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Abril 2, 2009 at 3:05 pm (Cultura Indiana, Filosofia do yoga, Hatha Yoga, Uncategorized)

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Origens do Yoga – Georg Feuerstein

Dezembro 28, 2008 at 11:34 pm (Cultura Indiana, Filosofia do yoga, Hatha Yoga)

O Yoga Arcaico: Os muitos textos do que se pode chamar de “Yoga Arcaico” ou “Yoga Védico” são os próprios quatro Vedas – Rig-Veda, Yajur-Veda, Sáma-Veda e Atharva-Veda – e os textos rituais dos Brahmanas e Áranyakas, baseados nos quatro hinários. O Rig-Veda, que um número cada vez maior de eruditos já data do terceiro e do quatro milênios a.C., é uma impressionante coletânea de hinos compostos por videntes (rishi) cujo olhar interior atravessava o mundo visível (material) e penetrava os mundos invisíveis (sutis). Por milhares de anos essa grande obra foi transmitida oralmente com toda fidelidade até ser por fim escrita, no século XIV. A correta recordação dos hinos exigia uma memória incrível – arte em que todos os povos antigos parecem ter se superado. Como o Rig-Veda representa a parte mais sagrada de todo o cânone dos textos sagrados hindus, os brahmins guardavam-no cuidadosamente dos olhos e ouvidos dos não-iniciados. Com efeito, foi só no século XIX que estrangeiros puderam lê-lo. Nessa época, até mesmos os brahmins já haviam se esquecido do sentido de certas palavras arcaicas e em grande medida ignoravam o significado mais profundo dos mais de dez mil versículos desse hinário.Por meio dos esforços da erudição moderna, cujos pioneiros foram grandes estudiosos europeus como Paul Deussen e Max Muller, o significado do Rig-Veda tem sido redescoberto aos poucos. Esse trabalho de resgate ainda não terminou. Com efeito, o sentido mais profundo do Rig-Veda e dos outros hinários ou “coletâneas” (samhitá) védicas ainda está, em grande parte, perdido para nós. Esse fato foi posto em evidência por Sri Aurobindo, pai do moderno Yoga Integral, que aplicou o seu profundo conhecimento de Yoga à interpretação da herança védica.

O Yoga Pré-Clássico: Os ensinamentos do Yoga Pré-Clássico sucederam aos Vedas (c.4500-2500 a.C.) mas precederam o famoso Yoga-Sútra de Patañjali (c.100-200 d.C), que veio a ser reconhecido como a expressão filosófica clássica do Yoga. Os textos da era pré-clássica ensinam diversas versões do Sámkhya-Yoga, segundo o qual a realidade última é única e singular, mas se manisfesta em sucessivos níveis de existência que terminam com o cosmo físico que conhecemos. Essa idéia já se encontra no Rig-Veda, mas está desenvolvida em toda a sua plenitude nas Upanishads. Nessas escrituras sagradas de caráter esotérico, encontramos pela primeira vez uma enunciação clara das doutrinas do não-dualismo (advaita) combinadas às do emanacionismo: universo da multiplicidade emana em estágios definidos da Singularidade transcendente. Com o tempo, isso conduziu á forma clássica do Sámkhya (que mapeia os estágios desse processo de emanação e as diversas categorias a que se dá origem). Conquanto os primeiros Upanishads, como o Brihad-Áranyaka, o Chándogya e o Taittirîya-Upanishad, não usem ainda o termo yoga no sentido técnico que adquiriu posteriormente, eles pressupõem evidentemente uma familiaridade com a disciplina espiritual que esse termo veio a significar em épocas posteriores.O mais antigo texto desse gênero que conhece a palavra yoga em seu sentido técnico é o Katha-Upanishad, composto na era pré-budista. Esse texto delineia as práticas e idéias principais do Yoga. Existem várias traduções razoavelmente confiáveis desse Upanishad, especialmente as de S. Radhakrishnan e R.E. Hume, bastante fáceis de se obter. Como esse texto, à semelhança de tantos outros textos do Yoga e do Vedánta é às vezes um pouco obscuro, os estudiosos podem consultar também o livro perspicaz de Krishna Prem. Enquanto se trabalha com o Katha-Upanishad, convém estudar também o Shvetáshvatara-Upanishad e o Maitráyaníya-Upanishad, ambos um pouco mais novos e que, portanto, evidenciam o estágio seguinte na evolução do Yoga. Também neste caso, as traduções de Radhakrishnan e Hume são bons pontos de partida. O texto principal do Yoga Pré-Clássico é o Bhagavad-Gitá, tão lido e conhecido, que constitui o “Novo Testamento” do Hinduísmo. Poucas pessoas sabem que ele é tradicionalmente considerado um Upanishad, ou seja, uma doutrina secreta que foi revelada e não composta por um indivíduo humano. Tecnicamente, o Gitá faz parte do Mahábhárata, que é uma das duas grandes epopéias nacionais da Índia. Embora existam diversas traduções desse belo texto, algumas dentre as mais populares deixam muito a desejar. Posso recomendar as versões de Sarvepalli Radhakrishnan e de Krishna Prem (que escreve do ponto de vista de um praticante). Quem quiser conhecer um excelente comentário posterior (poético e yogue) sobre o Gitá pode consultar o Jnáneshvará de Jñánadeva, do século XIII, que é uma verdadeira jóia. Foi composto em língua márati e está disponível agora numa tradução inglesa confiável e legível, de autoria de V.G. Pradhan. Para realmente compreender o Gîtâ, os estudiosos devem, sem sombra de dúvida, familiarizar-se com o contexto cultural e histórico mais amplo no qual surgiu. Também há textos pré-clássicos contidos em outras seções do Mahábhárata. São exemplos o Moksha-Dharma e o Anu-Gitá. Infelizmente, essas sessões não são facilmente acessíveis, embora os estudiosos possam compulsar o The Beginnings of Indian Philosophy de F. Edgerton, que traz excertos do Moksha-Dharma. Essa seção inteira e também o Anu-Gitá que foram traduzidos com o restante da epopéia por K.M. Ganguli e também M.N. Dutt. À semelhança do Mahábhárata, também a epopéia do Rámáyama trata, sobretudo de ensinamentos que giram em torno do valor fundamental do dharma, ou seja, da moral e da conduta virtuosa. Além disso, apresenta ensinamentos yogues sob a denominação de tapas, “ascese”.

O Yoga Clássico: A doutrina do Yoga Clássico está codificada no breve Yoga-Sútra de Patañjali e nos vários comentários a esse texto, escritos em sânscrito. O Yoga Clássico é chamado yoga-dárshana, o sistema filosófico ou ponto de vista do Yoga. Existem muitas paráfrases mas poucas boas traduções da obra de Patañjali, que é difícil de entender, pois pressupõe uma certa quantidade de conhecimento do pensamento e da cultura indiana. Não obstante, o estudo desse texto pode ser extremamente compensador. Foi isso que eu fiz com meus alunos num curso de uma aula por semana que durou nove meses, e eles evidentemente tiravam bom proveito desse exercício, tanto no que diz respeito à compreensão do sistema de Patañjali quanto à teoria e a prática do Yoga em geral. A tradução de James H.Wood é boa, posto que um tanto técnica; inclui também os dois principais comentários em sânscrito, o de Vyása e o de Vácaspati Mishra. Do ponto de vista prático, há também o The Essence of Yoga de Bernard Bouanchaud e, de B.K.S. Iyengar, o Light on the Yoga Sútras of Patañjali e o Light on Ashtanga Yoga. Para quem quiser ler um estudo erudito que defende uma interpretação não-dualista do Yoga-Sútra, (The Integrity of the Yoga Dar’sana de Ian Whicher). Muitos comentários sobre o Yoga-Sûtra foram escritos em sânscrito, e todos são bastante técnicos. Outros dois importantes comentários em sânscrito estão disponíveis em língua inglesa: o Yoga-Várttika de Vijñána Bikshu, habilmente traduzido por T.S. Rukmani, e o Yoga-Bháshya-Vivarana de Shankara Bhagavatpáda, traduzido independemente por T.S. Rukmani e Trevor Legget. Shankara foi o grande expoente do Vedânta Advaita (não-dualista), é um texto fascinante que contém muitas idéias originais.

O Yoga Pós-Clássico: O Yoga Pós-Clássico manisfesta-se num grande número de textos das seguintes categorias:

• A literatura tântrica, vasta e altamente esotérica, inclui os Ágamas, os Tantras e os Shástras, bem como a vasta literatura do Shaivismo da Caxemira e do Shaiva-Siddhânta do Sul da Índia, além dos escritos dos Siddhas em tamil. Dentre os Tantras propriamente ditos, os praticantes de Yoga devem estudar pelo menos o Kula-Arnava-Tantra e o Mahánirvána-Tantra, mais recente mas bastante significativo. Obra importante, escrita não em sânscrito mas em tamil, é  Tiru-Mantiram de Tirumûlar.

• Os Puránas, coletâneas enciclopédicas da sabedoria tradicional, que abarcam de tudo, desde a cosmologia e a filosofia até histórias de reis e de santos. Contêm muitas lendas e ensinamentos yogues. Os seguintes são especialmente importantes: o Bhagavata-Purána (também chamado Shrímad-Bhágavata), o Shiva-Purána e o Devi-Bhágavata-Purána (uma obra tântrica).

• Os chamados Yoga-Upanishads (cerca de vinte textos), a maioria dos quais foi composta depois de 1000 d.C. Entre eles incluem-se três obras de peso: o Darshana-Upanishad, o Yoga-Shikhá-Upanishad e o Tejo-Bindu-Upanishad.

• Os textos do Hatha-Yoga, como a Goraksha-Samhitá, a Hatha-Yoga-Pradípiká, a Hatha-ratna-Avalí, a Gheranda-Samhitá, a Shiva-Samhitá, o Yoga-Yájnavalkya, o Yoga-Bíja, o Yoga-Shástra de Dattátreya, o Sat-Karma-Samgraha e  Shiva-Svarodaya, todos disponíveis em inglês.

• Os escritos vedânticos, como o volumoso Yoga-Vásishtha, que ensina o Jñána-Yoga, e seu tradicional resumo, o Laghu-Yoga-Vásishtha, ambos disponíveis em versões em inglês.

• A literatura do bhakti-márga ou caminho devocional, que assume especial importância entre os Vaishnavas (adoradores de Vishnu) e os Shaivas (adoradores de Shiva). Existe um número considerável de textos bhákticos tanto em sânscrito quanto em tamil, bem como em vários outros vernáculos do subcontinente indiano. O Bhakti-Sûtra de Nárada, o Bhakti-Sútra de Shándilya e o extenso Bhágavata-Purána, que é um relato detalhado (mitológico) do nascimento, vida e morte de Krishna e contém um grande número de histórias de yogins e ascetas, todas maravilhosas e inspiradoras. Essa bela obra contém também o Uddháva-Gitá, a última instrução esotérica de Krishna ao sábio Uddháva. A adoração da Deusa a partir do ponto de vista tântrico é o tema central do Devi-Bhágavata-Purána, que também deve ser estudado. Além disso, os estudiosos sinceros do Yoga devem também ler e ponderar os grandes textos yogues associados às diversas escolas do Budismo e do Jainismo. O encontro com o mundo do Yoga por meio de sua literatura será difícil para o praticante, por diversos motivos: os textos, mesmo traduzidos e anotados, na maioria das vezes são de difícil compreensão e exigem muita concentração e perseverança. Não temos de nos tornar eruditos, mas nosso estudo (svâdhyâya) nos mostrará o que é ser um verdadeiro yogin e quais são os magníficos instrumentos que o Yoga põe à nossa disposição. Aumentará também nosso autoconhecimento e fortalecerá nosso compromisso com a a prática.

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Questão de foco:

Dezembro 16, 2008 at 1:28 pm (Uncategorized)

Quando a Nasa iniciou o lançamento de astronautas, descobriu que as canetas não funcionariam com gravidade zero.
Para resolver este enorme problema, contrataram a Andersen Consulting, hoje Accenture.
Empregaram 12 milhões de dólares para sanar o problema.
Conseguiram desenvolver uma caneta que escrevesse com gravidade zero, de ponta cabeça, debaixo d’água, em praticamente qualquer superfície incluindo cristal e em variações de temperatura desde abaixo de zero até +300ºC.

Os russos foram mais econômicos, usaram lápis.

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Yoga e evolução

Novembro 28, 2008 at 9:44 pm (Uncategorized)

Cuidado para não se deixar seduzir por uma leitura ocidentalizada da tradição do Yoga.

A idéia mais próxima de evolução que a tradição indiana predica é o “parinama”, que expressa a inconstância das formas no mundo material. Na literatura hindu, um cidadão pode morrer humano e nascer animal ou inseto. O parinama pressupõe mudança das formas, mas não necessariamente para atender a um desígnio superior ou para buscar uma perfeição idealizada.

O Yoga é o método adotado pelo Estado Indiano na Educação para converter suas crianças em “siddhas” (perfeitos). E siddha é a condição da pessoa que revela a sua perfeição natural (sahajasiddhiH). Naturalmente não estamos nos referindo à perfeição das formas, mas à sinceridade e autenticidade das ações.

Então podemos afirmar que não se deve dizer que o Yoga é “acelerador evolutivo”, pois nem ele acelera coisa alguma, nem tampouco o yogi busca qualquer tipo de “evolução”.

Antes que me ataquem pelos detalhes das palavras que utilizo, chamo a sua atenção para o fato de que, em termos de Ciência, a palavra “evolução” designa o conjunto de adaptações ou especializações pelas quais passa um organismo, e que asseguram a ele uma melhor adequação ao meio em que vive.

O Yoga não se destina à transformação do corpo, mas à realização de nossa natureza interior (svadharma), o que acaba por nos permitir viver melhor nesse mesmo corpo. Calmamente, sem pressa.

Dizendo de outra maneira, não estamos evoluindo quando buscamos nos tornar mais perefeitamente aquilo que já somos potencialmente. O desabrochar da semente, ou o amadurecimento do fruto, não se confunde com um processo evolutivo – que mudaria a sua natureza intrínseca.

A vida é um discurso, uma incessante sucessão de palavras. A razão aprisiona cada indivíduo numa teia de relações.

O Yoga transforma a vida em poesia da melhor qualidade. Por isso os sábios hindus eram chamados de “poetas” (kavayaH).

Carlos Eduardo, professor de sânscrito e cultura indiana.

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Yoga e Espiritismo

Novembro 7, 2008 at 9:23 pm (Uncategorized)

O Espiritismo é o que temos de mais parecido, no Ocidente, com as tradições preservadas na Índia. Isso é particularmente válido se nos referirmos mais especificamente à região dos Himalaias (Garhwali, Kumaeoni, Nepali e Tibetanos).

Há, no entanto, uma certa dificuldade em conciliar esses corpos culturais, em especial em razão da rejeição que o Espiritismo Kardecista apresenta, em suas obras, em relação a tudo aquilo que não seja a mensagem do Evangelho cristão.

Quando o Espirito “Emmanuel”, pela pena do saudoso Chico Xavier (não me recordo o nome do livro, mas qualquer espírita sabe qual é), enuncia que antes de Jesus Cristo não havia caridade, humildade, bondade sincera e outras qualidades essenciais para o bom espírita – usando como ilustração de seu argumento o Egito, a Índia, a Mesopotâmia, etc. fica muito claro que alguns espíritas rejeitam a validade dessas antigas culturas como referência para a boa espiritualidade.

No entanto, o espiritismo também tem defensores da boa diplomacia com a Índia desencarnada. As obras atribuídas ao espírito “Ramatis” partem da premissa de que há núcleos espíritas no mundo espiritual baseados no Hinduísmo – ainda que segundo esse segmento, também esses espíritos indianos reconhecem a supremacia da palavra de Jesus Cristo sobre as tradições do Oriente.

Quanto ao Yoga, em si, ainda que não seja uma norma a sua prática pelos espíritas, ele ofereceu a esse movimento uma contribuição inestimável. Para começar, a nomenclatura espírita utiliza termos da tradição tântrica do Yoga, em especial reconhecendo os “chakras”, o conceito de “karma” (reinterpretado, é claro), a idéia do “prana” e a importância do silêncio e da meditação. As práticas de controle respiratório também são essenciais à boa mediunidade.

Portanto, não há porque não aproximar mais o Yoga do Espiritismo. Não sei quantos yoginas vão se entusiasmar com a cultura espírita, mas certamente um pouco da prática de Yoga não vai fazer mal a médium nenhum.

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Como surgem as instabilidades na mente? – por Daniel Nodari

Outubro 31, 2008 at 1:47 pm (Filosofia do yoga) (, , , , , , , )

Palavras chaves:
Ahámkara (noção do eu, consciência de si, ego)
Buddhi (inteligência superior,  intelecto)
Chitta (aspecto superior mente)
Indriya (os cinco órgãos dos sentidos sensoriais)
Manas (mente, pensamento)
Nirodhah (supressão)
Vritti (instabilidade mental ou profusão de pensamentos)

A meditação deveria vir naturalmente, como resultado da serenidade da mente, como causa da prática do Sama (controle da mente), Dama (controle dos sentidos), Uparati (controle dosobjetos dos sentidos)  e Pratyahara (abstração dos sentido). – Swámi Sivánanda

Falamos tanto em Pátañjali e principalmente no seu mais famoso sútra I:2: Yogash chitta vritti nirodhah, Yoga é a supressão da instabilidade da consciência. Muitas traduções e interpretações sobre este aforismo já foram feitas e a idéia deste texto não é fazer mais uma tradução ou interpretação, o foco principal consiste em analisar um fragmento, o fragmento de como são gerados os vrittis. Mas para que a idéia principal do texto possa ser trabalhada é necessário que se faça pequenos comentários sobre este sútra.

Para deixar a tradução ainda mais completa, tal sútra poderia ser traduzido e interpretado como: o processo de união (yogash) acontece quando toda a instabilidade (vritti) na consciência (chitta) for cessada (nirodhah). Entenda-se a palavra Yoga como “união” ou uma técnica que gera um “processo de união”.

Yoga é uma prática que promove uma tríplice união no ser humano. O primeiro processo de união acontece consigo mesmo, processo de autoconhecimento. O segundo processo de união acontece através da união com os outros seres vivos, só após a compreensão de si mesmo é que se iniciará a compreensão dos outros seres vivos. E o terceiro processo de união acontece quando a consciência do sádhaka (praticante) une-se com a consciência cósmica, com a totalidade, quebrando a dualidade entre púrusha e prakriti, e entre o observador e o objeto observado.

Nirodhah é a supressão dessas instabilidades, veja que optamos por supressão e não por repressão. Repressão é o ato de reprimir ou impor algo e quando algo é imposto ou reprimido, a tendência é que venha a se rebelar. Caso você reprima seus pensamentos, você corre o risco de nunca conseguir cessar a instabilidade da mente, pois a sua mente e os seus pensamentos estarão se rebelando contra você. A supressão é fazer com que se extingam as instabilidades de forma gradual.

Vritti pode ser traduzido das mais diversas formas, mas sempre expressando a mesma idéia: instabilidade, turbulência, modificação, movimento, idéias, vortéx, fenômenos e mudanças que acontecem constantemente em chitta (aspecto superior da mente).

Vrittis são gerados por cincos caminhos, portas de acesso ou vias de conexão com o mundo exterior. Essa via de acesso chama-se indriya, os cinco sentidos sensoriais.

Manas (mente) atuará inicialmente através da presença dos órgãos sensoriais, assim como as outras estruturas cognitivas (buddhi e ahámkara) estão diretamente associadas umas com as outras. Os órgãos sensoriais, portanto, serão o início de toda a atividade mental e esta atividade mental terá como substrato final a produção do vritti. Segundo Pátañjali, “a meditação elimina tais vrittis”, Dhyána heyás tad vrttayah, II-11.

Indriyas se conectam com manas, que se conecta com buddhi, que se conecta com ahámkara, ou seja, chitta e indriya funcionam ativos e constantemente. Lembrando que chitta é o aspecto superior da consciência que engloba manas, buddhi e ahámkara.

Os cinco órgãos dos sentidos, atividades sensoriais ou faculdades sensoriais são: srotra (audição), ghrána (olfato), chakshu (visão), rasana (paladar) e spárshana (tato). Neste conjunto, recebem o nome de Jnánendriya, órgãos dos sentidos que geram o conhecimento (jnána).

Indryia é a conexão do mundo externo com o mundo interno, a relação de objetos com o sujeito. Sendo assim, as instabilidades na consciência nada mais são do que uma projeção do mundo exterior em forma de pensamentos, como se trouxéssemos o mundo para dentro de nossa cabeça, só que na forma de pensamentos. Toda a agitação do mundo, a inquietação das pessoas, vozes de pessoas, barulho do trânsito, luzes e imagens de outdoors, o cheiro da poluição, a visão da miséria e pobreza, fenômenos naturais como ventos, chuvas, terremotos, etc., todas essas turbulências ficam impressas dentro da nossa mente, na mesma freqüência que se encontram no mundo. A percepção de agitação gera agitação na mente, a visão de confusão gera confusão nos pensamentos, e assim por diante…

O mesmo acontece todos os outros órgãos sensoriais. Os sons, por exemplo, além de servirem de identificadores sonoros dos objetos, também alteram diretamente os nossos estados emocionais. Lembranças do passado, sentimentos bons ou ruins vêm à tona através da energia do som. Isso que nem estamos comentando sobre os efeitos dos mantras (kirtans e bhajans) que atuam diretamente no nosso psiquismo e dos bíja mantra que atuam nos chakras localizados no prána máyá kosha (corpo ilusório composto por prána ou corpo sutil).

Chitta é o aspecto superior da mente. Chitta se divide em manas (mente), buddhi (intelecto) e ahámkara (ego, noção da própria existência). O termo chitta, exposto no contexto do Rája Yoga de Pátañjali, corresponde ao Antahkarana no contexto do Vedanta. Antahkarana é o psiquismo, instrumento interior, assim como mente, intelecto, ego e a mente subconsciente. É responsável pelas experiências físicas e psíquicas do ser humano.

Smriti (memória) é um dos aspectos funcionais de chitta. É através da memória e da associação de um pensamento com outros pensamentos que ocorre a instabilidade de pensamentos na consciência. Armazenamos informações tanto de forma consciente como de forma inconsciente, a maioria das impressões marcadas no nosso subconsciente foram armazenadas sem que tomássemos consciência do processo. Ou seja, acumulamos tantas informações advindas dos cincos sentidos sensoriais que nem é possível perceber a velocidade de informações armazenadas na memória.

Manas é quem tem o primeiro contato com as informações recebidas pelo mundo externo. Tudo que é visto, cheirado, escutado, degustado e sentido passa por manas. Manas codifica as informações geradas por indriya transformando-as em namah (nome) e rupa (forma). Após a identificação da informação no plano mental, inicia-se processo de formação dos vrittis.

Dando um exemplo bem prático de como manas percebe as informações: ao ouvir o latido de um cachorro a mente automaticamente reafirma a informação dizendo: “isso é o latido de um cachorro”. Manas analisou de forma superficial a informação percebida.

Buddhi distinguirá as diferentes formas, tamanhos, cores, aromas, sons, paladares, temperatura, dimensões, texturas, etc… Ao se observar um objeto, automaticamente acontece o processo de racionalização do objeto visualizado, mesmo que seja inconsciente, mas isso acontece a toda hora.

É assim que inicia a atividade em buddhi, intelectualizando tais informações percebidas por manas. Usando agora o mesmo exemplo anterior:  após manas ter percebido a informação, tal informação será desmembrada. Já sabemos que o som percebido foi de um latido de cachorro, mas agora buddhi informará (através da atividade mental que acontece com uma velocidade muito rápida) qual o tamanho do cachorro, qual a raça, se o som é grave ou agudo, qual a direção do som percebido, se foi um latido de alegria, dor, fome, de alerta, se o som está próximo ou não, etc. Todo este processo de intelectualização da informação percebida por manas acontece em fração de segundo, a tal ponto que mal percebemos que toda essa atividade mental está acontecendo.

Agora que efetivamente o vritti é produzido e armazenado no plano mental, ahámkara será o aspecto da mente que afirmará se você conhece ou não conhece tal informação recebida através de um dos órgãos dos sentidos.

Quando ahámkara compreende, interpreta e assimila as informações de manas e buddhi o pensamento está gerado, por conseqüência o vritti também.

Ahámkara será quem afirmará se chitta realmente conhece ou não informações de manas e buddhi.

Conhecendo ou não conhecendo, a instabilidade já está instalada na mente. Instalada na forma de um objeto com nome e forma (namah e rupa) ou na forma de dúvida. Exemplificando esta última frase: ao receber uma informação do mundo externo, ahámkara irá dizer “sim, eu conheço” à informação recebida ou “eu não conheço”. Ao vermos um copo de água, manas recebe a informação, buddhi intelectualiza a informação e ahámkara reforçará a informação afirmando “isto eu conheço, isto é um copo de água”. Está gerado o vritti. Lembrando novamente que isso acontece em fração de segundos, tão rápido que nem tomamos conhecimento do processo.

E se ahámkara não conhece a informação recebida por manas e buddhi? Aqui vai um exemplo bem prático: o que é o tempo? Qual a concepção de tempo? O tempo existe? Independente da sua existência, o tempo existe? Questões deste nível ficam sem respostas, pois ahámkara, o princípio egóico, não consegue responder tais questionamentos pelo simples fato de não saber o que é o tempo. Portanto: “eu não sei o que é o tempo”. Não obtendo esta resposta, a dúvida está gerada, e por conseqüência mais um vritti foi gerado.

Aparentemente demos exemplos simples, mas são exatamente com esses exemplos simples que convivemos todos os dias. As informações têm cinco portas de acesso, os cinco sentidos sensoriais, e isso acontece de forma muito rápida, agora tente imaginar quantos pensamentos são gerados a cada minuto, a cada hora e a cada dia. Quantos vrittis foram gerados na sua consciência pelo fato de você estar lendo este texto agora? Vritti são muito mais contagiosos do que vírus e bactérias, ao assistir um filme você esta recebendo milhares de vrittis, ao ler um e-mail você está recebendo milhares de vrittis e mesmo ao atender um simples telefonema você estará recebendo milhares de vrittis! Realmente isso é muito contagioso!

Por isso que Pátañjali afirma que “yoga é a supressão da instabilidade na consciência”. E a cessação dos vrittis acontece pela via da meditação. Vrittis geram impressões marcantes em todos os nossos níveis de consciência, planos subconsciente e inconsciente, influindo diretamente em todos os nossos estados emocional e racionais.

Vrittis não são bons nem maus, são turbilhões de pensamentos que ficam rodeando a nossa mente e que vêm nos atrapalhar principalmente nas técnicas que exijam muita concentração. É exatamente quando tentamos diminuir por completo os pensamentos para atingir dhyána e samádhi (meditação e hiperconsciência) que as impressões deixadas pelos vrittis na nossa mente se tornam mais fortes. Só assim é que conseguimos vivenciar a dificuldade e complexidade que estão inseridas no sútra I:2 de Pátañjali. Primeiramente é importante conhecer os vrittis, saber como eles surgem e funcionam, para só assim conseguir suprimi-los por completo. Não tente brigar com os turbilhões de pensamentos, vá domando-os lentamente, que de forma bem natural eles irão cessar e você atingirá dhyána e sámadhi.

Para que o processo “cessação das ondas mentais” aconteça, o sádhaka já deve ter um bom tempo de prática e ter conseguido vivenciar (ou estar vivenciando), com êxito, as várias outras técnicas do yoga. Técnicas que no conjunto compõe o universo do yoga: mudrás (linguagem ou gestos manuais, mas nos shástras [escrituras] de hatha yoga, podem ser denominações de ásanas e bandhas), mantras (vocalização de kirtan, japa e bíja mantra), pránáyáma (técnicas respiratórias de captação de prána – bio-energia), kriyás (técnicas de purificação do corpo), bandhas (contração de glândulas, plexos e órgãos), ásanas (técnicas corporias), yoganidrá (técnica de descontração), pratyáhára (abstração dos sentidos sensoriais [indriya]), dháraná (concentração), dhyána (meditação), samádhi (hiperconsciência).

Reflita sobre os seus pensamentos e emoções, sobre os cinco sentidos e como eles  conectam você com o mundo. Observe como cada sentido produz estados emocionais e novos pensamentos. Conheça a raiz de seus pensamentos e emoções e obtenha sucesso nos seus sádhanas.

Indriya é o fator de conexão com o mundo externo e é através desta conexão que chitta (aspecto superior da mente) produz os vrittis. Esse é um dos árduos trabalhos do sádhaka, cessar todas essas instabilidades, pensamentos, emoções, para obter  sucesso como yogin, o samádhi.  Sinceramente, espero que estes meus vrittis tenham contribuído no seu processo evolutivo e na  busca do seu autoconhecimento.

(Texto autorizado e cedido por Daniel Nodari – professor de Yoga e músico – Ministra aulas na Casa do Yogin, Av Marilando 274, Bairro Higienópolis – Porto Alegre (51)30193688 – casadoyogin@terra.com.br e no Yoga Ganesha Studio – Rua Lima e Silva 740, 2 andar, Cidade Baixa, Porto Alegre, RS. (51) 3286.3068 – yogaganesha@yogaganesha.com. Contato: nodariwrum@gmail.com, danielyoga@gmail.com)

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DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL

Outubro 23, 2008 at 12:50 pm (Uncategorized)

Por Frei Betto


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos,recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados,ansiosos,geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado caféda manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?’

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foià aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom,então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’,retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã…’. ‘Que tanta coisa?’,perguntei. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada.

Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’

Estamos construindo super-homens e supermulheres totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um super executivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluíremaulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias deginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto?’. ‘Olha,uma maravilha, não tinha uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Antes, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto,em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi nho de prédio ou de quadra! Tudo évirtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais.

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil – com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos.

A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá ese apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de quefelicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar esterefrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!’ O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose. Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista.

Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber ahistória daquela cidade – a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral;hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinhade esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s.

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático.’Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego,também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial deAtenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser FELIZ’

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Elementos de Tantra

Outubro 21, 2008 at 10:17 pm (Ensino, Filosofia do yoga) (, , )

J. R. Araújo


A literatura Tantra refere-se especificamente ao aspecto feminino da Pessoa Suprema. Neste sistema, a realização da energia de prazer (shakti) da Deidade adorável é o objetivo último do praticante. Nos Tantras Vaishnavas, essa Energia Suprema é hladini shakti, personificada por Srimati Radharani. Para o praticante Shaiva (seguidor de Shiva) essa energia é personificada por Parvati. Qualquer que seja a deidade, Vishnu ou Shiva, de adoração do praticante, ele procura ocupar-se na contemplação e serviço da energia interna de sua deidade. Entrar em yoga sublime com a energia shakti de sua devoção é o objetivo supremo e desejável. Assim como o Senhor Supremo permanece junto de toda alma corporificada como Paramatma, sua energia interna, shaktidevi, também está presente como Kundalini devi.

Tantra Yoga procura a realização direta da Maha Shakti, a Divina Energia Interna da deidade de adoração do praticante (sakta) e envolve o aspecto mais geral onde diversas técnicas (asanas, mantras, puja, yantras, pranayana, dhyana, mudras, etc.) são utilizadas, promovendo a dinâmica de energias sutis para a obtenção de poderes especiais (siddhis) ou a realização de Maha Shakti. Kundalini Yoga, também conhecida como Bhuta-suddhi, é uma forma particular de Tantra Yoga. Estes termos referem-se a Kundalini Shakti ou a Suprema Energia no corpo humano, pela ascensão da qual, yoga ou samadhi é alcançado. Durante esta ascensão, os elementos do corpo e a mente são purificados (bhuta-suddhi). Kundalini Yoga procura a realização do aspecto localizado dessa energia interna, kundalinidevi, situada no Muladhara Chakra, em estado adormecido. Utiliza-se da movimentação das energias nos dois nadis, ida e pingala e suas convoluções em torno do sushumna ou canal central, em seu movimento ascendente. Existem seis chakras ou centros de energia alinhados e situados verticalmente, próximos à coluna vertebral. Na base da coluna vertebral, há o Muladhara chakra, onde repousa disposta em espiral a energia kundalini que é uma manifestação de Maha Shakti ou a Divina Deusa, como expansão da energia de prazer emanada do Senhor Supremo. O Senhor Supremo permanece junto de toda alma corporificada como Paramatma, sua energia sakti também está presente como Kundalini devi. A perfeição, neste sistema de yoga, consiste em direcionar esta energia, para o alto, fazendo-a circular por todos os seis chakras, por meio de uma série de exercícios respiratórios apropriados, meditação no bija-mantram característico de cada chakra, que é o mantra raiz ou a vibração sonora original conexa com cada um destes centros de energia e assim fazer esta energia despertar e ascender em direção ao alto da cabeça, onde está o Sahasrara Padma que não é considerado um chakra, mas uma abertura no alto da cabeça. Uma das técnicas de respiração do Kundalini Pranayana utilizada é a Bhairavi Kriya, considerada muito poderosa para a obtenção de poderes místicos (siddhis) e elevação da consciência.

A idéia de “Tantra Yoga” como uma prática sexual é uma completa distorção e mal representação do caminho espiritual genuíno e tradicional delineado nos Tantras. Os Tantras compreendem uma vasta coleção de textos védicos escritos em Sânscrito, abrangendo uma variada gama de assuntos, mas tendo como objetivo central o reviver de nossa relação espiritual com Deus. De acordo com o Nirukti, o dicionário padrão em Sânscrito, tantra significa “instrução”. Instrução em diversos campos do conhecimento tais como, meditação, construção de templos, agricultura, culinária, tecelagem, música, geometria e matemática, decoração, adoração e cerimônias no templo, organização de festivais religiosos, administração de comunidades, artes militares, comércio e finanças, vida familiar, conhecimento de ervas medicinais, e muitos outros assuntos.

Na tradição filosófico-espiritual chamada Sanatana-dharma, existem três sistemas principais que originalmente contêm ensinamentos sobre Sakti Devi e Kundalini. Estes sistemas compreendem os Vedas e Upanishads, que formam o sistema mais antigo, os Puranas e os Tantras. Nos Vedas encontramos informações especialmente no Atharva Veda. Nos Upanishads temos o Yogopanishad e o Kundalini Yoga Upanishad. Entre os Puranas temos o Shiva Purana, o Lingam Purana. No Markandeya Purana há uma parte designada como devimahatmya onde a devoção a Sakti devi é enfatizada, bem como no Upa-Purana Devi-Bhagavata. Existem dezoito Puranas principais e dezoito secundários ou Upa-Puranas. Dentre os textos tântricos tradicionais sobre o assunto, destacam-se os Sat Chakra Nirupana, Paduka Panchaka, Kularnava Tantra, Yoga Taravali (que descreve as técnicas de Kundalini-yoga), Sarada Tilak Tantram, Saundaryalahari que é um comentário de Sripad Shankaryacharya sobre as glórias de Kundalini ou a Divina Shakti.

A literatura tântrica segue duas vertentes, a dakshinachara (mão direita) e a vamchara (mão esquerda). Esta designação parece seguir o costume védico de que a mão direita é utilizada para atividades auspiciosas, puja (rituais de adoração), manuseio de artigos nas cerimônias prescritas nos Vedas ou mesmo higiene dos membros superiores do corpo, enquanto a mão esquerda é utilizada para atividades inferiores, como a higiene de determinadas partes do corpo, por exemplo. Assim, existem literaturas e práticas onde a abordagem seja dakshinachara ou vamchara. O Tantra da mão direita, diz respeito aos rituais de purificação e às atividades onde uma disciplina espiritual rígida procura a realização da energia original (Maha Shakti) emanada do Senhor Supremo. Todos esses textos mencionados no parágrafo anterior dizem respeito à dakshinachara.

Os Gaudiyas Vaishnavas utilizam-se de textos tântricos dakshinacharas, tais como Narada Pañcaratra, Brihad-gautamiya Tantra, Gautamiya Tantra, Svatvata Tantra, Brihad-vaishnava Tantra, Vishnu-yamala Tantra, Svayambhuva Tantra, Vaishnava Tantra, Tantra-nirnaya e outros. Em muitos volumes do Srimad-Bhagavatam e Caitanya Caritamrta, Srila Prabhupada (Mestre Espiritual na tradição gaudiya-vashnava) faz referências freqüentes a estes textos.

No Brihad Gautamiya Tantra é dito sobre Srimati Radharani :

devi krsna-mayi prokta
radhika para-devata
sarva-laksmi-mayi sarva-
kantih sammohini para

“A deusa transcendental Srimati Radharani é a consorte direta do Senhor Krishna. Ela é a figura central dentre todas as deusas da fortuna. Ela é a potência interna principal do Senhor e possui toda a atratividade para atrair a Toda-atrativa Personalidade de Deus“. No Caitanya-caritamrta, todo o capítulo 4 do Adi-lila, promove a explicação de .Srimati Radharani como a energia interna de Sri Krishna, com base no verso acima mencionado do Brihad Gautamiya Tantra.

Apesar de Tantra ser uma disciplina séria, existe uma prática que corresponde a uma escola trântrica de menor importância na Índia, mas que ganhou bastante difusão no Ocidente. É a escola Kaula Marga, onde a energia sexual é diretamente utilizada como uma mola propulsora de Kundalini Shakti. É uma prática muito rígida, onde exige uma disciplina rigorosa, mas que no decorrer dos anos tornou-se muito distorcida e que neste aspecto, degenerado, ganhou notoriedade no Ocidente. Em seu aspecto genuíno e tradicional o praticante (kaula) inicia seus estudos aos cinco anos de idade, quando é levado a um mosteiro ou ashram, numa floresta densa e inacessível lá permanecendo até a idade de cerca de vinte anos. Durante todo esse período observa celibato absoluto, imerso numa atmosfera propícia ao desenvolvimento pessoal, sem qualquer contato, até mesmo visual, com pessoas de mentalidade mundana ou mesmo do sexo oposto. O Praticante recebe instrução teórica e prática em diversas atividades mencionadas nos sastras, tais como yoga, meditação, medicina, artes e ciências védicas. Segue uma disciplina rigorosa de purificação e conhecimento dos textos tântricos. Aprende a movimentar a energia sutil através do shushumna, passando-a pelos chakras e quando está quase pronto para o ritual final, encontra-se com sua shakti. È central, nessa tradição a figura da sakti. Esta é uma moça, educada igualmente de acordo com essa tradição, oferecida como esposa a esse rapaz desde quando este tinha a idade de cinco anos, quando foi levado ao ashram. Esta jovem também recebeu instruções, mas permaneceu durante todo esse tempo na casa de seus pais. São jovens provenientes de famílias shaktas devotadas e o sucesso nesta disciplina é o objetivo de suas vidas. É importante salientar que, em qualquer fase deste processo, havendo a falha de qualquer um deles, a procura do objetivo é imediatamente abandonada e eles voltam para suas famílias, onde a cerimônia de casamento é oficializada e, juntos, constituirão família. Antes, porém, tentarão com muito esforço e força de vontade a busca da emancipação em yoga. Neste momento, devidamente preparados, eles encontram-se na floresta, fora dos limites do ashram, e após uma breve cerimônia vão juntos, sem qualquer contato físico, cruzando a floresta, alimentando-se apenas daquilo que possam coletar, como frutos silvestres, folhas e raízes. Praticam austeridades (tapas), meditação (dhyana), observam celibato e executam muitos exercícios respiratórios sempre acompanhados de mantras em glorificação a Shakti devi cultivando sempre o desapego aos prazeres do corpo. Quando completam o ciclo de viverem na floresta, começam o ciclo urbano quando visitam lugares de peregrinação. Neste ciclo, não coletam alimentos, mas esmolam o que comer, trocam suas roupas com as roupas dos pedintes e dormem ao relento. Este é o período de maior austeridades, onde as práticas de meditação são incrementadas. Ao final deste ciclo, nem mesmo esmolam o que comer e, sem pedir, comem apenas o que recebem em caridade. Aí chegou o momento do teste final de seus desapegos ao corpo. Aproximam-se de um lugar onde cadáveres são cremados, e após vários dias em meditação e orações a Shakti devi, procuram uma parte qualquer de algum cadáver que tenha permanecida sem cremar totalmente e como teste final de seus desapegos, comem um pouco destes restos. Neste teste não deve haver repulsa ou medo, pois eles devem observar se têm apegos ou aversões provenientes de qualquer atividade corpórea.

No caso de superarem esta fase, agora estão aptos para a fase seguinte, Urdhvana Kriya. A verificação de ausência de apegos ou aversões nas atividades corpóreas, trará certeza aos praticantes de que ao adentrarem nesta fase, o farão sem qualquer mácula de gozo dos sentidos, e assim, terão o necessário controle para alcançarem o objetivo desta fase, após anos e anos de meticulosa preparação. A tradição “urdhvum” refere-se à prática de se transmutar a energia sexual, direcionando-a para cima, através dos nadis tântricos, até o alto da cabeça. Esta prática, denominada Urdhvamnaya Kriya, é reconhecida como uma técnica eficaz e usada em conjunto com o mantra sri-prasada-para . No Kulanarva Tantra, o Senhor Shiva afirma: “Ó Deveshi ! Saiba que este Urdhvamnaya é o meio mais simples e direto para a emancipação espiritual, o qual oferece mais e melhores frutos que qualquer outro método. Nem os Vedas, Ágamas, Sastras, Puranas, austeridades, peregrinações, mantras e nem mesmo as ervas medicinais, nada pode superar este Urdhvamnaya, aprendido apenas através do guru”. Nesta prática, os kaulas devidamente habilitados, por meses e meses de exercícios e testes, como os descritos acima, podem executar o ritual final, em um contato sexual, onde, na ausência de orgasmo ou ejaculação, toda a energia sexual não é desperdiçada, mas utilizada como uma mola propulsora da energia sakti, que será por fim impulsionada para o sahasrama padma, fazendo com que os praticantes alcancem o estágio último de realização da energia infinita de Shakti devi, usufruindo assim de um mergulho neste aspecto diversificado (feminino) do brahman, quando todos os siddhis e consciência superior se manifestam. È um caminho árduo, sério e por demais difícil, que nada tem a ver com a licenciosidade e orgia que faz parte dos exercícios de grupos e gurus indulgentes que nada entendem de Tantra e de seu real objetivo. Assim, depois de provarem a si mesmos estarem distantes da propensão ao gozo dos sentidos, livres do apego ou aversão corpóreos, totalmente situados em meditação na forma Shakti devi como suas Ishta-devata, deidade adorável, os kaulas submetem-se ao ritual urdhvana kriya, livres da propensão materialista de prazer, e assim bem sucedidos, entram em samadhi conseqüente do despertar de kundalini shakti. Esta forma ritual disciplinada, austera e bastante rígida é bem diferente da licenciosidade praticada nas assim chamadas academias de yoga tantra.

Os Kumaras alcançaram o estado de pureza, potência espiritual plena e desapego genuíno (niskriyan ), após executarem urdhva-retasa ou transmutarem a propensão sexual materialista (por meio da meditação) em energia espiritual pura. (Srimad. Bhagavatam, canto 3, cap.12, verso 4).

Portanto podemos entender que Tantra Yoga é uma disciplina que favorece ao avanço espiritual, possibilitando ao praticante a realização plena em yoga com as energias internas de prazer do Senhor Supremo. No Caitanya Caritamrta, Adi-lila, capítulo 4, Krishnadasa Kaviraja Goswami explica que Srimati Radharani é a origem de todas as Energias Lakshmis, ou deusas da fortuna, e, como o Senhor Vishnu é a origem do Senhor Shiva, a energia de prazer deste, também é uma expansão de Vishnu. O Senhor Krishna, é em última análise a fonte de todas as energias e a realização plena ou parcial destas energias é sempre um passo importante no caminho da auto-realização.

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Parte interessante do Kularnava Tantra

Outubro 20, 2008 at 11:48 pm (Filosofia do yoga)

“Neste mundo estão incontáveis massas de seres sofrendo toda forma de dor. A velhice espreita como uma tigresa. A vida se esvazia como se fosse a água de um pote quebrado. A doença mata como os inimigos. A prosperidade é apenas um sonho; a juventude é como uma flor. A vida é vista e se vai como o relâmpago. O corpo nada mais é que uma bolha d’água. Como então alguém pode saber disso e mesmo assim permanecer satisfeito? O Jivatma (corpo psíquico pessoal) passa pelos lakhs de experiência, entretanto somente como ser humano ele pode obter a verdade. É com grande dificuldade que se nasce ser humano. Portanto, é um suicida aquele que, tendo obtido um excelente nascimento, não sabe o que é para seu bem. Há alguns que tendo bebido o vinho da ilusão estão perdidos em buscas terrenas, não percebem o vôo do tempo e não são comovidos pela visão do sofrimento.

Há outros que caíram no poço profundo das Seis Filosofias – adversários fúteis lançados ao deslumbrante oceano dos Vedas e Shastras (escrituras). Eles estudam dia e noite e aprendem palavras. Alguns ainda, fascinados pelo conceito, falam do pensamento Umani de forma nenhuma percebendo-o. Meras palavras e conversa não podem dispersar a ilusão do errante. A escuridão não é dispersada pela menção da palavra ‘candeeiro’ . O que há então há fazer? Os Shastras (escrituras) são muitos, a vida é curta e há milhões de obstáculos. Portanto, que a essência deles seja compreendida, assim como o Hamsa (o cisne divino) separa o leite da água com a qual estava misturado.” (Kularnava Tantra)

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O Tantrismo Shakta

Outubro 16, 2008 at 11:34 pm (Uncategorized) (, , , )

“De todos os cultos tântricos, a tradição dos Shâkta é a que mais tem sofrido críticas, em razão de um entendimento e práticas errôneos. Muitos vêem neles somente ‘lascívia, mistério e magia negra, superstições tolas e vulgares’. Mas estudando-se mais profundamente os Shâkta Tantras com o propósito de entendê-los, encontra-se muito sentido nos princípios neles ensinados.

Filosoficamente, o Shâkta-darshana (filosofia, ponto de vista) é um tipo de não-dualismo. A realidade, de acordo com ele, é não-dual (advaita); é da natureza da Existência-Consciência-Beatitude (saccidânanda). É nirguna, isto é sem atributos, no sentido que não há distinções nela. Nada é real além dela. Todas as coisas são idênticas a ela. A realidade não-dual manifesta-se como o mundo de pluralidade através do poder de mâyâ. Até este ponto, o Advaita do Shaktismo está em acordo com o de Shankara (Vedanta clássico). Mas, enquanto para Shankara mâyâ é o princípio de ilusão que vela o verdadeiro Brahman (Ser Universal) e projeta-se no mundo irreal, para o Shaktismo, mâyâ é um poder real, manifestando-se na forma do universo diversificado.

A esse respeito,o ensinamento dos Shâkta é idêntico ao do Shivaísmo de Kâshmira. Ambos consideram a realidade última como sendo Shiva-Shakti, Consciência-Poder. Shiva é o princípio estático da consciência enquanto Shakti é o princípio cinético. Os Shâkta Tantras representam esta verdade pelo célebre provérbio, ‘Shiva sem Shakti é shava (cadáver)’ e pela figura de cinco cadáveres de Shiva sustentando o trono da Mãe do Mundo, nas deslumbrantes florestas da Ilha das Pedras Preciosas (Manidvîpa), cujas areias douradas são banhadas pelo Oceano da Imortalidade (amrta).

Enquanto Shiva é a fundação básica da criação, Shakti é seu princípio dinâmico, móvel. Há dois aspectos de Shakti, vidyâ ou chit-shakti e avidyâ ou mâyâ-shakti. Chit-shakti é da natureza da Iluminação e Consciência (prakâsha). Mâyâ-shakti é a mesma consciência que oculta a si mesma e projeta-se no mundo. É a potência do vir-a-ser, a semente da evolução (vimarsha). Através de mâyâ, o Um torna-se Muitos, o Infinito torna-se finito, o Supremo Espírito torna-se o mundo de Mente, Vida e Matéria. A evolução não afeta, realmente, a natureza de Shiva, que não é somente da forma do universo (vishvamaya) mas está além dele (vishvottîrna).

Em um mundo dominado por conceitos masculinos e com tendências profanas, a ênfase da filosofia Shâkta na maternidade de Deus é fascinante. É necessário ressaltar, no entanto, que Shakti é mulher somente figurativamente e simbólicamente. Shakti é Deus como o princípio de produtividade; e o Shâkta dá a Ele a forma feminina para propósitos de culto. Na verdade, segundo sua filosofia, a realidade última nem é masculina nem feminina. Um hino dedicado a Shakti o Mahâkâla-samhitâ diz:

‘Tu não és nem menina nem donzela nem velha. Na verdade, tu não és nem feminino nem masculino nem neutro. Tu és inconcebível, poder imensurável, o Ser de tudo que existe, livre de toda dualidade, o supremo Brahman, acessível somente pela Iluminação’.

T.M.P. Mahadevan, Outlines of Hinduism, p.203 – 206.

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