O que somos nós? – Tarananda
Quem somos nós? Uma reflexão sobre o que somos quanto a nossa essência ou realidade última. Visão do advaita vedanta e da ciência (física quântica)
Kaula Tantra – por Tarananda Sati
o Tantra em conformidade com a linha Kaula, exposta por Abhinavagupta: Kaula Tantra – por Tarananda Sati
Doutrina da Ilusão – Tarananda
alguns conceitos da doutrina da ilusão, ou maya, de acordo com o Vedanta: Doutrina da Ilusão – Tarananda
Introdução ao Pátañjali Yoga
Introdução ao Pátañjali Yoga
Om Náth Uttara Kaula Sampradáya.
PARTE . I .
PÁTAÑJALI[1] descreveu a filosofia do Yoga em seu Yoga-Sútras, uma coleção de aforismos escritos por volta de dois mil anos atrás. Embora estes Sútras[2] abarquem tamanha antiguidade, eles ainda são o estudo mais profundo e abrangente desta tradição. Pátañjali desenvolveu uma abordagem iluminada da psique humana desvelando o enigma da existência. Ele demonstrou como, através da prática do Yoga, todos os seres podem se transformar, desenvolvendo maestria sobre a mente e as emoções, obstáculos ao desenvolvimento espiritual e como se obter o verdadeiro objetivo do Yoga: kaivalya, i.e. a liberação da escravidão mundana, dos desejos e ações, bem como a união com o divino.
O Yoga codificado, compilado e sistematizado pelo sábio (muni) Pátañjali em seus Sútras representou o clímax do desenvolvimento das técnicas do Yoga pré-clássico. Durante os primeiros séculos da Era Cristã sua escola foi a mais renomada e destacada. O resultado foi que seu sistema tornou-se o darshana[3] oficial da tradição yogi. Sendo mais abrangente e sistemático, o Yoga-Sútras eclipsou todos os sútras anteriores que surgiram dentro da tradição do Yoga, tornando-se a Pedra Filosofal para todos aqueles que buscassem na tradição a essência da filosofia yogi.
O nome de seu sistema é conhecido genericamente como Yoga-Clássico. Isto se deu pelo fato de Pátañjali estruturar sua obra nos dias áureos das especulações e dos debates filosóficos que fervilhavam na Índia por aqueles tempos. O seu trabalho deu a tradição do Yoga uma estrutura prática e teórica homogênea, capaz de equiparar-se a tradições como o Vedánta, o Nyáya e o Budismo. Além de seu sistema ser reconhecido como o Yoga-Clássico, Pátañjali também é considerado o Pai do Yoga. O que sabemos dele é que era um yogi versado em muitas ciências. Depois de compilar e organizar todo o conhecimento então existente sobre a vida e prática dos yogis, escreveu o Yoga-Sútras, um tratado contendo aforismos sobre Yoga, a consciência e a condição humana. Pátañjali também descreveu a relação entre o mundo natural e a Alma essencial transcendente, o Ser.
O Yoga de Pátañjali é um processo de auto-realização que admite um Deus pessoal, Íshvara.[4] Do ponto de vista prático, seu sistema representa a realização do Sámkhya, de quem é um darshana complementar. Ele se serve dos elementos já definidos dos outros darshanas para se conseguir um domínio ao mesmo tempo psicológico e físico. Para ele não basta apenas um conhecimento teórico e intelectual da verdade. É necessário uma disciplina prática que tenha como meta o controle e a harmonização da mente e subsequentemente do corpo. Somente assim o homem poderá realizar sua verdadeira natureza.
Pátañjali estruturou seu Yoga-Sútras em quatro seções.. A obra como um todo foi constituída no sentido a ordenar e facilitar o leitor na memorização do sistema. Para tal, ela foi composta em sútras. Literalmente esta palavra significa fio. Um sútra é uma composição de afirmações aforísticas que, unidas, dão ao leitor um sentido como que de um fio ou cordão com que amarrar todas as idéias importantes que caracterizam o sistema. Na tradição do Yoga o ensino é passado de guru[5] a discípulo,[6] o que ganha o nome de parámpará.[7] Inúmeros foram os mestres de Yoga que, para facilitar o avanço em entendimento dos discípulos de sua corrente, comentaram o Yoga-Sútras. Estes comentários elucidativos apresentavam o conhecimento da obra de maneira bem condensada e com o tempo muitos deles se transformaram em literatura consagrada para inúmeros praticantes. O comentário mais famoso fora o de Vyasa cuja interpretação é uma referência básica e ortodoxa para o sistema do Yoga.
As quatro seções do Yogra-Sútra são:
1. Samádhi Páda;
2. Sádhana Páda;
3. Vibhuti (ou siddhi) Páda;
4. Kaivalya Páda.
A primeira seção elucida o conceito de samádhi e a maneira pela qual o yogi consegue atingir este estado por meio do qual ele está então habilitado a realização do Yoga; a segunda seção trata das práticas para se conseguir realizar o Yoga; o cerne da terceira seção se concentra em um estágio mais avançado da prática yogi conhecido como samyama,[8] assim como os resultados (siddhis) que são a indicação de que o yogi está alcançando a perfeição na prática; finalmente, a quarta seção trata do objetivo final do Yoga, o mergulho na suprema conjunção universal em si e na Natureza. Pátañjali defini este mergulho pela palavra kaivalya – isolamento ou libertação através do samádhi.
A idéia do kaivalya consiste na crença, baseada no sistema do Sámkhya, de que existe um princípio de individualidade presente em tudo o que existe no mundo manifesto. Este princípio é chamado de átma. Contudo, ele não pertence ao mundo manifestado, i.e. prakriti,[9] mas coexiste com o “homem cósmico”, i.e. o purusha,[10] a divindade manifesta dentro de cada ser humano. Pátañjali chama esta divindade interna no homem de “aquele que vê”. A idéia essencial do sistema de Pátañjali é que “aquele que vê” não possui uma existência confortável no mundo material enquanto ele não encontrar sustentação em purusha. A separatividade do mundo enfraquece “aquele que vê” e o afasta da bem-aventurança (ánanda) que deveria ser o seu estado permanente. Entretanto, o kaivalya o integra à totalidade daquilo que existe e elimina a separatividade, levando-o a se manifestar com sua forma natural.
Na tradição do Yoga esta separatividade é fortalecida pela mente humana, que lança em direção aos objetos do mundo cinco ferramentas (vrttis)[11] das quais se serve para compreender e interagir com estes objetos. Essas ferramentas são: pramána, viparyaya, vikalpa, nidrá, e smriti. Os vrttis são vórtices da atividade consciente que se formam de acordo com o samskára[12] de cada um, dando origem aos pensamentos e à vida consciente e subconsciente. Pátañjali deixa claro em sua definição do Yoga que estas ferramentas precisam ser recolhidas para que a mente se liberte da existência condicionada como veremos no curso deste texto.
Segundo o Yoga-Clássico o Ser, purusha, a Realidade Transcendente, está no ápice da Hierarquia. Este é o princípio da Consciência Pura (cit) ou Atenção (citi), sendo completamente distinto da consciência ordinária (citta)[13] com seu turbilhão de pensamentos e emoções, a qual Pátañjali explica como o produto da interação entre o purusha e a Natureza insenciente, prakriti. A proximidade entre o purusha e um organismo psicofísico altamente desenvolvido cria o fenômeno da Consciência. Mas a Natureza em si, prakriti (o corpo-mente humano por si mesmo), é perfeitamente inconsciente.
Existe um enigma que assola todas as tradições: como fazer com que o Ser, o purusha, “aquele que vê”, a Consciência Pura e Indiferenciada, possa impor seus efeitos aos processos contínuos da Natureza, prakriti? Nem mesmo o dualismo metafísico de Pátañjali conseguiu resolver a questão. Contudo, ele tenta resolver o problema postulando uma espécie de `vínculo´ que fora denominado samyoga, i.e. `correlação´ entre purusha e prakriti, entre a Atenção (citi) e o complexo corpo-personalidade.
Este vínculo somente se torna possível porque nos níveis mais elevados da Natureza a qualidade predominante é sattva.[14] A transparência deste fator da Natureza é análoga à transparência ou luminosidade do Ser. Portanto, a Natureza – sob a forma de psique ou mente – em seu estado satvíco funciona como um espelho que reflete a luz do Ser.
O Ser e a Natureza são eternos e onipresentes, assim, o vínculo que os une também o é. Para Pátañjali essa é a origem de todo o sofrimento humano (duhkha), pois gera a ilusão de que todos os seres são o corpo e a mente e todo o complexo-personalidade, mas não o Ser. Portanto, a ignorância espiritual (avidyá) esta na identificação errônea com o corpo-mente e o complexo-personalidade-egóico. Ainda, esta identificação é a fonte de todos os desejos e aversões. A atenuação e, por fim, a transcendência de todos estes complexos sofismas é o objetivo do Yoga.
Agora deixaremos de lado o aspecto filosófico – que será abordado em uma próxima oportunidade – do Pátañjala Yoga e seguiremos para o aspecto prático que fora denominado como Ashtánga Yoga ou Yoga de Oito Membros.
O autêntico Yoga de Pátañjali ou Yoga-Clássico é solidificado sobre duas bases conhecidas como yama e niyama. Unidas elas compreendem os alicerces que são, respectivamente, as observâncias externas e internas da vida yogi. Estes alicerces recebem o nome de “o grande voto” (mahá-vrata) que, de acordo com o Yoga-Sútras deve ser praticado continuamente, independente de lugar, tempo ou circunstância. Yama são as cinco proscrições morais ou éticas cuja finalidade é colocar rédeas à vida instintiva. Elas são: não usar nenhum tipo de violência (ahimsá); falar a verdade (satya); não roubar (asteya); castidade ou a utilização responsável da energia sexual[15] (brahmacharya); e não apegar-se (aparigraha). Esses refreamentos pretendem purificar o yogi, aniquilar a subjetividade advinda do egocentrismo e prepará-lo para os estágios seguintes. Desempenham o controle dos impulsos naturais, que se manifestam através dos cinco órgãos de ação (karmendriyas): braços, pernas, boca, órgãos sexuais e excretores.
A tradição afirma que o yogi que detém estas cinco virtudes plenamente desenvolvidas adquire poderes paranormais (siddhis). A perfeição na prática de ahimsá, p.e. cria ao redor do yogi uma áurea de paz que neutraliza, na sua presença, qualquer sentimento violência e inimizade; a perfeição na prática de satya faz com que as palavras do yogi sempre se realizem; a perfeição em asteya faz com que obtenha, sem esforço, tesouros de todo tipo; o yogi perfeitamente estabelecido na prática de brahmacharya tem seu magnetismo e seu vigor altamente desenvolvido;[16] com aparigraha o yogi desenvolve um alto sentido de desapego em relação a matéria – inclusive o corpo físico – o que desperta a capacidade de se lembrar de suas existências anteriores.[17] Este esforço e controle criativo que os yogis exercem sobre suas energias exteriorizantes resulta em um excedente energético que pode ser colocado a serviço da transformação espiritual da personalidade.
Como afirmamos acima, a prática de yama tem a finalidade de pôr freio ao poderoso instinto de sobrevivência e canalizá-lo para servir a um propósito superior, regulando as interações sociais do yogi. Em outras palavras, yama tem a finalidade de harmonizar a vida e, portanto o relacionamento do yogi com seu contexto social e com a Realidade Transcendente.
O segundo membro (anga) do sistema de Pátañjali continua a controlar a energia psicofísica liberada pela prática regular da disciplina moral. Os elementos do auto-controle (niyama) tem a finalidade de harmonizar as faculdades internas do yogi. Estas prescrições psicofísicas compreendem cinco disciplinas: purificação (shauca); contentamento (santosha); austeridade ou esforço sobre si mesmo (tapas); estudo de si mesmo e da metafísica do Yoga (swádhyáya); consagração a Íshwara, o arquétipo do yogi perfeito (Íshwara pranidhána). Estas atitudes cumprem a função de domínio sobre os cinco órgãos da percepção (jñánendriyas): olhos, ouvidos, nariz, língua e pele. Esse controle dos sentidos aponta à organização da vida pessoal do yogi. [18]
Os dois primeiros angas do sistema de Pátañjali regem a vida social e pessoal do yogi a fim de diminuir a produção de volições e ações nocivas que só fariam aumentar-lhe a carga kármica. O objetivo é a eliminação de todo o karma, i.e. todos os ativadores subliminares (samskára) embutidos nas profundezas da psique humana. Para que esta transformação da consciência tenha êxito, o yogi tem de criar uma condição ambiental correta, tanto dentro quanto fora de si mesmo. Assim, a prática de yama e niyama são os dois primeiros passos nesta jornada. O seguinte passo, ásana, leva este esforço ao próximo estágio: o corpo.
Vamos partir do princípio filosófico do ásana e que é o cerne da cultura que estabeleceu, nos Sécs. X e XI d.C., o Hatha Yoga. Ser um buscador da espiritualidade não significa negar ou esquecer a manifestação corpórea. Na jornada para atingir a meta espiritual o corpo deve manter-se ativo, limpo e forte como um diamante. O Yoga e seu trabalho são tão antigos quanto à civilização e na sociedade moderna, a tradição persiste, de certa maneira, como um meio para se alcançar a `vitalidade essencial´ que por condicionamentos sócio-culturais foi perdida. Contudo, a prática exposta pela tradição requer algo além de um corpo vigoroso. Ela também requer uma mente atenta e perceptiva. O yogi sabe que o corpo físico não é somente o templo da Alma, mas o meio pelo qual se inicia a jornada interior em busca de seu Ser. O corpo é o laboratório da vida, um campo de experimentação e permanente pesquisa.
Quando nós falamos em elementos da natureza, o corpo representa a terra, embora seja essencialmente constituído de água. Quando o Yogi explora seu corpo ele de fato está explorando este elemento e desenvolvendo dentro de si as qualidades da terra: solidez, forma, firmeza, força e etc. Ainda, na medida em que um ásana é aperfeiçoado uma nova consciência começa a se estabelecer, advém o verdadeiro entendimento da corporificação do espírito e da divindade interna que anima todos os seres humanos. Quando o yogi se liberta da incapacidade física, das perturbações emocionais e das distrações mentais, abre os portais da Alma (átma). Assim, a prática de cada ásana deve ser realizada como um meio de se entender o corpo e então integrá-lo com a respiração, a mente e a inteligência, a consciência e “aquele que vê”. Assim, nesta etapa, o praticante já pode experimentar uma forma de integração e liberdade.
Ásana significa um estado de ser onde uma pessoa pode permanecer física e mentalmente ereta, calma, quieta e confortável. No Yoga-Sútras de Pátañjali (II:46) há um aforismo conciso que diz: sthirasukhmásanan, o que significa que a postura deve ser tanto confortável quanto estável. Sob este prisma, yogásana desenvolve a capacidade de se sentar confortavelmente em uma posição por um longo período de tempo, na medida do necessário, para a meditação. Em outras palavras, quando analisamos a definição de ásana – sthirasukham – percebemos que Pátañjali não diz sukhamsthira. Porque primeiro o corpo precisa ficar imóvel. Depois, vem sukham, o conforto. Su significa prazer. Kha refere-se aos indriyas, órgãos dos sentidos. O que significa que os sentidos ficarão automaticamente sob controle.
Ainda, ásanas são posturas específicas destinadas a abrir e desbloquear canais energéticos e centros psíquicos comumente designados pelo nome de nádís, sandhís, mármas e cakras. Elas são instrumentos para maior sensibilização, permitindo a exploração do corpo, respiração, mente e estados sutis. Hoje, a prática de yogásanas é conhecida como uma técnica para se colocar o corpo físico em várias posições que cultivam a sensibilização, o relaxamento, a concentração e a meditação. Uma parte importante deste processo é o desenvolvimento de uma boa saúde física esticando, massageando e estimulando os canais prânicos e órgãos internos. Eles trabalham tanto sobre o corpo como sobre a mente. Estas não são entidades distintas, embora haja uma tendência para se pensar e agir como se fossem. A forma grosseira da mente é o corpo e a forma sutil do corpo é a mente. Praticar ásanas integra e harmoniza tanto mente quanto corpo.
Uma posição sentada correta permite a prática de pránáyáma e pratyáhára, os próximos passos. Mas isso só é possível quando há força, firmeza e flexibilidade no corpo. Para o yogi, o processo do ásana passa necessariamente pela construção de um corpo novo. Um corpo onde a energia não mais tem obstáculos para circular.
Yama e niyama controlam as paixões e as emoções do sádhaka e o mantêm em harmonia com seus semelhantes. Os ásanas conservam o corpo saudável, forte e em sintonia com a natureza; finalmente ele fica livre da consciência do corpo, conquistando-o e tornando-o um veículo apropriado para se atingir os pináculos mais elevados da Alma. Estes primeiros três estágios do sistema de Pátañjali são considerados os esforços exteriores denominados Bahirága sádhana.
O quarto anga do Yoga-Clássico é chamado de pránáyáma.[19] Nós poderíamos dizer que toda a jornada do Yoga depende do equilíbrio do prána[20] no corpo. O processo de equilíbrio do prána no organismo depende de muitos fatores[21] e o pránáyáma é um dos principais por regular, através de suas inúmeras técnicas, os níveis da bioenergia no corpo. Quando o yogi torna-se amplamente consciente de seu interior, não deixando distrair-se pelos estímulos externos e pelas tensões musculares, aumenta sua percepção do prána ou energia vital circulando pelos nadís. Então o próximo passo na prática após os ásanas é a energização do contínuo interior – o corpo e a mente na medida em que são percebidas pelo sujeito – através do pránáyáma.[22]
Cada anga do sistema de Pátañjali é uma preparação para o próximo. Assim, o treinamento nas técnicas do pránáyáma exige o domínio dos ásanas, a força e a disciplina que derivam desta técnica. Esta é a posição de muitos ácháryas.[23] A tradição ensina que a prática do pránáyáma deve ser sempre supervisionada por um instrutor experiente. O yogáchárya B.K.S. Iyengar em seu livro Light on Yoga sustenta: Ferramentas pneumáticas conseguem cortar as rochas mais duras. No pránáyáma o yogi utiliza seus pulmões como ferramentas pneumáticas. Se não forem utilizadas adequadamente, destroem a ferramente e a pessoa que a utiliza. O mesmo é válido para o pránáyáma.
Um poderoso aliado do pránáyáma são as técnicas do shatkarma.[24] Regras importantes devem ser observadas: a higiene corporal, o esvaziamento da bexiga e intestinos facilitando os bandhas,[25] e o estômago vazio. Tudo isso são fatores que ajudam no aperfeiçoamento da prática.
Embora ásana e pránáyáma possam ser praticados para melhorar a saúde, aumentar força, flexibilidade e etc., a intenção original dessas técnicas é equilibrar o fluxo da energia no organismo, e prepará-lo para as técnicas que seguem. É impossível se sentar para meditar se o corpo não estiver acostumado a manter uma posição por um certo tempo, sem sentir o mínimo desconforto, sem que apareça nenhuma dor, nenhum movimento inconsciente, nenhuma dificuldade para respirar. Estas técnicas fortalecem o sistema nervoso, regulam o metabolismo, melhoram a respiração, e ajudam a manter sob controle as emoções, atitudes e pensamentos.
Em nossa jornada pelo Pátañjala Yoga nós chegamos ao quinto anga deste sistema. Um ponto central em todo o conjunto pois sem pratyáhára não pode haver Yoga. Ele é a chave para a relação entre o aspecto externo do Yoga-Clássico (yama, niyama e ásana e pránáyáma) e o interno (dháraná, dhyána e samádhi). Pratyáhára ensina a se mover entre essas duas esferas. A palavra pratyáhára expressa a abstração dos sentidos. É a faculdade de liberar a atividade sensorial do domínio das imagens exteriores. A pratica conjunta dos ásanas e dos pránáyámas produz a dessensibilização progressiva e termina por fechar os sentidos aos estímulos externos. Isso faz com que os yogis vivam cada vez mais no ambiente interior de suas próprias mentes. Quando isso ocorre à consciência fica efetivamente isolada do ambiente externo. É nesta hora que a abstração dos sentidos ocorre.
A mente é o maior obstáculo para se meditar. Antes de começar a se trabalhar nela, o praticante precisa colocar seus sentidos sob controle. Desde o dia de seu nascimento ele está sendo continuamente bombardeado por impressões, imagens, sons e sensações. Essas experiências alimentam o pensamento e o arrastam para a experiência externa, fazendo com que viva voltado para fora. Pratyáhára servirá para desvincular-lhe dessa invasão das coisas do mundo exterior. Sem ele, é impossível alcançar a meditação. É praticamente impossível ir diretamente do ásana para a meditação. Isso significa saltar do corpo para a mente. Para fazer essa transição, a respiração e os sentidos, que ligam o corpo e a mente, primeiro precisam ser devidamente desenvolvidos e controlados. Com o pránáyáma se controla as energias e os impulsos vitais; com o pratyáhára se ganha controle sobre os sentidos.
O termo pratyáhára está formado por duas palavras sânscritas: prati e ahára. Ahára significa comida, ou algo que você coloca para dentro. Parti é uma preposição que significa contra ou fora. Pratyáhára então significa controle do ahára, ou ter controle sobre as influências externas.
As impressões ou influências externas podem advir de: o alimento físico que nutre o corpo e se forma pelas combinações dos cinco elementos; pelas impressões e sensações que entram através dos sentidos: tato, visão, audição e etc.; e pelos relacionamentos, sejam afetivos, familiares ou com amigos e pessoas em geral. Assim o pratyáhára consiste em evitar alimentos ruins, impressões ruins, relacionamentos que fazem mal e abrir-se para as coisas boas como alimentos saudáveis, impressões boas, relacionamentos e associações que fazem bem.
Uma completa instrução poderia ser escrita sobre esta etapa do sistema de Pátañjali. Como o espaço não nos permite, solicitamos ao leitor o estudo do artigo do professor de Yoga Pedro Kupfer, Pratyáhára: o elo perdido do Yoga,[26] que é, em si, uma das melhores explanações sobre o assunto disponível em português.
Ásana, pránáyáma e pratyáhára não são fins em si mesmos: objetivam unicamente dar ao praticante uma infra-estrutura física e mental firme para que possa suportar as transformações decorrentes do despertar da kundaliní. Através destas técnicas preliminares, úteis também para superar os obstáculos iniciais (dúvida, preguiça, angústia, dispersão, etc.), o sádhaka se prepara para o Yoga em si, que começa com as técnicas de contemplação.
Os dois estágios anteriores, pránáyáma e pratyáhára, ensinam o yogi a regular a respiração, controlando desta forma a sua mente. Isso ajuda a liberar os sentidos da escravidão dos objetos do desejo. Estes dois estágios do Yoga são conhecidos como sendo os esforços interiores, i.e. antaránga sádhana.
Nesta etapa, nós vamos em direção ao que Pátañjali em seu sistema chama de samyama. Este termo denota a unificação de dháraná, dhyána e samádhi, os três últimos passos no sistema de oito membros do Yoga-Clássico. Assim, em termos gerais, a mente controlada que alcança pratyáhára é levada diretamente a dháraná, intensificando sua atenção em um único objeto. Quando esta concentração é prolongada ocorre o resultado de todo o processo até aqui percorrido, dhyána, o estado meditativo em que se vivencia a libertação, expansão, quietude e paz interior. Quando este estado é prolongado ele libera o sádhaka de seus apegos, resultando na indiferença às alegrias do prazer e aos padecimentos da dor. Então, a experiência do samádhi é alcançada quando se unificam o conhecedor, o cognoscível e o conhecido. Quando o objeto da meditação absorve completamente aquele que medita e se torna o próprio sujeito, perde-se o estado de auto-consciência. Isto é samádhi, um estado de completa absorção. Samyama é em si a prática combinada, ou em seqüência, de dháraná, dhyána e samádhi. A tradição também afirma que as três últimas etapas da jornada citada acima são unificadas em um só conceito: antarátma sádhana, i.e. a harmonia interior obtida pela constante prática de samyama ou a conscientização, por parte do sádhaka, de que ele e o Ser são, Realmente, uma Consciência Uma.
Voltando ao nosso estudo introdutório dos angas do Pátañjala Yoga, o próximo passo é a continuação do processo de inibição sensorial que poderíamos conceituar como a contenção da mente em um estado de imobilidade, i.e. concentração. Este sexto anga é o direcionamento da atenção para um determinado suporte (desha), que pode ser uma parte específica do corpo sutil como um cakra ou um objeto externo como a imagem de uma divindade ou um yantra. Em outras palavras, dháraná (o nome dado a este anga), é a concentração em um só ponto para se limitar à atividade da consciência ao interior da imagem sobre a que se está meditando.
Dháraná é derivada da raiz verbal dhri que significa `sustentar´, `segurar´. O que fica seguro é a atenção que é fixada em um objeto interiorizado. Por trás deste direcionamento ocorre um processo chamado ekágratá, termo composto de eka – `um´, `único´ – e agratá – `acuidade´, direcionamento´. Essa ação concentrada é intensamente percebida pelo yogi como uma experiência que toma todo o corpo sem impor nenhuma tensão, muscular ou mental, de modo que uma profunda dimensão extraordinariamente psíquica desenrola-se em trabalho criativo interior. Não é possível se conseguir essa unidirecionalidade da consciência sem uma prática regular. Paradoxalmente, na prática de concentração não se deve forçar as coisas, não se deve entrar em conflito com a mente. Uma concentração forçada não é real, pois só provocará mais tensão.
Em outras palavras, em dháraná o yogi cria a condição para que sua mente focalize sua atenção em uma só direção, evitando que ela se desvie de seu foco original. A contemplação profunda e a reflexão podem criar as condições certas, e este único foco escolhido pelo yogi torna-se mais intenso. Dháraná é, portanto, a condição na qual a mente se focaliza e se concentra exclusivamente em um único ponto.
Quando óleo é vertido de uma jarra a outra, seu fluxo é firme e constante. Da mesma forma, quando o fluxo da concentração (dháraná) é ininterrupto, ocorre o estado de dhyána (meditação). Uma lâmpada será iluminada quando a corrente elétrica for regular e ininterrupta. Da mesma forma a mente do sádhaka será iluminada quando ele alcançar o estado de dhyána. Seu corpo, sua respiração, seus sentidos, sua mente, sua razão e seu ego estarão completamente integrados no objeto de sua contemplação. Um vínculo é estabelecido entre sujeito e objeto e este vínculo é uma integralidade única onde o objeto está em comunicação contínua com o sujeito.
Poderia ser explicado ainda que dháraná precede dhyána porque a mente precisa focalizar o objeto antes que esta integralidade, esta conexão, possa ser estabelecida. Assim, dháraná é o contato entre o sujeito e o objeto; dhyána é a conexão que surge deste contato contínuo.
Como mencionado acima, quando dháraná é prolongada, atingindo assim níveis profundos, ela conduz o sádhaka naturalmente ao estado de absorção em dhyána, no qual o objetivo ou foco preenche todo espaço da consciência. Assim como a unidirecionalidade da atenção é o mecanismo da concentração, a unifluidez (ekatánatá) é o processo por de trás da meditação. Todas as idéias surgidas (pratyaya) giram em torno do foco da concentração e são acompanhadas por uma disposição emocional de calma e tranqüilidade. A lucidez não é perdida! Ao contrário, a impressão que se tem é de estar ainda mais desperto, embora a consciência do ambiente externo seja pouca ou nenhuma.
No Yoga-Sútras I:2, Pátañjali expressa: yogacittavrttinirodhah. Esta expressão pode ser traduzida como “Yoga é a supressão[27] das flutuações da consciência”. Citta é a mente em toda sua totalidade, composta de a. manas, a mente individual capaz de ter atenção, selecionar ou rejeitar. Em outras palavras, é a faculdade oscilante e indecisa da mente; b. buddhi, a inteligência ou a razão superior, e c. ahamkara, o ego ou a faculdade de “criar egos”. A palavra vrtti é derivada da raiz vrt, i.e. `girar´, `revolver´, `rolar´. Assim, o curso da ação, do comportamento, do modo de ser, da condição ou do estado normal. Segundo a tradição, o objetivo inicial da meditação é interromper o fluxo da atividade mental ordinária (vrtti) que Pátañjali classificou em cinco categorias:[28]
1. Pramána – conhecimento derivado da percepção, da dedução ou de um testemunho fidedigno (p.e. as escrituras sagradas);
2. Viparyaya – concepção errônea e erros da percepção;
3. Vikalpa – conhecimento conceitual, imaginação, fantasia que repousa sobre expressão verbal sem base factual;
4. Nidrá – sono, onde há ausência de idéias e experiências;
5. Smriti – memória, retenção das impressões de fatos experimentados.
Os primeiros tipos de atividade mental são eliminados pela prática de pratyáhára. A tendência à conceitualização irá gradativamente diminuir na medida em que a prática de dhyána for mais profunda. O sono, que é uma característica essencialmente tamásica, será gradativamente dissolvido na medida em que dháraná e dhyána forem prolongadas. A memória, rica fonte de imagens e pensamentos fragmentados que surgem mecanicamente perturbando os praticantes é a última a ser bloqueada. Ela é ativa nos estados extáticos inferiores nos quais gera idéias apresentadas (pratyaya) sob a forma de intuições espontâneas, e somente é transcendida no tipo mais elevado de realização extática (asamprajñáta-samádhi). Neste estágio de temporária identificação com o Ser os samskáras responsáveis pela exteriorização da consciência são erradicados e ela pode seguir seu trajeto sem perturbações.[29]
Assim como a concentração, quando suficientemente aguda, conduz à absorção da meditação, também, quando todas as `flutuações´ (vrtti) da consciência ordinária são perfeitamente contidas pela prática da meditação sobrevém o estado de êxtase, i.e. samádhi. Este é o estágio da liberação final, o estado de iluminação em que o contemplador se absorve no Purusha, a Consciência Universal. No samádhi, o yogi se defronta face a face com experiências totalmente inacessíveis através do instinto ou da razão. Seu corpo e seus sentidos estão como que adormecidos, contudo, suas faculdades psíquicas e cognitivas estão completamente alertas, como se ele estivesse desperto, embora esteja muito além da consciência. Neste estado de hiperconsciência o sádhaka, completamente integrado ao Purusha, o venera como aquilo de onde veio, aquilo em que respira e aquilo em que se dissolverá. A alma dentro do coração é menor que a menor das sementes, mas é maior que o céu, contendo todos os universos. É neste estado que o sádhaka penetra! Não resta o sentido de `eu´ ou `meu´ pois o funcionamento do corpo, da mente e do intelecto foi interrompido. Neste estado elevado de consciência ele atingiu o verdadeiro Yoga. Aqui somente existe a experiência da verdadeira consciência em estado de liberdade, completamente descondicionada, onde a paz, a harmonia e a felicidade indescritível reinam. O estado de samádhi somente pode ser expressado através do silêncio profundo. O yogi fundiu-se com a fonte de todos os Universos. Não existe dualidade entre `Aquele que vê´ e `aquilo que é visto´.
Existem dois tipos diferentes de samádhi: `com semente´ e `sem semente´. Quando a consciência se fixa em um `ponto´ a experiência extática recebe o nome de samprájñáta-samádhi ou sabíja-samádhi, i.e. samádhi `com semente´. No Yoga-Sútras I: 42-44, Pátañjali distingue quatro categorias de samádhi dentro de sabíja-samádhi. Elas são: a. savitarká-samádhi; b. nirvitarká-samádhi; c. savichárá-samádhi; e d. nirvichárá-samádhi. Todos estes quatro estados de iluminação diferenciada recebem o nome de samápatti.
Vyása em seu Yoga-Bháshya, I: 46 diz: “Estas quatro variedades de samádhi têm como referência objetos exteriores; esta é a razão pela qual, apesar de serem concentrações, dependem de um objeto para se desenvolver. Duas delas, savitarká e nirvitarká, se relacionam aos elementos densos, enquanto que as outras duas, savichárá e nirvichárá, se relacionam a elementos sutis.[30]
O segundo tipo de êxtase, o samádhi `com semente´, é denominado asamprajñáta-samádhi ou nirbíja-samádhi. Ele compreende o estado de conhecer, muito além do estado de ser. Quando finalmente desaparece a diferença entre `Aquele que vê´ e `aquilo que é visto´ o sádhaka alcança o nirbíja-samádhi onde todos os vrttis e os samskáras são queimados, como mencionado acima.
Finalmente, havendo o yogi conquistado a liberdade absoluta, havendo-se emancipado dos condicionamentos, havendo se absorvido no Ser e no Conhecer, ele é chamado de jívanmukti, o liberto em vida. No auge desta unificação extática o yogi atinge um ponto onde não há retorno. Como jívanmukti ele não vive mais no tempo linear, mas no eterno presente. Permanece em “solidão” (kaivalya),[31] em um estado transcendental de simples Presença e pura Consciência. Um yogi em estado de kaivalya entende o mundo tão bem que fica à parte dele, não é influenciado por ele, embora se encontre na posição de influenciá-lo. Neste estágio de libertação espiritual, para ele, prakriti cumpriu seu propósito.[32] Ele vê prakriti, o mundo material, simplesmente como ele é, sem nenhum significado além dele.[33]
O árduo e laborioso caminho do Yoga, portanto, termina fora dele mesmo. Toda psicotecnologia yogi é uma escada em que o sádhaka sobe para, no último degrau, livrar-se dela. Assim, toda gama de instruções forjadas por Pátañjali serão úteis apenas na medida em que conduzirão o yogi ao Instante Abençoado em que a liberdade inata é reconhecida, dotando-lhe de autoridade e poder para ver a Realidade em toda sua nudez e plenitude.
Om Namah Shivaya!
Fernando Liguori
Anuttara Kápilanath Kulácaryá
http://srikulacara.blogspot.com/
Referências bibliográficas:
André De Rose – O Livro de Ouro do Yoga.
B.K.S. Iyengar – A Luz da Ioga; A Árvore do Ioga; Light on the Yoga-Sútras of Patañjali.
George Feuerstein – A Tradição do Yoga; Uma Visão Profunda do Yoga.
Predro Kupfer – Dicionário de Yoga; O Yoga de Pátañjali (artigo); Pratyáhára: o elo perdido do Yoga (artigo).
T.K.V. Desikachar – O Coração do Yoga.
Notas
[1] Sua figura é um mistério. Inúmeros são os autores que disseminam informações diferentes e contraditórias. Alguns afirmam que ele tenha vivido no Séc. II a.C.; outros que ele viveu entre os Sécs. II e VI d.C. Portanto, nesta introdução, nos propomos a falar especificamente de seu sistema codificado e não de sua figura mítica.
[2] Literalmente, fio, cordão, aforismo.. Prosa concisa e enigmática na qual aparece redigida uma grande parte dos textos filosóficos do hinduísmo.
[3] Ponto de vista. Este é o nome dado aos seis sistemas filosóficos do hinduísmo que explicam o sentido da existência, do ser humano e do cosmos.
[4] Veja Yoga-Sútras I: 24-28.
[5] A palavra guru é a junção da raiz gu que significa escuridão e ru que significa luz. Assim, o guru é àquele que leva o sádhaka da escuridão à luz. Embora o sádhaka, i.e. aquele que busca, deva percorrer sozinho o caminho da auto-realização, a orientação do guru é essencial para lhe mostrar o caminho e salvaguardá-lo de possíveis quedas.
[6] A relação entre guru e discípulo é um processo delicado. Existem requisitos a serem cumpridos de ambas as partes sem os quais a relação não é possível. Durante o processo de despertar espiritual o guru é a voz da consciência. Ele abre os olhos do discípulo para percepção consciente, pois o conhecimento existe, mas a ignorância (avidya) o encobre, e é o guru que remove este véu.
[7] Parámpará significa sucessão discípular, tradição, herança, linha sucessória. Este é o método iniciático – gupta vidyá, i.e. de caráter secreto – de conservação e transmissão oral de conhecimento passada de mestre a discípulo de geração a geração. O yogáchárya B.K.S. Iyengar enfatiza: A tradição entre o guru e o discípulo é muito antiga. Ela remonta aos períodos que antecedem a escrita. Todo aprendizado, transmitido de geração em geração, tem percorrido este caminho. O guru deve ser compassivo, mas exigente. O discípulo deve ser sincero e dedicado.
[8] Literalmente, ir junto. São as três últimas etapas do sistema óctuplo de Pátañjali: dháraná (concentração), dhyána (meditação), e samádhi (êxtase ou estado de hiper-consciência). Em outras palavras, poderíamos dizer que fazer samyama sobre um determinado objeto é praticar conjuntamente dháraná e dhyána de forma contínua, até se atingir o estado de samádhi, que é a culminação dos esforços do praticante.
[9] Veja Yoga-Sútras II: 18-19.
[10] Veja Yoga-Sútras I: 3, II: 20-21.
[11] Veja Yoga-Sútras I: 6.
[12] São as raízes profundas dos condicionamentos humanos e possuem caráter kármico e inato. São tendências subconscientes de caráter inato e hereditário. O samskára perpetua-se através das gerações por herança histórica, cultural e étnica, afetando assim todos os indivíduos.
[13] Veja Yoga-Sútras II: 21.
[14] Um dos três gunas ou estados da Natureza. Sattva é o equilíbrio, a leveza e a bondade.
[15] Veja o texto A Tradição Tântrica dos Nátha-Siddhas & a Culminação do Hatha-Yoga.
[16] Idem.
[17] Alguns textos tardios mencionam outras cinco proscrições morais ou éticas: I. compaixão (dayá); II. retidão ou integridade moral (árjava); III. Paciência (kshamá); IV. Constância ou a capacidade de se permanecer fiel aos próprios princípios (dhriti); V. dieta parca (mitáhára).
[18] Para falarmos de cada uma destas dez disciplinas que compreendem a prática de yama e niyama precisaríamos de um espaço maior. Fazê-lo no momento fugiria ao objetivo desta humilde introdução ao sistema de Pátañajali. Contudo, em uma próxima oportunidade abordaremos cada uma destas disciplinas meticulosamente.
[19] Pránáyáma significa a expansão e o domínio da bioenergia corporal através de exercícios respiratórios. A palavra deriva-se de dois termos: prána (energia vital) e áyáma (extensão, intensidade, propagação). Assim, em termos gerais, pránáyáma é o processo através do qual expande-se e intensifica-se o fluxo da energia vital no interior do corpo. Ainda, a palavra conecta-se com yama (controle, domínio). Assim, nós podemos dizer que pránáyáma também é o domínio da energia vital pela técnica dos exercícios respiratórios. Esta energia vital é responsável por todas as experiências, incluindo a vida física e espiritual. Os pránáyámas harmonizam os canais prânicos do organismo, uma rede de canais que transportam a energia vital para todas as células e órgãos, infundindo-los com vida e dinamismo. Sua prática constante coloca em funcionamento – ao mesmo tempo que harmoniza – todos os cakras (centros psíquicos), o que é fundamental para a perfeição nas técnicas tântricas de Krya e Kundaliní Yoga.
[20] O termo pode ser compreendido como vida ou energia vital. Ela possui cinco manifestações distintas: prána, apána, samána, udána e vyána.
[21] A prática da disciplina e do auto-controle moral, bem como as técnicas de recolhimento dos sentidos e a concentração mental são formas de regular a energia vital. A alimentação, o sono, e as purificações também são fatores importantes na regularização prânica.
[22] Pránáyáma não é simplesmente uma técnica de exercícios respiratórios, assim como o prána não é simplesmente o ar ou a atitude de respirar. Nós podemos dizer que a respiração é o aspecto externo, uma forma de manifestação do prána, o qual é a energia vital que penetra e sustenta todas as formas de vida. O pránáyáma é, por sua vez, uma técnica de extensão do prána no organismo do yogi e é através de suas técnicas que os yogis procuram influenciar o campo bioenergético.
[23] Guru, mestre. Lit. aquele que ensina pelo exemplo.
[24] As seis ações. São o grupo de técnicas de purificação do corpo físico ensinadas no Hatha Yoga Pradípiká.
[25] Contrações de plexos, nervos, órgãos e glândulas que funcionam como interruptores do fluxo energético no corpo. Quatro tipos de bandhas são importantes: jalándhara, uddiyana, múla e jíhva bandha. Através destas contrações o yogi força o váyu (ar vital) apána a ascender e o prána a descer, confluindo ambos na altura do umbigo.
[26] Disponível em: http://www.yoga.pro.br/artigos.php?cod=125&secao=3022 .
[27] O processo de supressão (nirodhah) possui três níveis: a. vrttiniridhah – a supressão das cinco categorias de atividade mental grosseira durante a meditação que foram mencionadas acima; b. pratyayanirodhah – a supressão das idéias apresentadas (pratyaya) nos diversos tipos de êxtase consciente (samprajñáta-samádhi); e c. samskáranirodhah – a supressão dos ativadores subliminares do êxtase supraconsciente (asamprajñáta-samádhi).
[28] Citta vrtti.
[29] Pátañjali enumera cinco causas de citta vrtti que criam dor (kleshas): 1. Avidyá (ignorância); 2. asmitá (o ego, a sensação de individualidade que caracteriza uma pessoa e a distingue de um grupo); 3. rága (o apego); 4. dvesha (aversão); e 5. abhinivesha (amor ou ânsia pela vida, o apegar-se instintivamente à vida humana e aos prazeres físicos e o temor de ser afastado de tudo isso pela morte). Estas causas da dor ficam submersas na mente do sádhaka. Elas são como icebergs que somente mostram sua ponta, quando mostram. Enquanto não forem estudadas, controladas e erradicadas, a paz não reinará. Quando a mente está calma, a beleza e transcendência do Ser é refletida nela. O yogi acalma sua mente pelo constante estudo e prática, libertando-se dos desejos. Veja o artigo Os Kleshas.
[30] Pátañjali no Yoga-Sútras I: 17 ainda enumera outros tipos de experiência extática: vitarká-samádhi; vichará-samádhi; ánanda-samádhi; e asmitá-samádhi. Contudo, Vijñána Bhikshu, um dos maiores comentaristas do Yoga-Sútras, define estes termos como meramente técnicos, utilizados para definir pequenos nuances destas experiências acima mencionadas.
[31] Derivada da palavra kevala, i.e. “conservar-se distante”, o termo kaivalya é traduzido como `isolamento´, `reserva´ ou `silêncio´.
[32] Veja Yoga-Sútras II: 21.
[33] Pátañjali, contudo, não parece concordar com este ponto de vista em seu Yoga-Sútras. De acordo com o Yoga-Clássico a libertação implica na perda do veículo físico. Para ele, a jóia de apego do yogi está em separar-se completamente dos ciclos da Natureza, o mundo material (prakriti), identificando-se tão somente com o Ser sem atributos.
Shiva Samhita – Coleção de Ensinamentos de Shiva
A Shiva Samhita e o Hatha Yoga.
O nome Shiva Samhita significa em sânscrito “Coleção [de Ensinamentos] de Shiva”. É um texto em 540 estrofes sobre Hatha Yoga datado do século XVII desta era. Essas 540 estrofes, compostas na métrica chamada trishtubh, estão divididas em cinco capítulos, chamados patalas. A obra está composta na forma de um diálogo entre o deus Shiva e sua esposa Parvati, no qual o deus-yogi ensina as práticas do Hatha para sua consorte (detalhe que demonstra que, contrariamente à crença em voga em alguns círculos de Yoga da atualidade, esta prática era tanto para homens quanto para mulheres naquela época, assim como nas anteriores).
Este livro tem “apenas” 300 anos de idade, mas resgata práticas muito anteriores a ele. Assim como a Gheranda Samhita, cita copiosamente o mais antigo manual de Hatha que chegou até a atualidade, a Hatha Yoga Pradipika, bem como algumas das Upanishads do Yoga e um importante texto de Vedanta, atribuído a Adi Shankaracharya, chamado Atma Bodha.
O primeiro capítulo apresenta as noções filosóficas sobre as quais se apoia este sistema, claramente baseadas nos ensinamentos do Advaita Vedanta, a maior e mais influente escola de filosofia não-dualista da Índia. O autor nos exorta a percebermos a unidade que permeia a criação, à qual todos nós estamos inextrincavelmente ligados, bem como a percebermos e compreendermos a verdadeira natureza da realidade, oculta sob o véu de maya, a ilusão.
O segundo patala versa sobre a estrutura do corpo sutil. O terceiro capítulo contém as técnicas de asana e pranayama. O quarto, ensina as práticas de mudra, os selos energéticos, e inclui uma detalhada e insólita técnica de reabsorção seminal prescrita para evitar a perda do sêmen durante a cópula, chamada vajrondi mudra. O quinto e último capítulo, que é o mais extenso, versa sobre os chakras, centros de energia no corpo sutil, bem como sobre quatro formas de Yoga: Mantra, Hatha, Laya, e Raja Yoga, e seus diferentes métodos.
Hatha e Raja Yoga como caminhos complementares
Chegando no final do último capítulo, o autor retoma uma idéia já presente na Hatha Yoga Pradipika: a de que Hatha e Raja Yoga são interdependentes e complementares:
“O Hatha Yoga não pode ser obtido sem o Raja Yoga, nem o Raja Yoga pode ser obtido sem o Hatha Yoga. Portanto, o yogi deverá, primeiramente, aprender o Hatha Yoga das instruções de seu sábio mestre”. V:182.
Compare o leitor a frase acima com a afirmação da Hatha Yoga Pradipika: “Saúdo o Primevo Senhor, Shiva (Adinatha), que ensinou o conhecimento do Hatha Yoga a sua esposa Parvati. Este conhecimento, como uma escada, conduz ao elevado Raja Yoga”. I:1.
Tipos de praticantes de Yoga (sadhakas).
“O Yoga é de quatro tipos: primeiro, vêm o Mantra Yoga; em segundo lugar, o Hatha Yoga, em terceiro, o Laya Yoga e, em quarto lugar, o Raja Yoga, que elimina as dualidades”. V:9.
O autor afirma que nem todas as formas de Yoga são adequadas para todas as pessoas: “Os praticantes são de quatro tipos: [aqueles cuja intensidade é] suave, moderada, ardente e muito ardente. [Este último tipo,] o melhor, pode cruzar o oceano do mundo [das aparências]”. V:10.
A continuação, descreve a motivação e as características de cada um desses tipos de praticante, indicando, em função dessas características, o tipo de prática mais adequado para cada um:
“Pessoas de mente estreita, distraídas, adoentadas, que questionam os ensinamentos do mestre, homens avarentos, que agem de modo incorreto, glutões, demasiadamente apegados a suas esposas, tímidos, doentes, não independentes, carentes e cruéis, aqueles de mau caráter e os fracos, todos esses são considerados praticantes [de motivação] fraca. Com grande esforço, tais pessoas alcançam o sucesso na prática em doze anos. Estes devem ser considerados aptos para a prática de Mantra Yoga”. V:11.
“Pessoas de mente aberta, compassivas, amantes da virtude, eloqüentes. Aqueles que sempre evitam os extremos, são os praticantes de motivação média. Estes, devem ser iniciados pelo mestre no Laya Yoga”. V:13.
“Pessoas de mente firme, versadas no Laya Yoga, independentes, cheias de energia, magnânimas, cheias de simpatia, que sabem perdoar, verdadeiras, corajosas, cheias de confiança [no mestre e no ensinamento], adoradoras dos pés de lótus de seus Gurus, sempre comprometidas na prática de Yoga, tais pessoas são consideradas praticantes ardentes (adhimatra). Eles obtêm sucesso na prática de Yoga em seis anos, e devem ser iniciados no Hatha Yoga e seus diversos ramos”. V:14.
“Aqueles que tiverem o maior caudal de energia, com iniciativa, comprometidos, heróicos, conhecedores das escrituras, perseverantes, livres dos efeitos das emoções cegas, que não se deixam confundir, cheios de disposição, moderados em sua dieta, que dominam seus sentidos, destemidos, limpos, hábeis, caridosos, bem dispostos para ajudar o próximo, competentes, firmes, talentosos, que cultivam o contentamento, que sabem perdoar, que são de boa índole, devotos, que sabem manter seus objetivos em segredo, eloqüentes, pacíficos, que têm confiança nas escrituras e adoram Ishvara e o guru, que têm aversão a desperdiçar seu tempo e são livres de doenças, que conhecem os deveres do adhimatra e praticam todos os Yogas. Sem dúvida, tais praticantes obtêm o êxito na prática em três anos. [Estes são considerados os mais ardentes, e] estão capacitados para serem iniciados em todas as formas de Yoga, sem dúvida”. V:15.
Para quem é a prática de Hatha Yoga?
O leitor pode considerar as exigências e qualidades que se esperam do praticante ideal um tanto exageradas. Porém, o fato é que a maior parte das condições aqui listadas são essenciais para ter-se sucesso na prática. Mesmo se para o praticante da atualidade for difícil de aceitar isso, desde o tempo das Upanishads o caminho do Yoga sempre foi descrito como um caminho estreito e difícil. Aliás, desde o início dos tempos o Yoga foi considerado um caminho para muito poucos, como a própria Shiva Samhita aponta numa outra passagem:
“Este Yogashastra aqui exposto é uma doutrina muito secreta, que deverá somente ser revelada nestes três mundos ao devoto de alma elevada”. I:19.
Pela afirmação acima, podemos deduzir que o ensinamento aqui contido não se destina a qualquer um, nem é para iniciantes. Pelo menos, segundo os autores destes textos antigos. Se o praticante não estiver preparado para cultivar as virtudes anteriormente listadas, que são condições sine que non para se fazer merecedor e receber o ensinamento do Yoga, seja do tipo que for, este ficará sempre fora do alcance dele.
Condições para se ter sucesso na prática.
“O yogi deve renunciar ao seguinte: 1. alimentos ácidos, 2. adstringentes, 3. substâncias pungentes, 4. sal, 5. mostarda, e 6. alimentos amargos. 7. Andar demasiado, 8.. tomar banho antes do amanhecer, e 9. alimentar-se com frituras. Ele deve evitar: 10. roubar, 11. matar [até mesmo animais], 12. cultivar inimizades, 13. o orgulho, 14. a ambigüidade e 15. a desonestidade. Igualmente, deve evitar 16. jejuar, 17. mentir, 18. pensamentos alheios à libertação dos condicionamentos (moksha), 19. crueldade em relação aos animais, 20. companhia de mulheres, 21. ficar demasiado perto do fogo, 22. falar demais, sem medir as conseqüências das próprias palavras e, finalmente, 23. comer demais”. III:33.
O Yoga
O Yoga
Om Nath Uttara Kula Kaula Namah!
O Yoga é uma antiga e completa ciência espiritual que evoluiu a partir das civilizações do Vale do Indo através de milhares de anos, sendo desenvolvida por estudos e por experiência interior ao longo de uma corrente ancestral de mestres iluminados.
É muito difícil determinar o nascimento do Yoga. Nós poderíamos dizer que sua origem pode ser rastreada nos primórdios dos tempos no berço da civilização, a Índia. Como uma disciplina espiritual, sobretudo prática, o Yoga sobreviveu às brumas do tempo por anteceder a qualquer sistema filosófico.
Estatuetas e sinetes de esteatite representando entidades femininas e masculinas como Kali e Shiva, o protoyogi itfálico, sentado em ásana meditativa, apontam rastros desta estrutura espiritual dentre os povos considerados o berço do Tantra[1] e do Yoga.
Quando o primeiro homem tentou compreender a Natureza (Prakiti) e suas manifestações, quando se iniciou a necessidade da busca e do auto-aperfeiçoamento a fim de se chegar à essência do Ser (Purusha), nasceu o Yoga, uma tecnologia espiritual capaz de dotar seu adepto de capacidades que, antes latentes, agora o levam ao desenvolvimento de todos os diversos níveis de consciência. Assim o Yoga nasce da compreensão adquirida de todas as manifestações externas da natureza e suas influencias subjetivas sobre a consciência humana.
Como uma arcaica tecnologia espiritual, anterior à codificação de sistemas filosóficos, o Yoga é um caminho de integração com a própria consciência. Como uma metodologia sistematizada, o Yoga oferece o néctar (amrita) que aplaca a sede de conhecer a si mesmo. A recompensa é o estado de não condicionamento (samádhi). A prática deste sistema eliminou a distância entre o sagrado e o profano. Ademais, a profunda introspecção decorrente desta prática espiritual levou os primeiros protoyogis a descobrir em si mesmos o Ser e a Natureza (Purusha & Prakiti). O Purusha representa a força cognitiva capaz de visão e percepção real do universo e que não está sujeito a mudanças. Prakriti, a energia manifestada, está sujeita a constantes mudanças, e abrange toda matéria, incluindo a mente e seus pensamentos, sentimentos e memórias. Yoga, como união, é assim a metodologia prática que nos permite desvendar o estado interior em que estas duas forças, também conhecidas pelos nomes de Shiva & Shakti no Tantra, se unificam.
A palavra Yoga possui muitos significados como juntar, unir, amarrar os cordões da mente. Mas outros significados singulares são importantes, tais como atingir o que era antes inatingível ou um estado de constante mudança. Assim, se nos embasarmos na Tradição do Yoga encontraremos inúmeros significados importantes que conceitualizam a palavra. Contudo, o Yoga é aquele estado consciente onde toda ação é acompanhada de perfeita atenção. A prática do Yoga cria um estado que nos capacita a estarmos sempre presentes em nós mesmos, em todos os momentos atentos a nossas ações.
Embora o Yoga seja anterior a qualquer sistema filosófico, ele sobreviveu a todos os cultos e sub-cultos originados da Índia e países próximos. Muitos cultos, seitas e religiões utilizaram sua filosofia especulativa para sistematizá-lo, bem como se valeram do Yoga como fundamento prático para suas especulações. Dentre as Tradições que se valeram do Yoga nós podemos destacar o Tantra, os Nathas Siddhas, o Vedánta, o Sámkhya, o Jainismo, o Budismo e etc.
Assim, não é possível determinar, de forma alguma, se uma ou outra tradição detém os verdadeiros princípios do Yoga. Embora a estrutura do Yoga esteja intimamente ligada ao Vedánta ou ao Tantra como hoje conhecemos, consideramos a Tradição do Yoga em si inerente a qualquer sistema, portanto aplicável a qualquer um. Em outras palavras, poderíamos dizer que da mesma maneira que diferentes pérolas de um rosário estão ligadas entre si por um único fio, da mesma forma todas as diferentes tradições, do Vedánta ao Tantra, estão ligadas pelo Yoga. O Yoga é o aspecto prático subjacente de todas as tradições espirituais que nasceram no seio da Índia, uma vez que conduz ao reforço da sensibilização e a realização das convicções pessoais.
Como enfatizado acima, o Yoga é um sistema prático de busca espiritual e auto-transcendência. Seu escopo integral é deveras incompreensível para a mente. Portanto, por maiores que forem os esforços em direção ao estudo da tradição ela somente será compreendida em essência na prática. Esta prática não se limita a técnicas psicofisiológicas como os ásanas e pránáyámas do Hatha Yoga, mas uma integralidade de todas as faculdades do Ser. O Yoga é a própria vida pulsando dentro de cada sadhaka. No Yoga Sútras de Patañjali, II:26, está escrito: vivekakhyátiraviplavá hánopáyah, i.e. discernimento constante é o meio para se destruir a ignorância. Este discernimento é a lucidez ou o estado de consciência plena abordado anteriormente. No Bagavad Gítá II:50 encontramos: Yogah karmashu kaushalam, i.e. Yoga é a perfeição na ação. É a mesma abordagem filosófica, dita em outras palavras. Quando o sadhaka se encontra plenamente consciente, fazendo de sua vida diária uma sacralização espiritual, mantendo-se firme na prática contínua e constante da execução da plena atenção, isso é Yoga. Isso é integração.
Toda tradição espiritual passa por diversas modificações no curso de sua evolução. Inúmeros são os mestres que lhe acrescentam novos pontos de vista e novas práticas segundo suas próprias experiências. Com o Yoga não foi diferente. Embora em essência a Tradição do Yoga permaneça imutável, repousa em seu seio mestres que contribuíram para o crescimento e a difusão do Yoga e seus novos sistemas, cada um adequado a um tipo de pessoa.. O resultado disso é o que vemos hoje. Atualmente as pessoas praticam Yoga para o benefício da saúde física e mental, para adquirir concentração, tranqüilidade e experiências espirituais. Existe uma grande variedade de caminhos no Yoga que servem para atender diferentes necessidades humanas e os mais diversos temperamentos, assistindo assim a todos no caminho da liberação de todo o potencial humano, da criatividade e da libertação espiritual.
No ocidente o ramo mais conhecido e difundido do Yoga é o Hatha Yoga.[2] Este é um método de Yoga desenvolvido como uma parte da Tradição Tântrica que existiu na Índia 10 000 anos atrás. Como citado acima, artefatos arqueológicos na forma de estatuetas demonstravam o Senhor Shiva em postura meditativa. Estes artefatos foram encontrados em escavações de ruínas arqueológicas no Vale do Indo em Harappa e Mohenjodaro (atual Paquistão). Estas ruínas foram uma vez o lugar de morada de povos que viviam em eras pré-védicas antes do florescimento da civilização ariana na Índia. De acordo com a tradição mítica, Shiva[3] é considerado o fundador do Yoga e Parvati, sua primeira discípula.
O Senhor Shiva é comumente considerado o símbolo e a incorporação da Suprema Consciência. Parvati representa o Supremo Conhecimento, Vontade e Ação, além de ser responsável por toda criação. Esta força ou energia também é conhecida pelo nome de Kundaliní Shakti, a força cósmica que jaz latente e adormecida em todos os seres. Parvati ainda é considerada a mãe de todo o universo. A alma individual encarna no mundo das formas e é liberada de sua escravidão através de sua graça. No amor de sua compaixão para com seus filhos ela comunica seu conhecimento secreto de libertação através do Tantra. O Hatha Yoga deriva suas técnicas do Tantra e ambos não podem ser separados, assim como a Consciência, Shiva, não pode ser separada da Energia, Shakti.
A palavra Tantra é a combinação de duas palavras: tanoti e trayati, que significam expansão e liberação respectivamente. Portanto, esta é a ciência da expansão da consciência e da liberação da energia. O Tantra é o caminho para se obter a liberdade da escravidão do mundo enquanto se vive nele. O primeiro passo no sádhana tântrico é conhecer as limitações do corpo e da mente. O próximo passo são as técnicas que irão expandir a consciência e liberar as energias enquanto as limitações pessoais são transcendidas e a mais alta Realidade é experienciada. O princípio unificador por trás dos inúmeros sistemas de Tantra é que o mundo material e suas experiências podem ser utilizadas para atingir iluminação. O hathayogi que segue a via tântrica não procura desapegar-se do mundo fenomenal apoiando-se sobre as forças do intelecto. Ao contrário, seu propósito é a transmutação de toda a natureza a partir de sua forma mais grosseira, o corpo físico.
Por volta dos Sécs. VII e XII d.C. houve um grande alvoroço em torno do corpo de diamante ou corpo plenamente realizado. Este movimento culminou no Culto dos Natha Siddhas. Os siddhas eram os adeptos realizados do Tantra que alcançaram a perfeição, i.e. os siddhis. O tântrico adepto siddha trabalha sobre a matéria prima em seu estado mais bruto, o corpo físico, transmutando-a na essência espiritual corporificada. Este processo de cultivo do corpo ou káya-sádhana foi à necessidade tântrica de se espiritualizar o corpo e corporificar o espírito. Aqui nasceu o Hatha Yoga.
A escola mais importante do movimento siddha que fora fator fundamental na revolução pan-indiana dos ensinos espirituais do hinduísmo foi à Tradição dos Nathas Yogis. Esta escola foi fundada por Matsyendranatha,[4] embora o Senhor Shiva, como Adi-Natha, seja considerado o verdadeiro patrono desta escola. Por muitas tradições Matsyendranatha é considerado uma encarnação de Shiva. Contudo, é a Gorakshanatha que a fundação do Hatha Yoga é atribuída. Ele escreveu o famoso tratado chamado Hatha Yoga (hoje perdido), cujo Hatha Yoga Pradípiká é dito se basear.
Finalmente, em níveis práticos, o Hatha Yoga equilibra e harmoniza o corpo, a mente e as emoções. Este estado pode ser alcançado através da prática de ásanas (posturas físicas), pránáyámas (controle do alento), mudrá e bandha (técnicas psicofísicas de liberação da energia vital), shatkarma (limpeza interna), bem como uma grande variedade de técnicas de meditação. Através do Hatha Yoga as limitações da vida podem ser transcendidas; habilidades podem ser desenvolvidas e uma maior eficácia nas ações podem ser conquistadas, o que resulta na expressão dos mais elevados níveis de criatividade e potencialidade humana.
Om Namah Shivaya!
Anuttara Kápilanath Kulácaryá
[1] Embora o Tantra seja um movimento particularmente recente, datado do Séc. IV d.C., traços de sua arcaica manifestação foram encontrados no neolítico (8000 a.C.), e muitos de seus símbolos são datados do paleolítico (20 000 a.C.).
[2] Método de Yoga Tântrico surgido por volta dos Sécs. IX-XII que almeja o despertar da Kundaliní pelo esforço físico extremo. Hatha (`esforço violento´ ou `força´) é derivada de duas raízes: ha, sol, e tha, lua. Aqui notadamente aparece a presença tântrica: a integração das forças lunar e solar, feminina e masculina; portanto a transcendência a partir desta união (Yoga) é o objetivo do Tantra. O surgimento do Hatha Yoga é atribuído a Gorakshanatha, asceta da linhagem dos Nathas Siddhas e principal discípulo de Matsyendranatha, fundador da Escola Yogini Kaula, a linhagem shakta da Tradição Kaula.
[3] Veja abaixo.
[4] A postura matsyendrásana leva seu nome em sua homenagem.
Em busca de um instrutor
Eloisa Vargas
Estar “em forma” na ótica da ginástica é uma coisa bem diferente
do “estar em forma” na visão do Yoga. Yoga não é ginástica e isto
deve ser entendido antes de começar. Existem mil maneiras de
praticar a parte física do Yoga mas nenhuma destas maneiras é
ginástica.
Se você pretende praticar o Yoga de uma forma verdadeira, certifique-
se de que o instrutor que você escolheu é a pessoa capacitada para
orientá-lo neste contexto.
Se você é iniciante e quer aprender , deve procurar um instrutor de
Yoga que ensine as poses (ásanas) na forma ou estilo que mais
sintonize com você pois os estilos são muitos. Faça algumas aulas
para aprender as poses e os fluxos. Se o instrutor não for bom no
suporte filosófico, e você se interessa por esta área, leia sobre o
assunto, busque, pesquise. Procure trocar de instrutor até que
descubra aquele que será o melhor para você.
Saiba que muitas vezes o nome Yoga é usado para coisas que nem sempre
condizem com os princípios do Yoga. O fato das academias oferecerem
esta prática como uma “ginástica diferente” ou como uma alternativa
para os que enjoaram da malhação pura e simples, por um lado ajuda a
trazer uma imagem de um Yoga mais dinâmico, mas por outro, acaba por
corromper a sua essência.
Mas ainda assim acredito que isto não seja motivo suficiente para que
se estabeleça um sistema de fiscalização oficial no Yoga pois apesar
destes enganos, a pessoa que nasceu para o Yoga sabe a diferença e
não compra gato por lebre. Alguns perdem um pouco de tempo pelos
caminhos errados mas um dia, encontram um instrutor sincero com o
qual se harmonizam dentro do estilo que lhes é mais apropriado.
Embora não haja motivos suficientes para que esta prática
seja “fiscalizada”, creio que existe uma forte tendência à abertura
de núcleos de ensino para formação e apoio aos instrutores dentro dos
princípios básicos da essência do Yoga.
Estes princípios são simples e não devem ser objeto de puro
intelecto uma vez que Yoga é simples, não está vinculado a nenhum
sistema de crenças e nem mesmo exige que se estude a sua filosofia
uma vez que é, essencialmente, uma questão de prática. Nenhuma
corrente filosófica serve de suporte ao Yoga e sim, o contrário.
Pattabhi Joes refere-se ao lado teórico filosófico do Yoga com grande
sabedoria quando postula o seguinte:
” Yoga é noventa e nove por cento prática e um por cento teoria. Para
aquele que não pratica, a teoria é inútil, para aquele que pratica,
ela é óbvia.”
Creio que a preocupação fundamental na transmissão do Yoga por parte
dos instrutores dos ramos derivados do hatha yoga deverá basear-se em
dois pontos:
1) Fazer com que o aluno entenda que Yoga não é ginástica e não é
terapia, embora o faça como conseqüência e não como objetivo.O
objetivo único do Yoga é a iluminação.
2) Trabalhar intensamente na correção da postura e dos
desalinhamentos que provocam desequilíbrios a fim de que os asanas
sejam praticados com perfeição.
Para que o aluno entenda que Yoga não é ginástica, existe o Astanga
Yoga de Patanjali – o código de ética e prática do Yogue que deverá
ser mostrado e compreendido na experiência viva do momento da
prática. No Hatha-Yoga-Pradîpikâ (4.102), o mais popular manual dessa
escola, este item é esclarecido na seguinte citação:
” Todos os meios do Hatha Yoga têm como fim a aquisição da perfeição
no Râja-Yoga. “
Para que possam corrigir sua postura e adquirir alinhamento e
equilíbrio, é necessário que o instrutor conheça e aplique leis da
biomecânica até que o aluno adquira a habilidade de descobrir o
equilíbrio e o alinhamento através da ação inteligente e natural do
próprio corpo.
Em hatha yoga, que é o caminho do Yoga que utiliza o corpo como base
para a iluminação, o alinhamento perfeito será desenvolvido
naturalmente através do treinamento, dedicação, paciência e
perseverança. Com o tempo e a prática, este trabalho físico através
dos asana começa a atingir a mente abrindo caminho para a consciência
do espírito. Embora todos fiquem “em forma” externamente, não é este
o objetivo. O que se chama de “boa forma”, saúde etc., é apenas
condição para outras coisas que são a essência do Yoga.
O instrutor que segue os preceitos básicos do Yoga será abençoado
pelos mestres ancestrais e jamais desvirtuará ou corromperá a
prática. Esta é a ética da transmissão de um conhecimento ancestral
que bem sabemos, em parte, é herança kármica e que por isto, está
muito longe de ser compreendido ou administrado através de leis
humanas. E é por isto que o verdadeiro Yoga deverá continuar livre de
qualquer fator que possa restringi-lo ou tentar aprisioná-lo em um
conjunto de regras, direitos e deveres. Isto não é necessário e o
praticante sincero sabe disto.
Acredito que existe um princípio de troca na “transmissão do
conhecimento do Yoga” e é dentro deste princípio que pratico e
ensino: se você respeita as bases do Yoga, os mestres ancestrais
estarão contigo e te ajudarão a transmitir o que pode e deve ser
transmitido. Acredito ser esta uma função kármica e que o instrutor
não pode tentar fazer disto, apenas uma profissão. Penso que seja um
grande erro e com conseqüências sérias a manipulação do Yoga através
de leis e regulamentações. Uma faculdade jamais poderá produzir um
yogi e sei que todo o instrutor honesto há de concordar neste ponto.
Quando ensinamos, não estamos à serviço de nada a não ser do próprio
Yoga. Se cumprirmos e honrarmos nossa obrigação , as energias dos
mestres ancestrais nos guiarão pois estarão sempre ao nosso lado.
É difícil tentar abordar este assunto por este ângulo
considerado “místico” numa época onde grande parte dos instrutores,
responsáveis pela transmissão desta sabedoria milenar, tornam-se
materialistas ao ponto de tentarem transformar o Yoga em objeto de
consumo.
Mas saiba que o verdadeiro Yoga não está perdido e você poderá
reconhecê-lo não através da mídia e nem de prédios e aparatos
elegantes que abrigam as escolas atuais. O verdadeiro Yoga está
presente no desapego, na humildade e na sinceridade daqueles que o
transmitem e praticam e esses valores são verdadeiros e
incorruptíveis.
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