.
Angalaghava – 1980 a 1985
Reconhecendo que seus alunos tinham cada vez menos tempo para a sua prática diária de Yoga, Krishnamacharya desenvolveu um método de praticar que exigia menos tempo, mas proporcionava leveza do corpo (significado das palavras anga-laghava).
O método combina diferentes posturas, que podem ser alcançadas através de passos fáceis, a partir de um mesmo ponto de início. A técnica foi explicitada por Krishnamacharya em um livro que ele escreveu nessa época, intitulado “Yogasanagalu”. Esse tipo de combinação de posturas ajudou a otimizar o tempo que os alunos podiam destinar à prática de Yoga.
Nos seus muitos anos de ensino, Krishnamacharya não foi para seus alunos apenas mestre de Yoga, mas também um orientador espiritual. Com o passar dos anos, ele percebeu que os caminhos espirituais dos alunos, associados à prática de Yoga, poderiam ser uma jornada em direção à calma interior. A partir daí, ele introduziu o Canto Védico nas práticas de seus alunos e ajudou-os a trilhar seu próprio caminho espiritual por meio do Yoga.
Também nesse tipo de ensinamento, ele respeitava a crença religiosa do praticante, sugerindo para recitação durante a prática passagens apropriadas à sua cultura e tradição espiritual.
O que foi apresentado aqui não é senão uma pequena parte da contribuição de T. Krishnamacharya aos campos do Yoga, espiritualidade, saúde e estilo de vida. Suas numerosas outras contribuições incluem composições, comentários a escrituras, traduções, poemas e inúmeras abordagens de ensino.
No campo do Yoga, suas outras contribuições incluem o Yogavalli – um extenso comentário ao Yogasutra de Patanjali, ainda inédito. Também a ele se deve o renascimento de textos como o Yogarahasya, traduções de escrituras como Hatha Yoga Pradipika e Yogayajñavalkya Samhita, poemas como o Yoganjalisaram e o Dhyanamalika e incontáveis artigos e ensaios sobre diferentes temas, que elucidam os mais profundos mistérios do Yoga.
Fora do campo do Yoga, ele contribuiu ainda com comentários ao Vedantasutra. Seu conhecimento de Ayurveda era tão profundo, que ele mesmo se encarregava de preparar os remédios com que tratava seus pacientes. Krishnamacharya combinava Yoga e Ayurveda para que seus alunos se recuperassem rapidamente. Era também um mestre dos Vedas, Upanishads e rituais, sobre os quais escreveu extensos comentários e cujos segredos compartilhou com o mundo.
Falar das qualidades de um homem como esse é quase impossível. É como apreciar a beleza de uma folha da figueira, enquanto a imensa árvore ainda fica por ser descoberta.
Autorização de Kausthub Desikachar.