Aspectos psicoenergéticos dos Ásanas Parte 2

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Ainda sobre prâna

Ápana significa literalmente “força que se move para fora”. Controla todos os processos de excreção (sêmen, urina e fezes) e eliminação (eliminação de dióxido de carbono na respiração, transpiração, menstruação e nascimento) (KUPFER, 2001). Por causa dessa função de expulsão, o ápana é responsável pelo bom funcionamento do sistema imunológico. No nível sutil, regula a expulsão das experiências negativas, emocionais e mentais. Movimenta-se centrifugamente, para baixo e para fora e está localizado na parte inferior do abdômen (ROSAS, 2003).

A Dhyánabindu Upanishad, v. 95 (trad. TINOCO, 2005, p. 127), localiza o Ápana na região do Manipúra Chakra, sede do germe Ram, e a cor de Apana é “a cor do sol” (Tinoco, 2005, p. 127). A Amritanáda Upanishad (v.34, Tinoco, 2005, p. 91) afirma que a Ápana está localizada perto do ânus e que sua cor é “amarela como a cólera de Indra” (p.91). Como pode-se perceber os textos diferem ente si quanto à lozalização do Ápana.

Udána significa literalmente “força que expulsa”. Governa o crescimento do corpo, a habilidade de ficar em pé, falar, esforçar-se e entusiasmar-se. Regula a distribuição da energia vital na região do pescoço (KUPFER, 2001). No plano sutil, regula os movimentos de transformação positiva e evolução da nossa existência (ROSAS, 2003).

A Dhyánabindu Upanishad, v. 96 (trad. TINOCO, 2005, p.127), diz que Udána é da cor do Nácar, e que seu germe é a letra Va (Vam) e o elemento é a vida, o que parece ser uma analogia ao elemento água, localizando este prána, portanto, no Svadhisthána Chakra. Já a Amritanáda Upanishad (trad. TINOCO, 2005, p. 91) diz que Udána fica na garganta e é de cor amarelão (v.37).

Sámana significa literalmente “força que equilibra”. Movimenta-se circularmente, da periferia para o centro, na região média do abdômen, entre prána e ápana. Auxilia os processos digestivos em todos os níveis. Trabalha o trato gastrointestinal na digestão do alimento, os pulmões na absorção do oxigênio e a mente na assimilação de experiências sensoriais, emocionais ou mentais (KUPFER, 2001).

É dito na Dhyánabindu Upanishad, v. 97 (trad. TINOCO, 2005, p. 127), que Sámana é da cor do cristal, sua localização é onde mora o elemento Éter, ou seja, no Vishuddha Chakra, muito embora este prána esteja presente em todo corpo, “do coração ao grande artelho, passando pelo umbigo, o nariz, a garganta, os pés” (p.127). Já a Amritanáda Upanishad (v. 34, 36 e 37, trad. TINOCO, 2005, p. 91), apresenta Sámana localizada no umbigo e sua cor é branca, “resplandecente como o leite da vaca” (p.91).

Vyána significa literalmente “força que se move para fora”. Movimenta-se do centro para a periferia, entre o tronco e os membros. Controla todos os níveis de circulação: movimenta os nutrientes no corpo, os sentimentos e pensamentos no psiquismo, a administração da força de vontade e a coordenação dos outros quatro pránas (KUPFER, 2001).

A Dhyánabindu Upanishad, v. 96 (trad. TINOCO, 2005, p. 127), diz que Vyána é da cor da bandhuka (vermelha) e correlaciona este prána com o elemento terra e com o Bíja Lam, indicando ser sua localização o Múládhára Chakra. Entretanto, é dito na Amritanáda Upanishad (v. 34, trad. TINOCO, 2005, p. 91) que a natureza de Vyána é de difundir-se pelo corpo inteiro, sendo essa sua localização; e sua cor é a cor do fogo.

“Sub Pránas”

Rosas (2003) esclarece que, além desses cinco pránas principais, há ainda algumas outras correntes nervosas secundárias no homem, que ele classifica como sub-pránas. São os pránas secundários descritos no Yoga Chudamani Upanishad, a saber:
Naga (serpente) é encarregada de aliviar a pressão abdominal induzindo o arroto, o soluço e a salivação. Kurma (tartaruga), sua função é comandar a abertura e o fechamento das pálpebras. Krkara (pássaro), que provoca o espirro e a tosse. Induz a fome e a sede. Dhananjaya (conquistador de riquezas). Responsável pela sustentação e decomposição do corpo. Devadatta (dado por Deus)que induz o bocejo e o sono.
O prána atua no Pranamaya Kosha através de um complexo sistema de canais, as Nadís, que são encarregadas de distribuir a energia e de fazê-la circular por todo o corpo. As nadís foram mencionadas pelo Vedanta, mas no Yoga é que foram descritas com suas peculiaridades. Feuerstein (2001) afirma que o Prána é a energia vital descontínua, que se juntam e formam, dessa maneira, as correntes, ou nadís, e os vórtices de energia, chamado chakras.

Nadís

Nadí é derivada de Nad, que significa um talo oco, ou ainda, som, vibração, ressonância. Rosas (2003) diz que nadís são tubos, condutos ou canais que levam ar, água, sangue, nutrientes e outras substâncias para o corpo humano. São nossas artérias, veias, capilares, bronquíolos, etc. e que nos sthula sharira, as Nadís são canais através dos quais circulam a energia vital, a energia seminal e outras, bem como as sensações, a consciência e a aura espiritual. As muitas nadís existentes recebem denominações diferentes de acordo com as funções por elas desempenhadas.
Sobre a questão de equiparar as nadís como os condutos físicos (veias, artérias, etc), Iyengar (1986) faz uma ressalva, posto que, sendo elementos sutis, não podem ser comparados com a matéria. Igualmente, Feuerstein, (2001) aponta que essa comparação pode ser apenas análoga, ao invés de idêntica. Aqui consideramos a visão de Rosas (2003) de forma puramente didática, para uma melhor visualização de como atuam esses canais sutis.
No Shiva Samhitá são mencionadas 350.000 nadis. Outros textos tântricos, como o Satchakra Nirupana, falam de 72.000. O Tri-Shikhi-Brahmana-Upanishad (2.76) reconhece que esse número é incontável. Entretanto, destacam-se quatorze nadis, dentre as quais existem três principais: Sushumna, Ida e Pingala. Diz a Dhyánabindu Upanishad, v. 50-56:
“(…)Acima do sexo e abaixo do umbigo se encontra um bulbo em forma de ovo, de onde emanam os canais em numero de 72 mil; desses milhares de canais, somente se toma em consideração setenta e dois. Os mais importantes são dez por onde circulam os sopros a saber: a Ida, a Pingala, unidas à Sushumná; a Gandhari, a Hastijihva, a Pusha, a Yashasvini, a Alambusha, a Kuhu e enfim a Shankhini. É assim que é constituída a roda dos dez canais: os yogins devem ligar-se constantemente ao seu estudo. Os três canais principais onde circulam os alentos possuem por divindade a Lua, o Sol e o Fogo; são chamados a Ida, a Pingala, a Sushumná. Ida está à esquerda, Pingala à direita, Sushumná ao centro. Esses são os três caminhos por onde passam os cinco alentos: Prána, Ápana, Udána, Vyána e Sámana. (trad. TINOCO, 2005, p. 117-118)”
Sushumná é um canal central, reto, que parte do primeiro centro de energia (múládhára) e vai até o último (sahasrara), passando por todos os centros principais (chakras), sem perfurá-los. É também conhecida como a nadi do fogo. Acompanha a coluna vertebral e corresponde no corpo grosso ao sistema nervoso central (ROSAS, 2003).
Swami Sivananda (1995) esclarece que há dentro da Sushumná Nadí uma estrutura peculiar. Dentro da principal via da Iluminação há um outro canal denominado vajra nadí, o “canal do raio”, que é reluzente como o sol. Dentro de vajra nadí existe um outro canal, o chitra nadí, que é de cor pálida. Dentro de chitra nadí existe, ainda, um canal muito fino que se conhece como brahmanadi, que é por onde a energia kundaliní ascende, “iluminando” a consciência. A extremidade de brahmanadí é chamada brahmadvara, que significa “porta de Brahman”.
À esquerda da Sushumná está a Ida Nadí que também é chamada Chandra Nadi, ou nadi da lua, vai do testículo esquerdo até a narina direita. Representa a lua, o frio, e corresponde ao sistema parassimpático.
À direita da Sushumná está Pingala, também chamada Surya Nadi, ou nadi do sol, vai do testículo direito até a narina esquerda. Representa o sol, o calor e corresponde ao sistema simpático. (ROSAS, 2005)
Rosas (2003) estabelece algumas características psicológicas que estão vinculadas à predominância de energização de Ida e Pingala. As características psicológicas de Ida formam:
“Pessoas introvertidas por natureza, que sonham durante o dia, pensam muito, que são conscientes dos seus sentimentos e geralmente muitos sensíveis a fatos externos e experiências interpessoais. Geralmente pensam em catástrofes e têm pouca perspectiva da realidade, raramente são ativos, possuem pouca energia para agir e executar seus planos.
São indivíduos com pouca vitalidade física e sujeitos a doenças como constipação, depressão, ansiedade, colites, eczemas e um grande numero de doenças psicossomáticas.
Ida está relacionada com o lado esquerdo do corpo e com características como pensamentos criativos e intuitivos; qualidades como emotividade e passividade; e aspectos do tipo conservador, receptivo, cooperativo, sintético e holístico”.( p. 22)
E quanto às características psicológicas de Pingala, são:
“Pessoas extrovertidas que tem pouco acesso a experiências internas e que procuram preencher esse vazio interno com prazeres, desejos e ambições externas. Normalmente são inquietas e irritáveis, com dificuldades de relacionamento.
Os indivíduos com predominância de Pingala tendem a ativas extremamente o sistema nervoso simpático, secretando muito ácido e produzindo úlceras, angina pectoris ou elevando a pressão sanguínea alem dos limites normais. Estão constantemente em estado de preparação para ‘luta ou fuga’, secretando muita adrenalina e fazendo pouco exercício para queimar as secreções químicas excessivas. Normalmente suas doenças se manifestam no desequilíbrio das secreções endócrinas e processos metabólicos.
Pingala está relacionada com o lado direito do corpo, com pensamento lógico e racional e aspectos tais como assertividade, agressividade, autoritarismo, competitividade e exigência.(ROSAS, 2005, p. 22-23)

Sushumná, Ida e Pingala partem do Múládhára Chakra, o primeiro centro, onde se encontram num determinado ponto que é chamado de Mukta-Triveni. Enquanto o Sushumná sobe em linha reta, Ida e Pingala vão se cruzando numa linha sinuosa, através dos chakras. Ida e pingala voltam a encontrar-se no Ájña Chakra, num ponto chamado Yukta-Triveni, de onde se encaminham para a narina esquerda e direita, respectivamente. Somente a Sushumná Nadí sobe até o último chakra. (ROSAS, 2003)

Outro ponto importante mencionado no Dhyánabindu Upanishad (v. 50-51, Tinoco, 2005, p. 117) é a presença do Kanda, uma estrutura oval, de onde emanam todas as nadís. Este ponto, segundo Rosas (2005), também é conhecido como Nabhi Chakra, e sobre ele fala a Chudamany Upanishad (I:13-16):
“No centro do estômago, o centro do umbigo repousa no círculo conhecido como Manipúra. Entre o umbigo e a ultima vértebra da coluna está o centro do umbigo, formado como um ovo de passarinho. Este centro encerra dentro de si mesmo o começo de setenta e duas mil nadís, das quais setenta e duas são vitais. Destes, novamente, dez são os mais importantes. A fim de que se tenha o devido controle sobre esses dez nervos, um tem que receber atenção especial. (trad. ROSAS, 2005, p. 65)”

kanda

Rosas (2005) defende a importância deste centro denominado Kanda para toda e qualquer tipo de prática de Yoga, alegando que este centro, estando fora do seu lugar, prejudica o funcionamento das nadís, afetando, assim, a circulação do Prána pelo corpo. Antes das práticas yóguicas, o exame do Kanda deve ser realizado, conforme ensina o autor. Ele também cita as conseqüências do deslocamento do Kanda: estando acima do umbigo, provoca prisão de ventre, tornando o corpo sujeito à uma infinidade de doenças; deslocado para baixo, produz cólicas, pesadelos, entre outros; e para os lados, causa dores agudas não localizadas. Ainda pode provocar nas mulheres: irregularidades menstruais, coloração estranha do fluxo menstrual e esterilidade permanente. Nos homens provoca espermatorréia e ejaculação precoce (Rosas, 2005, p. 71).
Também o Hatha Yoga Pradipiká fala sobre o Kanda. No capítulo 3, verso 113, Yogue Svatmarama afirma a lozalização e a cor do kanda:

O centro do corpo sutil (kanda, localizado atrás do umbigo) tem uma extensão de doze dedos. Está situado por cima do ânus, a uma distância de quatro dedos e tem um aspecto delicado, de cor branca, como coberto por um pedaço de pano branco. (trad. de KUPFER, 2001, obra disponível pela internet )

chakras

Os centros de energia pelos quais passam as nadís são chamados Chakras. Chakra pode significar “roda”, “disco” ou “círculo” (Kupfer, 2001), também “movimento” (Johari, 1995) e “anel” (Rosas, 2003), podendo, além disso, receber o nome de padma (lótus).
Para Kupfer (2001) os chakras são centros de captação, armazenamento e distribuição de Prána no corpo.
Johari (1995) afirma que os chakras são centros psíquicos.
Rosas (2003) parece englobar essas duas concepções, ao conceber os chakras como centros energéticos que recebem, acumulam, transformam e distribuem energia pelo corpo (através das glândulas endócrinas que regem), além de designarem as características de personalidade, atuando também no campo psíquico.
Em relação ao movimento dos chakras, Kupfer (2001) afirma que os eles giram para ambos os lados, de forma muito rápida. Girando no sentido horário, estes centros energéticos projetam energia para fora, distribuindo-a para a área que lhe é destinada. E no sentido anti-horário, os chakras captam energia do ambiente. O autor sugere que pensemos nos chakras como “redemoinhos com o centro mais claro que as extremidades, girando vertiginosamene em ambos os sentidos” (p.194).
Os mestres tântricos divergem entre si quanto ao número de chakras espalhados pelo corpo, que pode variar de 5 centros energéticos até 11 centros, ou mais.
Rosas (2003) reconhece que existe milhares de chakras distribuídos pelo corpo todo, entretanto, afirma que sete são considerados essenciais para o trabalho do Yoga, sendo estes os descritos pela obra SatChakra Nirupana.
Este é o texto que contém a melhor descrição dos chakras, foi escrito em 1577 por Purnananda, um mestre de Bengala, e foi traduzido do sânscrito por John Woodroffe, que também utilizava o pseudônimo Arthur Avalon, na obra The Serpent Power, ou na versão em espanhol, El Poder Serpentino.

Elementos Constituintes dos Chakras

Os chakras são representados de forma simbólica através de uma mandala, palavra sânscrita que designa um “circulo ou diagrama místico dotado de profundo simbolismo” (Rosas, 2003, p. 50).
Para Lysebeth (1994), a mandala é um yantra inserido num círculo ao invés de um quadrado, como é tradicionalmente figurado. Tal como a mandala, o yantra também é um diagrama “mágico-simbólico” (p.148), que tem o poder de concentrar a energia psíquica e aumentá-la.
Do círculo saem pétalas de um lótus, sendo que cada chakra possui um número especifico de pétalas que designam duas coisas: a disposição das nadís que o rodeiam; e as letras do alfabeto sânscrito, que correspondem aos vrittis, ou latências psíquicas e também os “poderes sonoros sutis” (Rosas, 2003, p. 50). As pétalas são os subvórtices dos Chakras chamados em sânscrito de Vrttis. São os vórtices da mente. Cada vrrtti emana uma determinada energia psíquica e podemos dizer que a combinação dos aspectos dos 50 vórtices compõe os bilhões de personalidades humanas que existem. A harmonização dos vórtices é uma tarefa para muitas vidas e a medida que o homem evolui espiritualmente eles passam a funcionar de uma maneira tal que nossos sentimentos e emoções não nos dominam mais.
Quando um determinado vrrtti de um Chakra é estimulado, ele torna-se desequilibrado e este padrão energético flui através das milhares Nadis de nosso corpo sutil, perturbando a tranqüilidade de nossa mente. Como os Chakras estão ligados a uma determinada glândula, o hormônio relacionado a ela é super ou sub estimulado, modulando sua produção e provocando sintomas físicos e emocionais perceptíveis.
Cada chakra é governado por um tattva, o elemento do qual se originou, que é representado por uma figura geométrica. É o tattva que também designa a cor de cada chakra. No centro da mandala há uma letra sânscrita que é a “semente” (bíja) do mantra, um som fundamental que corresponde ao elemento do chakra.
O bíja mantra está sentado sob um animal, o que denota as qualidades do tattva, e também simboliza o veículo (váhana) da deidade masculina que governa cada chakra. (WOODROFFE, 1979)
Cada chakra têm, portanto, uma deidade masculina (Devata) e uma feminina (Shaktí), com diferentes nomes e atributos. De acordo com Rosas (2003), os Devatas representam o aspecto da consciência (Cit) da parte do corpo correspondente ao chakra. As shaktis, por sua vez, representam a parte sutil das substâncias corporais (dhatus), que e desempenham um papel fundamental em seu desenvolvimento e nutrição.
Antes de imaginarmos pequenas deidades morando em nosso interior, Lysebeth (1994) afirma que a divindade é uma energia particular antroporfizada.
Kupfer (2001) limita-se a dizer que esses elementos constituintes dos chakras são símbolos das propensões e latências associadas a cada centro. Para ele, “esses símbolos falam diretamente à mente subconsciente. Não precisam ser ‘interpretados’. A única coisa a fazer é observar-se frente a eles, e às emoções que despertam” (KUPFER, 2001, p. 187).
Existe outro símbolo que está presente em três chakras e que merece aqui uma introdução: é a presença de um triângulo invertido com um lingam (falo) em seu interior, indicando um ‘nó’ (granthi), que configura um obstáculo à ascensão da kundaliní. De acordo com Kupfer (2001), Rosas (2003) e Woodroffe (1979), os três granthis estão no múládhára, anáhata e ájña chakra.
Rosas (2005) afirma que esses granthis são um obstáculo para a realização da percepção plena da realidade de cada chakra, por conter em si um poder maior de maya-shakti (poder da Criação). Maya-shakti é trigunatmika, possui três gunas, ou características, e por isso é representada por um triângulo. Os três vértices do triângulo possuem três bindus (pontos) que correspondem ao fogo (Vahni-bindu), à lua (chandra-bindu) e ao sol (Surya-bindu). Dos bindus, emanam três Shaktis, ou seja, três poderes que são representados pelas linhas que ligam os bindus: Shakti Vama (desejo), Shakti Jyestha (ação) e Shakti Raudri (conhecimento). Com elas estão Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Transformador), respectivamente, e que também relacionam-se com os três gunas: Rajas, Tamas e Sattva.
O triângulo invertido também indica o movimento descendente e as três nadís principais: ida, pingalá e sushumná. O encontro delas tem a forma de um triângulo invertido, o que faz com que a energia desça (JOHARI, 1995).
De cor vermelha, o triângulo simboliza a mulher, ou o órgão sexual feminino ou yoni (LYSEBETH, 1994).
Rosas (2003) esclarece que esse triângulo se chama Kamarupa e que realmente simboliza a yoni (sexo feminino), que brilha constantemente. “Seus ângulos representam Iccha (a vontade), Kriya (a ação) e Jñana (o conhecimento)” (p.59).

Sheila Drumond

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Aspectos psicoenergéticos dos Ásanas Parte 1

Setembro 25, 2008 at 11:46 pm (Hatha Yoga) (, , , , , , , , )

A influência do tantra

O conhecimento da anatomia e a fisiologia do corpo sutil pode ser observado desde a época das Upanishads, porém, seu desenvolvimento integral ocorreu com o advento do Tantra, que surgiu como um movimento cultural que influenciou toda espiritualidade da Índia, como veremos adiante.
O conhecimento do corpo sutil é de fundamental importância para todo praticante espiritual que deseja a Libertação ou Moksha. Entretanto, esse conhecimento não se destina somente à estes. Àqueles que trabalham para reestabelecer o equilíbrio das pessoas, este conhecimento é igualmente importante, pois assume, nestes casos, o mapa pelo qual devemos trilhar. Aos instrutores de yoga, terapeutas corporais de forma geral, o domínio desta ciência, por assim dizer, possibilita a manutenção do equilíbrio psicofísico, bem como previne os arrombamentos energéticos.

Uma das influências mais nítidas do Tantra em toda cultura e religiosidade hindu diz respeito à concepção do corpo humano que em muito difere do que até então era tradicional na Índia. Muitas das tradições ascéticas consideravam o corpo como um mero acúmulo de vísceras, cuja natureza é corrompida e cujo destino final é morrer e apodrecer. Talvez o exemplo mais claro disso é o que aparece no Agni Purana (LI:15):

O asceta (yati) concebe seu corpo, na melhor das hipóteses, como uma bolha de pele, rodeado de músculos, de tendões e de carne, cheio de urina, fezes e impurezas malcheirosas, habitáculo da doença e do sofrimento, vítima certa da velhice, da tristeza e da morte, mais transitório que uma gota de orvalho numa folha de erva.
(trad. FEUERSTEIN, 2001, p. 461)

No Maitráyaníya Upanishad (1:3) também podemos encontrar uma definição semelhante:
Ó Ser Venerável, o que há de bom no usufruto dos desejos neste corpo malcheiroso e sem substância, num mero conglomerado de ossos, pele, tendões, músculos, medula, carne, sêmen, sangue, muco, lágrimas, fezes, urina, gazes, bile e catarro? O que há de bom no usufruto dos desejos neste corpo que é afligido pelo desejo, pela ira, pela cobiça, pela ilusão, pelo medo, pelo desânimo, pela inveja, pela separação em relação às coisas queridas e a proximidade das não-queridas, pela fome, pela sede, pela velhice, pela morte, pela doença, pela tristeza, pesar e tudo mais?
(trad. FEUERSTEIN, 2006, p. 462)
Entretanto, como observa Eliade (1979), historiador das religiões, “no tantrismo, o corpo humano adquire uma importância que nunca havia tido antes na história espiritual da Índia” (p. 156). Essa nova atitude se expressa sinteticamente no Kularnava Tantra (1.14), outro importante texto tântrico hindu: “dentre os 840.000 tipos de seres corpóreos, o conhecimento da Realidade não pode ser adquirido senão pelo [corpo] humano”. (trad. FEUERSTEIN, 2001, p. 462)
Com o surgimento do Tantra, surge, então, uma nova visão do corpo: a de que é um templo do divino, pois ele permite uma série de investigações, reflexões e experiências que o tornam um instrumento invalorável para a realização espiritual e a iluminação.
O Tantra é um importante marco na história do Yoga, pois trás a luz uma nova concepção do corpo, que antes disso, era considerado um obstáculo para a libertação, fonte da corrupção e inimigo do Espírito. Esta visão de corpo como um monte de coisas substanciais temporais, deu lugar a uma concepção física da morada de Deus, e o preparo do corpo tornou-se um processo alquímico para realizar a perfeição espiritual. O corpo passou a ser visto como um reflexo do macrocosmo, que contém em seu interior todos os segredos do universo.

Os Corpos

Aquele que conhece a origem do Prána, suas entradas nos corpos, seus locais de atuação, modos como se distribuem e suas cinco divisões, seus aspectos internos e externos, obtém a imortalidade; sim, obtém a imortalidade. (Prasna Upanishad 3:12, trad. TINOCO, 1996, p. 185)

A concepção de que o ser humano possui mais corpos além do físico está presente em três escolas do Hinduísmo: Vedanta, Sámkhya e Yoga, sendo que essas últimas apresentam a mesma proposta. Embora se possa encontrar referências da existência de uma anatomia sutil nas antigas Upanishads, foi somente nos textos mais recentes do Tantra e do Yoga que podemos nos deparar com uma descrição mais detalhada e desenvolvida dessa anatomia.

Para o hindu, toda forma de energia é denominada “Prána”. No Rig Veda (X,90,13), é dito que prána indica a respiração do purusha cósmico e da vida em geral. O Yoga Vashinta (III,13,31), define o prána como o poder vibratório (spanda shakti) que está presente em todo o tipo de manifestação. O Prána é a energia do corpo sutil, tido como o molde energético do corpo físico. No Atharva Veda (11.4.11) o Prána é concebido como ‘força vital’. (FEUERSTEIN, 2001).
A Taittiryia Upanishad, Parte II, Capítulos 1 ao 5 (Tinoco, 1996, p. 228-230) descreve os corpos do ser humano em número de cinco, são denominados Koshas, que pode ser traduzido como invólucro, camada. Assim, temos o Annamaya Kosha, o corpo feito de alimentos; o Pránamaya Kosha, o corpo feito de Prána ou energia vital; o Manomaya Kosha, o corpo da mente; o Vijñanamaya Kosha, o corpo do intelecto; e Anandamaya Kosha, o corpo de bem aventurança. Feuerstein (2001) explica que esses cinco koshas cobrem e ocultam a Realidade definitiva e que, apesar desse modelo não ser típico do Tantra, seus adeptos adotam as distinções funcionais (corpo, mente, força vital, inteligência superior e bem aventurança).
Como afirma Tinoco (2005), quanto à anatomia desses corpos, apenas dois são conhecidos: Annamaya Kosha, que é constituído dos órgãos, tecidos, enfim, os elementos anatômicos conhecidos pela nossa medicina; e o Pránamaya Kosha, cuja descrição foi amplamente desenvolvida pela escola do Yoga, principalmente depois do advento do Tantra. Quanto aos outros corpos, os textos são omissos ou desconhecidos.
O Vedanta descreve dois elementos constituintes do Pránamaya Kosha: os ‘pránas’, ou “ares vitais” e as nadís, os canais por onde circulam tais pránas.

Os Corpos no Tantra

O Tantra Yoga, além de descrever melhor esses elementos citados pelo Vedanta, desenvolve uma visão mais profunda e detalhada da anatomia sutil do Pránamaya Kosha. Difere, porém, na concepção e nomenclatura dos corpos, que, tanto para o Yoga quanto para o Sámkhya, são apenas três e são denominados Shariras, a saber: Sthula Sharira, o corpo denso, feito de alimentos; Sukshma Sharira, o corpo sutil; e Karana Sharira, o corpo causal. Entretanto, os textos mais recentes do Yoga e do Vedanta apresentam uma equivalência entre as nomenclaturas existentes. Essa tendência é considerada em muitas escolas, como, por exemplo, o Dakshina Tantra Yoga (ROSAS, 2003).
Rosas (2003) diz que o ser humano possui três corpos (shariram) que têm relação com cinco “invólucros” (koshas). Esses invólucros é que encobre aparentemente o ‘Eu Real’ (Atma), causando a falsa experiência do eu limitado e separado do corpo total da criação. O autor segue a seguinte concepção: Sthula shariram, o corpo grosso, corresponde a tudo que é físico, tangível, está relacionado diretamente com os elementos grossificados. Aqui está incluído o Annamaya Kosha, traduzida por ele como “bainha do alimento”, formada pelos elementos grossificados que ingerimos através da alimentação. Sukshma shariram, o corpo sutil, é constituído pelas emoções, sensações, sentimentos e está relacionado à mente, ao intelecto e ao Prána, a energia sutil. Relacionam-se aqui três koshas: Vijnanamaya Kosha, “a bainha do intelecto”, é responsável pela noção de individualidade, regendo o ego (ahamkara); Manomaya Kosha, a “bainha da mente”, traz em si todos os instrumentos psíquicos de percepção do mundo exterior, bem como a herança genética e os condicionamentos individuais; e o Pránamaya Kosha, a “bainha do Prána”, onde se encontra os chakras, dentre outros elementos sutis.
E o Karana shariram, o corpo causal, que na alma individual, é constituído pela ignorância que limita a consciência do homem, impedindo-o de ter a percepção de sua união com Atma, o ser total. Relacionado à este corpo está Anandamaya Kosha “a bainha da felicidade”, responsável pelas experiências de felicidade autóctones do Atma, mas que devido à ignorância, são vistas como provenientes do mundo físico.
Aponta Tinoco (2005), que um exemplo claro dessa equivalência nos textos sagrados é o Yuktabhavadeva, um texto do Yoga escrito por Bhavadeva Misra no século XVII, onde podemos encontrar no capitulo III:

Sthula sharira (corpo grosseiro) consiste de cinco tanmatras e cinco mahabhutas. Ele é chamado de Annamaya Kosha.
Sukshma sharira (corpo sutil) consiste de 17 constituintes, incluindo os cinco pranas (principais), os cinco órgãos dos sentidos, os cinco órgãos motores, a mente (manas) e buddhi (intelecto). Ele inclui o pranamaya kosha, manomaya kosha e vijnanamaya kosha. Karana sharira contem o anandamaya kosha. (trad. TINOCO 2008, obra disponível pela internet)

É importante frisar que o Yuktabhavadeva, além de prever a equivalência da anatomia sutil entre Yoga e Vedanta, inclui em sua descrição aspectos desenvolvidos pelo Sámkhya e adotados pelo Yoga, que consideram que a matéria possui três características distintas que, combinadas entre si, estão presentes em toda e qualquer manifestação da criação. Essas características são denominadas Gunas, e são eles:

Gunas

SATTVA: Responsável pela tranqüilidade, meditação, pensamento, conhecimento, clareza, pureza. Tem a cor branca. Quanto maior a presença de sattva, maior é a aproximação da condição da consciência pura. A principal função deste Guna é elevar a consciência. (ROSAS, 2003).
RAJAS: responsável pela agitação, movimento, atividade. É de cor vermelha. Atua de forma ativa sobre o Guna de tamas para suprimir sattva, ou sobre sattva para suprimir tamas. (ROSAS, 2003).
TAMAS: responsável pela escuridão, obscuridade, inércia, ausência de atividade e clareza. De cor preta. Tem o processo inverso de sattva, pois sua função é encobrir a consciência. (ROSAS, 2003)
Uma correlação com as cores aqui é interessante e necessária. Vimos que cada Guna corresponde uma cor diferente, que simbolizam as antigas cores associadas ao nascimento, à vida e à morte. O preto também significa a dissolução dos antigos valores; o vermelho,o sacrifício de ilusões mantidas anteriormente, e o branco, a nova luz, o novo conhecimento, que deriva de ter vivenciado as duas primeiras cores (ROSAS, 2003).
A teoria sobre os Gunas está exposta na cosmologia Sámkhya, foi adotada pela Ayurveda, a medicina do hinduismo e está presente também nos Yoga Sutras de Patañjali (a partir de II:18).

Pranas

O pránamaya kosha, camada ou corpo de vitalidade, está composto de cinco formas diferentes que a energia vital (prána) assume, de acordo com seu movimento e direção no interior do corpo. Rosas (2003) lembra que o prána é um só e que essa divisão é apenas uma didática para uma melhor compreensão das diferentes funções que ele assume. Essas cinco formas da força vital recebem o nome de vayus ou pránas. Sobre os ares vitais, a Prasna Upanishad, III:3-7 (Tinoco, 1996, p. 184), cita cinco principais: prána, apana, sámana, vyána e udána, comenta sua localização e suas funções. Essa concepção também é aceita pelas escolas de Yoga, onde, posteriormente, poderemos encontrar seu desenvolvimento nas Upanishads do Yoga. A Amritabindu (95-98) e a Amritanáda Upanishad (34-38) comentam sobre a cor e a localização dos pránas. Sobre a localização e funções dos pránas, diz a Prasna Upanishad (III:5-9):

Prána propriamente dito, habita o olho, o ouvido, a boca e o nariz. Apana, o segundo prana, governa os órgãos de excreção e os reprodutores. Samana, o terceiro prana, está localizado na região umbilical e comanda a digestão e a assimilação dos alimentos.

O Atman reside no coração, de onde partem 101 nadis; de cada um deles, partem uma centena de ramos e de cada um deles se origina setenta e dois mil outros nadis ainda menores. Em todos eles se move o quarto prana, denominado Vyana.
Udana, o quinto prana, é aquele que conduz o homem virtuoso para um nascimento mais elevado e o homem cheio de vícios e paixões, para um nascimento inferior. O homem possuidor de qualidades boas e más, Udana conduz ao renascimento no mundo dos homens.
O sol, verdadeiramente, contem o Prana externo. A terra é controlada por Apana. O espaço e o éter entre a terra e o céu, são controlados por Samana e o ar, por Vyana.
O fogo contém Udana. Verdadeiramente, aquele cujo fogo vital se extingue é conduzido ao renascimento, tendo os sentidos absorvidos pela mente.
(trad. TINOCO, 1996, p.184-185)
Como veremos adiante, a Dhyánabindu Upanishad (v.95-98) estabelece as cores, elementos e os bíjas, “germes” ou “sementes” que são correlacionados com cada prána. Parte-se do pressuposto que, ao serem estimulados com essas “sementes” (bíjas), os centros energéticos responsáveis pelo funcionamento do prána correspondente é ativado. A Amritanáda Upanishad, (Tinoco, 2005, p. 85) a Upanishad do Som Imortal (o Pranava Om), ensina a pronúncia exata do Om acrescido do bindu. O verso quatro deixa claro que a presença do bindu indica a nasalização da parte final do Bíja. Assim sendo, as letras que determinam a semente do prána, devem ser nasalizadas nas práticas tântricas que incluem a energização dos chakras.
Prána significa literalmente “força que se move para frente”. Regula todos os processos de absorção: o movimento inspiratório, a assimilação de alimentos sólidos e líquidos e a recepção das impressões sensoriais. É centrípeto por natureza e tem como finalidade colocar as coisas em movimento. Localiza-se na parte superior do tórax, entre a garganta e o umbigo. (KUPFER, 2001). Já Rosas (2003) diz que o prána governa os mecanismos respiratório e circulatório e que sua principal função é a de absorver energia, incluindo, assim um conjunto de mecanismos sutis de absorção de prána como as vias respiratórias, a língua e a pele.
Na Dhyánabindu Upanishad, v. 95 (trad. TINOCO, 2005, p. 127), é dito que o Prána é da cor de uma nuvem carregada de chuva e seu “germe” é YA, indicando o Bíja Mantra do chakra cardíaco, já que Ya acompanhado com o bindu torna-se Yam. O Amritanáda Upanishad (v. 34) localiza o Prána na região do coração e diz que ele é da cor vermelho-sangue (v. 35).
Sheila Drumond

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Xamanismo e Tantra

Setembro 25, 2008 at 2:22 am (Uncategorized) (, , , , , )

Os xamãs surgiram nos primórdios da estrutura mental da consciência e ajudaram a fazê-la predominante. Sua tecnologia extática psicoespiritual é o produto da estrutura mental da consciência em seu alvorecer.

O xamanismo é a arte sagrada de mudar o próprio estado de consciência a fim de penetrar em outros domínios da realidade, nos quais habitam os espíritos. A palavra shaman ou xamã é de origem siberiana (Tungúsia) e denota ‘aquele que tem experiência em viajar pelos mundos dos espíritos’. Ao concentrar-se no som de um tambor, de um maracá ou de outro instrumento de percussão, ou então pela ingestão de substâncias psicotrópicas (como o cogumelo amanita muscaria), os xamãs mudam radicalmente o seu campo de percepção para que possam se comunicar com o mundo dos espíritos. Nisso, não são movidos pela curiosidade vã; antes, buscam obter poderes e conhecimentos essenciais para o bem-estar psíquico e corpóreo da comunidade a qual pertencem.

De acordo com algumas autoridades, o xamanismo é de origem africana. Outros vêem o xamanismo como uma tradição de âmbito mundial que surgiu independentemente em diversas culturas. Pessoalmente, inclino-me a aceitar a primeira opinião, que associa o xamanismo especificamente ao pano de fundo cultural da África e da Ásia Central.

O xamanismo siberiano sofreu, na Ásia Central, as mesmas discriminações que sofreram os adoradores da deusa no Egito e África. Aqui novamente ocorre o núcleo de uma renovação espiritual que atingiu a Índia. O tantra contém elementos do xamanismo siberiano. A transição do xamanismo ao tantra aconteceu na época em que surgiram no Oriente as primeiras cidades-estado e os xamãs passaram a ser perseguidos e mortos pelos representantes da religião oficial. Para não serem encontrados, eles tiveram de parar de bater seus tambores e, obrigados pela situação, elaboraram métodos silenciosos de alteração da consciência. Foi assim que surgiu a tradição tântrica.

Em geral, os xamãs ficam estimulados durante as viagens e, às vezes, dançam ou ficam extremamente agitados. No samádhi, a calma chega a ser tão profunda que muitos processos mentais param de se desenrolar por algum tempo.

O enfraquecimento da tradição xamânica determinou a ascensão das cidades-estado e o concomitante colapso das comunidades tribais às quais os xamãs serviam. Para bem compreender esse colapso, podemos encará-lo como sinal de uma mudança de consciência que intensificou e individualizou mais a autopercepção do homem. Tudo isso está associado ao surgimento da estrutura de consciência mental.

O xamã, quase sempre um homem, é um tecnólogo sagrado privilegiado que trabalha em prol da sua comunidade. Essa função é partilhada pelo sacerdote tântrico que cumpre os seus sacrifícios e demais rituais para o bem dos outros, quer sejam os espíritos dos seus ancestrais, quer a sua família imediata, quer toda a comunidade tântrica.

A hipótese que faz derivar o tantra de um xamanismo proibido pelo Estado é problemática, mas não há dúvida de que muitos aspectos e temas centrais do xamanismo se encontram também no tantra. Dentre os elementos que constituem o xamanismo e lhe são peculiares, temos de considerar estes como os mais importantes: (1) uma iniciação que compreende o desmembramento, a morte e a ressurreição simbólicas do candidato, e que implica, entre outras coisas, uma descida dele aos infernos e sua posterior ascensão aos céus; (2) a capacidade que o xamã tem de fazer viagens extáticas na qualidade de médico e “psiconauta” (ele sai em busca da alma do doente, roubada pelos demônios, captura-a e devolve-a ao corpo; conduz a alma do morto a Amenta, etc.); (3) o “domínio do fogo” (o xamã encosta no ferro quente, anda sobre brasas, etc., sem se queimar); (4) a capacidade do xamã de assumir a forma de diversos animais (voa como os pássaros, etc.) e de ficar invisível.

O tantra é uma tradição iniciática. É governado pela idéia da progressiva transcendência (“desmembramento”) da personalidade egóica humana. Encontramos ensinamentos tântricos que expõem o seu processo como um “desmantelamento” gradual da consciência ordinária. Isso corresponde ao desmembramento associado a “fórmula da corda” xamânica, uma hipnose coletiva; o xamã, levando na boca uma faca afiada, sobe pela corda atrás de um menino até ambos sumirem de vista. Depois de algum tempo, os membros cortados do menino caem lá de cima. O drama termina quando o menino é ressuscitado pelo xamã. Uma fotografia tirada durante o processo só revela o xamã sentado no chão, sozinho e talvez com um sorriso astuto nos lábios.

A introversão extática e a ascensão mística do tântrico equivalem ao vôo extático do xamã, e a função de ensinar do tântrico corresponde à função xamânica de guiar as almas. Além disso, muitos poderes xamânicos são reconhecidos pelo tantra, que os chama de siddhis: entre eles conta-se o poder de invisibilidade, que também é atribuído aos xamãs. Por fim, o domínio que o xamã tem sobre o fogo — uma proeza exterior — tem o seu paralelo no domínio do tântrico sobre o “fogo interior”, especialmente sobre o calor psicofisiológico gerado quando da ascensão da força vital no Kundaliní Yoga.

Também uma das técnicas mais conhecidas do Yoga — o sentar-se de pernas cruzadas em alguma das diversas posturas yogis (ásana) — tem a sua prefiguração xamânica. No livro Where the Spirits Ride the Wind, a antropóloga norte-americana Felicitas Goodman examinou diversas posturas xamânicas que são usadas para provocar estados de êxtase ou viagens astrais. Cada postura tem um efeito específico sobre a mente.

Se os xamãs demonstram o seu domínio sobre o fogo pegando brasas ardentes nas mãos, como os sacerdotes Kahuna da Polinésia, os tântricos destacam-se na arte do “auto-aquecimento” disciplinando-se a ponto de fazer correr suor de todos os poros. Há uma antiga prática xamânica que consiste em ficar sentado no meio de quatro fogueiras em pleno verão, com o sol escaldante brilhando lá em cima. Eu pratiquei essa antiquíssima técnica por um longo período. Quer através da prolongada retenção da respiração, quer através da transformação do impulso sexual em energia vital (ojas), os tântricos buscam do mesmo modo canalizar as tendências naturais do corpo-mente e criar assim uma pressão interior que se traduz em calor fisiológico. Eles se sentem como se estivessem consumindo-se em chamas. Então quando a experiência chega ao seu ponto máximo, ocorre uma radical mudança de estado e todo o ser deles fica iluminado. Eles descobrem que são essa luz, a qual não tem fonte, mas é ela mesma a fonte de todas as coisas.

O estado de iluminação é para o tântrico o que a viagem mágica para outros mundos é para o xamã. Ambas as experiências se diferenciam radicalmente da realidade e da consciência convencional. Ambas têm um profundo efeito transformador. No entanto, o tântrico, que viaja para dentro, descobre o quão inúteis são, no fim, todas as viagens, pois percebe que não há viagem que possa aproximá-lo ou afastá-lo da própria Realidade eterna e onipresente que é a meta da sua odisséia espiritual.

O xamã vive no ambiente dos mundos sutis da existência, os quais procura dominar. A marca distintiva do êxtase xamânico é a experiência do vôo da alma, ou da ‘viagem’, ou do ‘sair do corpo’. Em outras palavras, quando estão em êxtase, os xamãs sentem que o seu ser inteiro está voando pelo espaço e viajando, quer para outros mundos, quer para rincões longínquos deste mundo. Seu poder serve para efetuar mudanças no mundo material mediante a alteração das condições dos mundos sutis. A finalidade última do tântrico, porém, é a de ir além dos níveis sutis da existência explorados pelo xamã e realizar o Ser transcendente, transdimensional e não-qualificado, que o tântrico sabe ser a sua identidade mais profunda. Assim, ao passo que o xamã é um médico ou taumaturgo, o tântrico é antes de mais nada um “transcendente”. Mas, na subida espiritual que o conduz à Realidade Suprema, o tântrico tende também a obter muitos conhecimentos acerca dos mundos sutis (súkshmaloka). Isso explica o porquê de muitos tântricos terem demonstrado capacidades extraordinárias e terem sido considerados como taumaturgos e magos poderosíssimos pelos indianos.

Om Shiva.

Anuttara

Comunidade Yoga-br

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Breve Biografia de Krishnamacharya

Setembro 21, 2008 at 8:46 pm (Grandes mestres, Hatha Yoga) (, , )

O Hatha Yoga como conhecemos hoje em dia teve muita influência de Krishnamacharya. Nós poderíamos dizer que 80% da prática do hatha como conhecido no ocidente veio dele.

De acordo com as entradas de seus diários feitos perto do fim de sua vida ele iniciou seus estudos de Yoga com seu pai aos cinco anos de idade, aprendendo um estilo familiar. Sua família descendia de um nátha-siddha conhecido como Nathámuni. Então seu primeiro contato com o hatha foi ao estilo nátha. Neste período ele também iniciou com seu pai o estudo dos Sútras de Pátañjali.

Na adolescência, após a morte de seu pai, ele aprendeu de um swami da linhagem de Sivananda 24 ásanas. Após praticar por algum tempo se aperfeiçoando, aos 16 anos ele empreendeu uma peregrinação ao santuáio de seu antepassado, Nathámuni. Lá ele teve uma experiência mística que marcaria sua carreira como yogi. Fora uma espécie de visão. Ele contava que no portal do templo um ancião lhe fazia sinais, apontando para uma mangueira. Ele caminhou até a árvore e exausto caiu em sono aos seus pés. Quando se levantou, três yogis estavam ali reunidos e seu ancestral, Nathámuni, estava no meio. Krishnamacharya prostou-se aos seus pés e pediu instruções. Ele conta que por horas Nathámuni lhe transmitiu o ‘Yogarahasya’ (Segredos do Yoga), um texto perdido há mais de cem mil anos. De memória, Krishnamacharya transcreveu o texto posteriormente.

Após sua experiência ele continuou suas práticas através de textos e ensinamentos que recebia de um yogi ou outro enquanto se dedicava aos estudos nas disciplinas clássicas da Índia. Um dia, quando praticava ásanas no gramado dos jardins da universidade que cursava, um de seus professores se aproximou e o instigou a procurar um mestre de Hatha Yoga que vivia isolado em uma caverna com três filhos e a esposa. Ele se chamava Shrí Ramamohan Bramachari. Vale lembrar que neste período o hatha ainda era muito marginalizado. Krishnamacharya estudou com este mestre por sete anos. Seu áchárya o ensinou a maestria nas práticas do hatha. Ele desenvolveu proficiência em não menos que três mil ásanas, desenvolvendo siddhis como parar sua pulsação, levantar objetos extraordinariamente pesados com os dentes, parar carros em movimento com a força de seus braços. Estes siddhis ele demonstrou publicamente a fim de promover a disseminação do yoga em suas palestras, conferencias e demonstrações.

Ele seguiu as instruções de seu áchárya: 1. promulgar o Yoga; e 2. constituir uma família. Ao contrário da tradição do Hatha Yoga, que naquele tempo era marginalizado, onde os yogis se retiravam para cavernas e florestas a fim de praticar e ensinar esta ciência, não tendo lar ou família, Krishnamacharya voltou a sua cidade natal e começou a dar aulas. Honrando a segunda recomendação de seu áchárya, ele casou-se. Ele queria que Krishnamacharya aprendesse a vida em família, ensinando um Yoga que pudesse beneficiar os chefes de família modernos.

Mesmo não atribuindo a si mesmo as inovações que promoveu, seus ensinamentos foram disseminados pelo globo. O que conhecemos hoje como Viniyoga, Ashtánga Vinyasa Yoga, Iyengar Yoga e etc. é fruto de seus ensinamentos que por sua vez foram formados por uma intricada rede de influências que recebeu desde a sua infância.

Om Shiva.

Anuttara.

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Tao e o Silêncio

Setembro 21, 2008 at 8:06 pm (Uncategorized) (, , , , )

Quando curiosamente te perguntarem, buscando saber o que é Aquilo, não deves afirmar ou negar nada. Pois o que quer que seja afirmado não é a verdade, E o que quer que seja negado não é verdadeiro. Como alguém poderá dizer com certeza o que Aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tiver compreendido lenamente o que É? E, após tê-lo compreendido, que palavra deve ser enviada de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde possa seguir?
Portanto, aos seus questionamentos oferece-lhes apenas o silêncio,
Silêncio – e um dedo apontando o Caminho.

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A história mais esperada de todos os tempos: Um dia típico na vida de um cético!

Setembro 19, 2008 at 12:47 am (Uncategorized) (, , , )

8:00 – Norson acorda com seu despertador digital. Isso por quê o analógico deixa em dúvida onde está o ponteiro dos minutos: ele precisa que fique provado exatamente quantos minutos é no momento. É seu escrutínio cético sendo ligado pela manhã (o analógico é charlatanismo/alucinações/pseudo-ciência).

Sua mãe o chama: “- Norson meu docinho, venha, o café está na mesa!”.

Norson vai até à mesa com seu pijaminha de foguetes e planetinhas.

Sua mãe: “- Tome seu leite”
E ele: “- Leite? Prove que é leite!”

A mãe dele faz cara de assustada. Após alguns instantes, lembrando-se que seu filho anda estranho ultimamente após ganhar um certo livro, ela releva e diz:

“- Tome e você poderá provar que é leite”.

E ele, rápido como um raio: “- Ahá! Não inverta o ônus da prova! Você quem fez a afirmação, você que tem que provar!”.

Sua mãe faz cara de susto novamente.

A distinta dama tenta: “- Mas filhinho, você tem tomado esta marca de leite há 8 anos!”

Ele: “Ahá! O argumento de apelo à tradição! Isso não convence um cético como eu!”

Ela, já desesperada, fala: “Mas é leite sim…confie na sua mãe que tem experiência!”

Norson: “Ahá! O argumento da autoridade! Isso não convence um cético como eu!”

Então ela, embora assustada, reflete sobre como poderá contornar a situação. Depois de uns instantes ela tem a brilhante idéia!

“- Meu filhinho, o leite da marca Parmaleite nunca foi desmascarado pela CSICOP”
E o Norson: “- Glut, glut, glut”.
9:00 – Tomou o leite em 2 minutos e 58 minutos foram gastos sendo convencido por sua mãe. É difícil convencer um bom cético como o Norson.

Satisfeito, ele vai ao computador. As próximas 12 horas ele exercerá seu ceticismo exemplar na Internet. Muito pragmático, ele divide o tempo em 3 partes exatas de 4 horas, a saber:

Primeiras 4 horas: Invasão de comunidades onde ele não tem conhecimento algum sobre o assunto e proposição de testes “objetivos” ad nauseam. É preciso desmascarar todo o charlatanismo/misticismo/alucinações da Internet.

Período intermediário: sai espalhando por n comunidades textos de militância cética que ele viu por aí.

Últimas 4 horas: procura avidamente, como um bom cético, por fontes que “invalidam” o cristianismo.

21:00 – Norson sai à rua da vizinhança. Ele precisa converter alguns de seus amigos ao ceticismo.

Coitadinhos, uns são “enganados pela Igreja Católica que promove a Inquisição” outros são enganados por bobeiras como viagem astral (eles tem alucinações). Norson começa a “Cruzada pela Ciência” do dia.

Joãozinho: “- E aí Norson…tudo beleza?”

Norson: “- Beleza é um valor subjetivo, não dá para validar universalmente com a ciência. Por isso eu rejeito este termo”

Joãozinho faz cara de assustado.

Norson aproveita para ensinar o que é ciência para o pobre enganado do seu amigo.

“- Na Ciência tudo deve ser medido e quantificado à exaustão para que então gere uma Conclusão confiável. Daí sim um bom cético pode acreditar”

Joãozinho, embora assustado, releva para não “perder o amigo” e tenta discutir Ciência com Marco: “- E a História? E a Psicologia?”

Norson: “Pois é…conclui-se que são pseudo-ciências”.

Joãozinho de assusta. Mas ao recobrar o fôlego, pergunta: “- Onde você viu isso Norson?”

Ao que ele responde: “- Ora, no dicionário cético na Internet, a fonte mais confiável de conhecimentos”.

Joãozinho desanima.

Nisso, como sabia que Joãozinho estava pensando em se converter, Norson aproveita para discursar sobre o assunto:

“- Sabe, Joãozinho, eu tentei encontrar Deus por 10 anos seguidos, não deu resultados.
Se a Deus fosse provado cientificamente, isso mudaria totalmente radicalmente absolutamente o Mundo e ele ficaria um bilhão de vezes melhor. Mas todas, 100%, a integralidade das teorias sobre Deus são um lixo fantasioso completo e absoluto super grande mesmo.
Eu fui na comunidade de Perguntas Cristãs Complicadas no Orkut e propus o extremamente simples, extremamente objetivo, extremamente fácil de comprovar teste da sala quente com vinte copos e todo mundo fugiu do teste. Logo, conclui-se com 100% certeza que Deus não existe. E ninguém me deu uma simples comprovação!
É preciso desmarcarar aquela comunidade; todo mundo lá é charlatão; se continuarem a ensinar que Jesus salva, se multiplicarão os charlatões; se isso acontecer, o Mundo se infestará de charlatões; se isso acontecer, o Mundo acabará. Por isso, conclui-se que se a comunidade PCC não for desmascarada o Mundo acabará.”

Joãozinho tenta argumentar:

“- Você é apressado para tomar conclusões…e os milhares de praticantes do cristianismo devem ser todos taxados de loucos?”

Norson: “- Ahá! O argumento ad numerum! Isso não muda em nada um cético como eu! É tudo anedotal e eu aprendi a ignorar totalmente relatos anedotais”

Joãozinho: “- E os fatos históricos… claro que podem estar errados, mas não seria bom considerá-las?”

Marco: “Ahá! O argumento de apelo à tradição! Isso não convence um cético como eu! Mesmo por quê, os Gregos adotavam o modelo geocêntrico, ou seja, eles estavam totalmente equivocados e totalmente errados. Conclui-se que devemos ignorar o que eles produziram”

Joãozinho: “Mas o ato de concluir que você usou deriva da Lógica…herdada dos gregos…”

Norson é pego. Então ele se desespera, e como na comunidade PCC, começa a ter alucinações mescladas com histeria retórica avançada:

“- Falácia! ampliação indevida! ad hominem! ad nendertalis! ad nauseambundus! caninus sumidus indevidus!! proctologicum vaginalis! Felatium Godzilovisk Sanitarium!
Joãozinho se convence que seu amigo precisa de tratamento psicológico. Claro que ele não aceitaria um psicólogo(pseudo-ciência), mas é até bom que já passa diretamente a um psiquiatra.

Norson segue seu discurso demonstrando ter alucinações sérias:

“- Bobagem. Schopenhauer já foi refutado há tempos por Erwin Schrödinger, que afimou que a hermenêutica da entropia intrínseca ao paradigma holográfico não se coaduna como paradoxo da dualidade onda-partícula, o que por sua vez gera axiomas pseudo-recursivos de caráter não-heterodoxos na ordem implicada, provocando o colapso da função Kaluza-Klein. Isso explica inclusive porque a teoria de campo unificado de Einsten nunca foi comprovada, bem como os campos morfogenéticos de Sheldrake carecem de sustentabilidade na versão forte do princípio antrópico de Hawking, sugerindo que todos os desdobramentos da teoria heterótica sempre conduzem ao holismo não-específico polimórfico, e já pelo princípio da navalha de Occam podemos solapar tais afirmativas .
E vc ainda vem citar Schopenhauer? Por favor, estude um pouco mais.”

Joãozinho está muito assustado e não sabe o que falar. Seguiria um sepulcral silêncio caso não passasse uma garota da escola deles. Joãozinho diz ao Norson: “- Eu acho que ela está te dando moral…”. Joãozinho percebe que seu amigo não entendeu a mensagem e reformula “Acho que aquela fêmea está sexualmente atraída por você e disposta a um eventual acasalamento”.

Norson então entende a mensagem e vai à conquista:

Ele: “- Olá!”.

Ela: “- Ois, como vai?”

Ele corta o assunto e pergunta: “- Quantos kilos você pesa? Qual sua altura?”

Ela, apesar de estranhar a criatura, responde para não ser indelicada.

Nisso, Norson pega sua calculadora e faz cálculos para construir um gráfico cartesiano relacionando altura e peso no papel que acabara de retirar do bolso. Traça tangentes as mais diversas e calcula a integral. Nisso, anota as variáveis: Cor do cabelo, cor da pele, cor dos olhos, tamanho dos seios, tamanho do bumbum, formato da boca. Cruza todas as variáveis e compara ao gráfico, elabora probabilidades e compara com estatísticas aceitas pela comunidade científica, e depois expõe sua conclusão científica à garota:

“- Você é inadequada para o acasalamento”.

A coitada: “-…”

Norson, após ter usado seu método científico de avaliação e após ter convencido seu amigo (ter tirado ele da ignorância), vai para casa feliz.

Chega em casa cansado e quer dormir e sua mãe diz:

“- Boa noite filhotinho!”

Ele, incansável: “- ‘Boa’ é um valor subjetivo, não dá para validar universalmente com a ciência. Por isso eu rejeito este termo”

Ele então vai dormir, mas antes, surpreendentemente, se revela um grande místico. Antes de deitar, senta-se em posição de Lótus e começa a mantralização:

SEIIIIIIIIIIIII GANNNNNNNNNNN

MAIIIIIIIIIIII MÉSSSSSTERRRR

Repete de 8 a 15 bilhões de vezes(idade provável do Universo) e dorme feliz.

FIM

*baseado em fatos reais

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A Dança Cosmica – por Stanislav Grof

Setembro 18, 2008 at 2:21 pm (Uncategorized) (, , , , , , , , )

Podemos agora tentar resumir os insights dos estados holotrópicos descrevendo a existência como uma aventura experimental fantástica da Consciência Absoluta – uma dança cósmica interminável, uma requintada brincadeira, ou drama divino. Em sua criação, o princípio criativo gera a partir de si mesmo e dentro de si mesmo um número incontável de imagens individuais, unidades fragmentadas de consciência, que assumem vários graus de autonomia e independência relativas. Cada uma delas representa uma oportunidade para uma experiência sem par, um experimento da consciência. Com a paixão de um explorador, de um cientista, de um artista, o princípio criativo realiza todas as experiências concebíveis em suas infindáveis variações e combinações.

Nessa brincadeira cósmica, a Consciência Absoluta encontra a possibilidade de expressar sua riqueza interna, sua abundância, e sua imensa criatividade. Através de suas criações ela experimenta miríades de papéis individuais, encontros, intrincados dramas, e aventuras em todos os níveis imagináveis. Essa peça divina de brincadeiras escalona-se desde as galáxias, sóis, planetas em órbitas, luas passando por plantas, animais, homens, até as moléculas, átomos e partículas nucleares. Dramas adicionais desdobram-se nos reinos arquetípicos e em outras dimensões da existência que não estão disponíveis à nossa percepção, quando em nosso estado de consciência do dia-a-dia.

Em infindáveis ciclos de criação, preservação e destruição a Consciência Absoluta supera os sentimentos de monotonia e tédio transcendentais. A negação temporária e perda de seus estados prístinos alterna com episódios de redescobrimento e recuperação. Os períodos que são cheios de agonia, angústia e desespero são seguidos por episódios de bem-aventurança e enlevo extático. Quando a consciência individual indiferenciada é recuperada depois de ser temporariamente perdida, ela é experimentada como excitante, surpreendente, fresca e nova. A existência da agonia dá uma nova dimensão à experiência do êxtase, o conhecimento da escuridão realça a apreciação da luz, e a extensão da iluminação é diretamente proporcional à profundidade da ignorância prévia. Mais que isso, com cada incursão nos mundos fenomenológicos seguido pelo retorno, a Mente Universal é enriquecida pelas experiências dos diferentes papéis envolvidos. Pela concretização de mais uma parte de seu potencial interno, ela aumenta e aprofunda seu auto conhecimento.

Para esse entendimento do processo cósmico é necessário supor que a Mente Universal experimenta conscientemente todos os aspectos da criação, tanto como objetos de observação quanto como estados subjetivos. Ela pode assim explorar não apenas o espectro inteiro das especificamente percepções, emoções, pensamentos e sensações humanas, mas também os estados de consciência de todas as outras formas de vida da árvore evolucionária de Darwin. No nível da consciência das células, ela pode experimentar a excitação do esperma em sua corrida e fusão com o óvulo durante a concepção, bem como a atividade das células do fígado ou dos neurônios do cérebro.

Transcendendo os limites do reino animal e expandindo-se até o mundo botânico, a Consciência Absoluta pode tornar-se numa Sequóia gigante, experimentar a si mesma como uma planta carnívora caçando e digerindo uma mosca, ou participar da fotossíntese nas folhas ou da germinação das sementes. Similarmente, os fenômenos no mundo inorgânico ,desde as ligações interatômicas passando depois pelos terremotos e explosões nucleares e até os quasares e pulsares dão margem a interessantes possibilidades experimentais. E desde que nossa psique, em sua essência mais profunda, é idêntica à Consciência Absoluta, essas possibilidades experimentais estão, sob certas circunstâncias, abertas a todos nós.

Quando contemplamos a realidade da perspectiva da Mente Universal, todas as polaridades usualmente experimentadas são transcendidas. Isso aplica-se a categorias tais como espírito/matéria, estabilidade/movimento, bom/mau, feminino/masculino, beleza/feiúra ou agonia/êxtase. Em última análise, não existe diferença absoluta entre sujeito e objeto, observador e coisa observada, experimentador e coisa experimentada, criador e criatura. Todos os papéis no drama cósmico são desempenhados, podemos dizer, por apenas um protagonista, a Consciência Absoluta. Essa é a verdade única mais importante a respeito da existência revelada pelo antigo poema hindu conhecido como Upanishads. Na atualidade, ela pode ser encontrada numa bela expressão artística, o poema intitulado “Por Favor, me Chame pelos Meus Verdadeiros Nomes” do professor budista e vietnamita Thich Nhat Hahn:

Não diga que partirei amanhã
pois eu chego todos os dias.

Olhe profundamente; eu chego em cada segundo
para ser um botão num galho da primavera,
para ser um pequeno passarinho, com asas ainda frágeis
aprendendo a cantar em meu novo ninho,
para ser uma lagarta no coração da flor,
para ser uma jóia escondendo-se numa pedra.

Eu ainda chego, para rir e para chorar,
para ter medo e ter esperança,
o ritmo do meu coração é o nascimento e a morte
de tudo o que está vivo.

Eu sou a efemérida metamorfoseando
na superfície do rio,
eu sou o pássaro que, quando chega a primavera,
aparece a tempo de comer a efemérida.

Eu sou o sapo nadando feliz da vida
na água clara do lago,
e sou a cobra, que, aproximando-se
em silêncio, alimenta-se do sapo.

Eu sou a criança em Uganda, de pele e osso,
de pernas finas como bambu,
eu sou o mercador de armas,
vendendo armas mortíferas para Uganda.

Eu sou a garota de doze anos de idade,
refugiada dentro de um pequeno bote,
que atira-se no oceano
depois de ser estrupada por um pirata do mar,
eu sou o pirata,
meu coração ainda não é capaz de ver e de amar.

Eu sou um membro do Politburo
com plenos poderes nas mãos,
e sou o homem
que tem que pagar o débito de sangue
ao meu povo que morre lentamente num campo de trabalho forçado.

Minha alegria é como a primavera, tão quente que faz
as flores desabrocharem-se em todos os passeios da vida.
Minha dor é como um rio de lágrimas, tão cheio
que enche os quatro oceanos.

Por favor, me chamem pelos meus verdadeiros nomes,
De modo que eu possa ouvir todos os meus gritos e risos ao mesmo tempo,
Do modo que eu possa ver que minha dor e minha alegria são uma só.

Por favor, me chamem pelos meus verdadeiros nomes,
De modo que eu possa acordar e assim a porta de meu coração
possa ser deixada aberta,
a porta da compaixão.

“Retirado do livro: O Jogo Cósmico; de Stanislav Grof”

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Budismo e homossexualismo (homossexualidade)

Setembro 18, 2008 at 2:57 am (Uncategorized)

1) Qualquer relacionamento sexual inclui desejo e apego;

2) Todo desejo e apego tende a gerar sofrimento, porque tudo é impermanente.

3) Tanto hetero como homossexuais são vítimas destes problemas em algum grau, variando a intensidade de acordo com a força de seus desejos e apegos;

4) Quanto mais complexa a relação, com mais emoções, mais intensos serão os sofrimentos gerados. Isso também varia de acordo com o ambiente em que se vive. Menos sofrimento em uma sociedade tolerante, com baixa rejeição ou mais sofrimento em uma sociedade puritana com alta rejeição;

5) As pessoas não escolhem suas inclinações, simplesmente as manifestam por força do seu carma;

6) O budismo pede que se julguem as condutas através do sofrimento que causam aos outros.

Dessa forma não há um julgamento em relação ao homossexualismo (homossexualidade) , apenas a constatação de que há sofrimento envolvido em todo o apego e desejo, mais ou menos intenso de acordo com numerosas condições, inclusive a sociedade onde se vive.

Naturalmente os budistas, como sociedade, são influenciados em sua conduta pela cultura em que estão inseridos.

Nada se objeta quanto a praticantes homossexuais em um centro zen moderno, porém se pede uma conduta contida a hetero e homossexuais.

Em monastérios zen budistas, há o voto de celibato para monges e leigos que lá estão em treinamento.

Também se pede ao praticante que evite conflitos na sociedade em que vive, ou procure um meio de baixo atrito.

Ou seja, todos os seres são vítimas de seu carma, devem tentar superar suas amarras ao apego e desejo.

Não nos cabe julga-los mas ajudar a todos a se libertar.

Por Monge Geshô.

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Frases do filme “Peaceful Warrior”

Setembro 16, 2008 at 3:50 pm (Grandes mestres, Videos)

Conhecimento não é o mesmo que sabedoria. A sabedoria está em agir.

Dan: Escuta aqui Sócrates, e se eu lhe dissesse que eu vejo seus sapatos nos meus sonhos?
Sócrates: Diria que você ainda está sonhando. É possível passar a vida toda sem estar acordado.

Todos lhe dizem o que fazer e o que é bom pra você. Não querem que você encontre suas própias respostas. Querem que você acredite nas respostas deles. Pare de escutar os outros e ouça o que tem no seu interior.

As pessoas temem o que há por dentro delas mesmo, mas, é o único lugar que encontrarão o que precisam.

As pessoas não são o que elas pensam.

A mente é só um órgão de reflexão.

As pessoas enchem suas cabeças com milhões de pensamentos aleatórios por dia. Nenhum desses pensamentos revela mais que uma sarda na ponta do seu nariz.

Retire o lixo. O lixo está na sua cabeça, seu lixo é aquilo que lhe afasta da única coisa que importa: Esse momento, aqui, agora. Aprenda a jogar fora o que não precisa.

Parte em que Dan estava apressado para o teste do cavalo, mas, precisava se encontrar com Sócrates na ponte:
Dan: Sócrates estou um pouco apressado, você pode não demorar?
Sócrates: Tudo bem.
E joga Dan no lago. “Ahhhhhhhhhhhhhh”

Dan sai furioso:
Dan: Ei! Estou falando com você! Qual o seu problema hein?
Sócrates: Você estava com pressa.
Dan: Por isso me empurro na ponte?
Sócrates: Eu esvaziei sua mente.
Dan: Você o que?
Sócrates: Eu a esvaziei.
Dan: Não esvaziou não! Você me jogou no rio.
Sócrates: E no que você pensou enquanto caia?
Dan: Não sei!
Sócrates: Estava pensando na escola?
Dan: Não!
Sócrates: Nas compras?
Dan: Não!
Sócrates: Onde estava indo?
Dan: Não…
Sócrates: Estava 100% dedicado à experiência que estava tendo. Tem até uma palavra para isso: Ahhhhhh!!!!
Dan: Você é maluco sabia?
Sócrates: É preciso praticar a vida toda.

Raiva, ódio, violência. Tudo isso é só medo. O medo e não o dinheiro é a raiz de todo o mal.

A teoria do caos é correta, exceto que o caos, na verdade não é caótico, mas perfeitamente controlado.

Não existe “melhor”. Você nunca será “melhor”, do mesmo modo que nunca será menos do que ninguém.

O hábito é um problema. Só precisa estar consciente de suas escolhas e ser responsável por seus atos.

Toda ação tem seu preço e seu prazer. Reconhecer os dois lados o torna realista e responsável por seus atos.

Na parte que eles saíram do beco, onde os bandidos os cercaram e Sócrates deu tudo para os bandidos.
Dan: Podíamos ter morrido!
Sócrates: É uma transformação.
Dan: A morte?
Sócrates: É um pouco mais radical do que a puberdade mas nada que nos deixe particularmente chateados.
Dan: Do que está falando?
Sócrates: A morte não é triste. O triste é que a maioria das pessoas não vive nada.

A jornada é o que nos traz felicidade e não o destino.

A parte em que o treinador diz que Dan não poderá participar do campeonato:
Sócrates: Quase toda humanidade passa por essa difícil situação, Dan. Quando não conseguem o que querem, sofrem. Você não pode se agarra a uma coisa para sempre.
Dan: Ele acha que eu não sou capaz de me entregar 100%.
Sócrates: Não importa… Deixa pra lá.
Dan: Ele acha que eu não consigo.
Sócrates: Você não precisa dele ou daquele papel para que se levante naquelas argolas e fazer o que ama.
Dan: Sim, eu preciso! Estou falando em ir lá e ganhar o ouro!
Sócrates: O ouro é só um desejo. É isso que você ama? Só será feliz se ganhar?
Dan: É um sonho, Soc. Não posso acreditar que os sonhos são ruins.
Sócrates: Não pode se entregar aos sonhos. Você é excepcional de qualquer forma.
Dan: Eu estava pronto para desistir de tudo, mas, você ficou do meu lado e disse que queria que eu voltasse a treinar!
Sócrates: Eu disse que um guerreiro se dedica ao que ele ama.
Dan: E é isso que eu amo!
Sócrates: Buscar o ouro?
Dan: Não! Sonhar em estar lá e vencer isso. Fazer o que eu sempre senti que deveria fazer. Antes de saber de bicicleta eu já estava em cima de um trampolim. Porque foi a primeira coisa da qual eu tive certeza que amava. Desculpe-me, pensei que era forte mais não sou, pensei que pudesse me livrar de tudo isso mais não consigo.

-ONDE VOCÊ ESTÁ DAN?
-Aqui.
-QUE HORAS SÃO?
-Agora.
-QUEM É VOCÊ?
-Esse momento.

Paradoxo: A vida é um mistério, não perca tempo tentando entendê-la.
Humor: Tenha senso de humor, especialmente sobre si mesmo. É a força por trás de toda atitude.
Mudança: Nada permanece o mesmo.

Ótimo filme relacionado com o auto-conhecimento em prática, tem muito a ver com budismo zen, taoísmo, hinduísmo e Yoga, se chama “Peaceful Warrior” e em português “Poder além da vida”.

Sinopse:
Dan Millman (Scott Mechlowicz) é um talentoso ginasta adolescente que sonha em participar das Olimpíadas. Ele tem tudo o que um garoto da sua idade pode querer: troféus, amigos, motocicletas e namoradas. Certo dia seu mundo vira de pernas para o ar, quando conhece um misterioso estrangeiro chamado Socrates (Nick Nolte). Depois de sofrer uma séria lesão, Dan conta com a ajuda de Socrates e de uma jovem chamada Joy (Amy Smart). Ele descobrirá que ainda tem muito a aprender e que terá de deixar várias coisas para trás a fim de que possa se tornar um guerreiro pacífico e assim encontrar seu destino.

Comunidade no orkut.

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Dharma: a Base da Vida Humana

Setembro 12, 2008 at 11:24 pm (Grandes mestres) (, , , , )

por Swami Paratparananda

(*) Publicado na edição de Nov/Dez de 1984 da revista “Vedanta Kesari”

(Cedo ou tarde o homem descobre que os prazeres que os sentidos trazem a ele são extremamente transientes e até contra-produtivos. É o Dharma que o coloca em contato com o mundo supra-sensório da Realidade e o eleva da existência do bruto para a vida Divina. Swami Paratparananda, dirigente do Ramakrishna Ashrama, Argentina (**) e um ex-editor da “Vedanta Kesari”, explica como Sri Ramakrishna enfatiza que o principal ingrediente do Dharma ou disciplina religiosa é a renúncia – externa, se possível, mas interna, categoricamente).

(**) de 1973 a 1988.
Vários são os significados deste termo sânscrito, Dharma. Por exemplo, retidão, a natureza inata de algo, deveres devido ao nascimento e posição na vida, são alguns deles. Nós lidaremos aqui com o mencionado em primeiro lugar, isto é, retidão, retitude ou religião como é algumas vezes definido. É claro que na Índia a religião inclui deveres de acordo com varna e âsrama (nascimento e posição na vida) apesar de que estes são conceitos não tão rigidamente praticados hoje em dia. Religião ou Dharma é algo mais do que a mera conformidade com obrigações sociais, restrições ou regras; mais do que meros dogmas e credos. Regras sociais e códigos morais podem e realmente mudam de acordo com a época e lugar. Por exemplo, o que é considerado como imoral em alguns países pode ser aceito como totalmente normal ou natural em outros, etc. Mas mera moralidade não é a meta e finalidade do homem. É apenas o meio para atingir algo superior, algo eterno e este algo é o sujeito da religião ou Dharma. Pode-se chamar este sujeito como Deus ou Espírito ou por qualquer outro nome.

A questão que surge na mente do homem moderno é: que papel pode a religião desempenhar na atual era de ciência e tecnologia? Poderá ela sobreviver aos ataques destas forças? Devemos lembrar que a ciência e a tecnologia lidam com a matéria, coisas perecíveis e não eternas. A matéria, por mais que possa durar, um dia se destrói; ela não pode durar para sempre, não pode ser permanente. Tendo sido composta de elementos, deve retornar mais cedo ou mais tarde aos seus elementos; e aquilo que não é permanente não pode dar felicidade duradoura. O homem nunca consegue felicidade duradoura. O homem nunca se satisfaz com a riqueza. Quanto mais ele tem, mais ele deseja. Assim também é o caso com os prazeres dos sentidos. O corpo pode ficar fraco, mas o desejo por eles não deixa o homem. Habilmente Bhartrihari disse no seu Vairagya Sataka: bhogâ na bhuktâ vayam eva bhuktâh, “Os prazeres mundanos não foram desfrutados por nós; pelo contrario nós mesmos temos sido devorados”. E ele continua: trsnâ na jirnâ vayam eva jirnâh, “O desejo não é enfraquecido, apesar de que nós mesmos nos debilitamos”. E mais: valibhir mukham âkrântam pâlitena ankitam sirah, gâtrâni sithilâyante trsnaikâ tarunâyate, “A face está coberta por rugas, a cabeça pintada de branco (por causa dos cabelos grisalhos), os membros se tornaram fracos, apesar de que apenas o desejo é sempre rejuvenescido”. Esta é a condição do homem entregue à satisfação dos sentidos. A ciência e a tecnologia ainda não descobriram métodos de parar ou prevenir este declínio ou deterioração das forças físicas e mentais do homem nem trazer a ele a satisfação que pode durar mesmo sob circunstâncias adversas como enfermidade e senilidade, etc.

Contudo, nós não dizemos que não existam pessoas que ignorem as realidades da vida e tentem desfrutar dos prazeres. Como o avestruz, que quando caçado, se diz, corre tanto quanto pode e enfia sua cabeça na areia e acredita que não há mais perigo ou inimigos. Para estas pessoas este mundo é tudo quanto existe.

No Kathopanishad, Yama diz: “O além nunca aparece diante das pessoas tolas, enganadas pela ilusão da riqueza. Aqueles que pensam: ‘Este é o único mundo e não há nenhum outro’, caem sob meu domínio inúmeras vezes”. Swami Vivekananda diz: “Somente os tolos correm atrás dos gozos dos sentidos. É fácil viver nos sentidos. É mais fácil andar pelo velho caminho com o piso batido, comendo e bebendo, mas o que estes modernos filósofos querem dizer a você é que peguem estas idéias confortáveis e coloquem o selo da religião nelas. Tal doutrina é perigosa. A morte jaz nos sentidos. A vida no plano do Espírito é a única vida, a vida em qualquer outro plano é apenas a morte”. Aqui nós encontramos a resposta também para aqueles que querem fazer da religião algo confortável, adaptada ao plano sensório.

O homem busca a felicidade e acha que pode obtê-la nos objetos dos sentidos; mas, tristemente, ele descobre que a felicidade que estes objetos podem dar é de muito pouca duração e que ele tem que ganhá-la a um custo muito elevado. Ele começa com tremendo otimismo, mas quando fica velho, gradualmente torna-se um pessimista. Swami Vivekananda declara: “A felicidade real não está nos sentidos, mas acima dos sentidos e está em todos os homens. O tipo de otimismo que vemos no mundo é o que levará até a ruína através dos sentidos.

Novamente, por mais que o homem tenda a ignorar o fato de que o sofrimento, físico e mental é inevitável no plano sensório e mergulhe completamente nele, um dia chegará quando ele perguntará a si mesmo: “É isto tudo? Será a meta da vida viver como plantas e animais por alguns anos e morrer?” Isto é um imperativo, pois enquanto o homem retiver a faculdade do raciocínio, ele não pode deixar de colocar estas questões para si mesmo quando deparar com terríveis e insuperáveis circunstâncias. E este raciocínio deveria levá-lo a auto-análise e gradualmente à Religião, pois tendo sofrido no plano dos sentidos ele não tem outra alternativa além de tentar conseguir consolo de algo superior e não perecível.

Agora vamos ver o que a Religião realmente significa e o que ela pode fazer por nós. Religião é um sistema de disciplinas que traz uma penetração intuitiva na natureza real do mundo espiritual, pelo controle dos sentidos e a conquista da mente. Com esta penetração intuitiva, nós chegamos a conhecer o propósito real da vida humana, como também sobre a vacuidade do mundo sensual. Swami Vivekananda afirma: “Este nosso universo, o universo dos sentidos, racional, intelectual, está cercado de ambos os lados pelo ilimitado, o não-conhecível, o sempre desconhecido. Nisto está a busca, nisto estão as investigações, aqui estão os fatos; disto vem a luz que é conhecida para o mundo como religião. A Religião pertence ao Supra-sensório e não ao plano sensório. Está além de todo raciocínio e não está no plano do intelecto. É uma visão, uma inspiração, um mergulho no desconhecido e não-conhecível, fazendo o não-conhecível mais do que conhecido, pois ele jamais poderá ser conhecido.” Isto parece ser um paradoxo, à uma primeira leitura, mas se nós pararmos e refletirmos, poderemos ser capazes de compreender a verdade por detrás desta afirmação. A mente humana em sua forma impura pode conhecer apenas coisas apresentadas a ela pelos cinco sentidos e nada mais. É por isso que o Espírito é chamado de não-conhecível; mas quando esta mesma mente se livra de sua impureza, seu apego e desejos, ela é capaz de perceber o não-conhecível, fazendo-o mais do que conhecido. Pergunta Yajnavalkya: “Com o quê você conhecerá o Conhecedor”- vijnataram are kena vijaniyat. Este desconhecido pode ser percebido somente através de uma mente pura, afirma o Kathopanishad: manasaivedam aptavyam, “Somente pela mente isto será realizado.”

O melhor testemunho com relação à vida interior é daqueles que mergulharam profundamente nela e eles são os homens capazes de falar sobre o assunto. Vamos ver o que Swami Vivekananda diz sobre a necessidade desta buscado que está além: “A vida será um deserto, a vida humana será em vão, se nós não pudermos conhecer o que está além. É muito bom dizer: Contente-se com as coisas do presente. As vacas e os cães estão e estão também todos os animais e isto é o que os faz animais. Portanto se o homem contenta-se com o presente e abandona toda busca do que está além, a humanidade terá que voltar ao plano animal de novo.

É a religião, a investigação do que está além que faz a diferença entre um homem e um animal”. Respondendo à uma pergunta sobre o que a religião pode fazer por nós, ele afirma: “A salvação não consiste na quantidade de dinheiro que em seu bolso ou na roupa que você veste ou na casa em que você vive, mas na riqueza do pensamento espiritual em seu cérebro. Isto é o que promove o progresso humano, esta é a fonte de todo progresso material e intelectual, o poder motivador atrás do entusiasmo que empurra a humanidade para a frente.

Além disto, a Religião pode nos dar a vida eterna, trazer-nos a Luz que jamais falha e a paz e tranqüilidade constantes. Contudo a religião não deveria ser julgada do ponto de vista das posses ou coisas materiais. Swami Vivekananda comenta: “Várias vezes você escuta esta objeção levantada: ‘Pode ela retirar a pobreza dos pobres?’ Suponha que ela não possa, isto provaria a inverdade da religião? Suponha que uma criança se levante entre vocês quando você está tentando demonstrar um teorema astronômico e diz, ‘Isto vai me dar biscoitos de gengibre?’ ‘Não, isto não vai dar’, você responde. ‘Então’, diz a criança, ‘não serve para nada’. Crianças julgam o universo inteiro de seu ponto de vista, de produzir biscoitos de gengibre; e assim também fazem as crianças do mundo. Nós não devemos julgar as coisas superiores de um baixo ponto de vista… A Religião interpenetra toda a vida do homem, não apenas o presente, mas o passado, presente e futuro… É lógico medir seu valor por sua ação sobre cinco minutos da vida humana?” Ele continua: “A Religião fez do homem o que ele é e fará deste humano animal um Deus. Isto é o que a religião pode fazer. Tire a religião da sociedade humana e o que restará? Nada além de uma floresta de brutos.”

Do que foi dito nós vemos como a religião está inerentemente absorvida na estrutura da existência humana, mais ainda, a própria existência do homem depende dela. E é por isso que o Senhor se encarna sempre que houver o declínio de Dharma e o crescimento de Adharma, como Ele mesmo diz no Bhagavad Gita. Agora nós veremos quais são as disciplinas que a religião recomenda para atingir o supremo estado da Eterna Bem-aventurança que ela promete. A primeira e mais importante destas disciplinas é a renúncia, sem ela o homem não pode avançar em direção à meta. Pode-se perguntar: são todas as pessoas capazes de renunciar ao mundo? Certamente que não. Então a salvação que a religião promete é para uns poucos? Se for assim, por que deveria a maioria da humanidade ter interesse nela? Sri Ramakrishna responde: “Não é possível adquirir a renúncia de forma repentina. O fator tempo deve ser levado em consideração. Mas também é verdade que um homem deveria escutar sobre ela. Quando a hora certa chegar, ele dirá a si mesmo: ‘Ó, sim, eu escutei sobre isto.’ Você deve também se lembrar de outra coisa. Constantemente ouvindo sobre a renúncia, o desejo pelos objetos do mundo gradualmente se desvanece”. Sri Ramakrishna aconselha aos chefes de família a cultivarem a renúncia interna e amor por Deus, a serem desapegados as coisas do mundo e a buscarem a companhia de pessoas santas. Mas ele categoricamente diz que sem a renúncia, pelo menos a interna, não se pode atingir a Meta.

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